Crônica
de
Edson Angelo Muniz

 

 

Zé Souza — 100 anos de história


 
          Você já parou alguns instantes para pensar em como era o  mundo  há  101  anos?  Um  século  é  tempo  suficiente para acontecer muita coisa... Tantos acontecimentos importantes, alegres, outros tantos catastróficos, tristes, que nem dá para se publicar em uma edição do Jornal do Pontal. Talvez fosse possível publicar um livro, porém, eu não me arriscaria nessa empreitada e não tenho ideia de quem tivesse peito para realizar tamanha proeza.

Portanto, vamos falar de um acontecimento importante e de muita alegria: vamos falar do senhor José Virgílio de Souza que comemorou neste mês, 101 anos de história. Lúcido, inteligente, amável, tão saudável quanto se pode ser aos 101 anos de idade, com disposição para fazer, todos os dias, suas caminhadas matinais, em Ituiutaba, na Vila Platina, ou, quando está na fazenda do seu filho, no município de Gurinhatã, disposição para levantar-se antes do sol sair e ir lá no curral beber um copo de leite, que até há poucos anos era tirado por ele mesmo das tetas de uma de suas vacas, temperado com uma dose de conhaque palhinha.

O Senhor José Virgílio de Souza, ou simplesmente Zé Souza, como todos nós o conhecemos, é o caçula de uma família de doze irmãos, filhos de Vírgílio José de Souza e de Maria Purcina da Cruz, conhecida por Dona Maricota. Ele nasceu no município de Gurinhatã, num dia calmo de domingo, em 5 de fevereiro de 1905, na fazenda Olhos d'água, no São Jerônimo Pequeno - hoje conhecida por Fazenda Saltador. Esta fazenda que me refiro, fazia parte da grande gleba de terras que os trisavós do aniversariante compraram, lá pelos idos de 1842.

Seu Zé Souza viveu na fazenda onde nasceu durante toda a sua infância e boa parte da sua vida adulta. Quando ele fez 15 anos, em 1920, o rádio, a televisão, o telefone, o computador, o avião, a espaçonave, o homem chegando até à lua, tudo isso eram loucuras de ficção científica. As cidades da região não tinham flúor na água, não tinham ruas calçadas nem pavimentadas, não tinham energia elétrica. Não existiam doenças como a AIDS, nem caneta Bic, nem fita-cassete, nem CD, nem automóvel. Aliás, acho que ninguém da região tinha automóvel! Os meios de transporte daquela época eram o burro, o cavalo e o carro de boi.

São suas essas palavras: "No meu tempo de menino, quem tinha um conto de réis, era considerado rico."

Quando seus pais faleceram, o José Vergílio de Souza, ainda rapazola, foi morar com o seu cunhado Vital Severino e lá na fazenda do Vital ele tirava leite todos os dias e o desnatava: o creme era vendido ao laticínio, em Campina Verde, e o soro era dado aos porcos no mangueiro. Ele sente muita falta de todos os seus familiares que já se foram, ainda mais da sua irmã, que foi a sua pagem, a Emília, esposa do Vital. Até hoje, quando lembra dela, ele enche os olhos d'água, de tanta saudade.

Seu Zé Souza foi tropeiro e viveu a vida dos campos e das estradas, dormindo ao relento, comendo paçoca (uma mistura de carne de vaca com farinha) e respirando o sereno das madrugadas. Participou de muitas comitivas, às vezes, levando uma partida de vaca, outras vezes, uma partida de garrotes e de outra feita, eles conduziram uma porcada de 200 cabeças, para Ituiutaba. Ele mesmo me relatou uma destas viagens, quando levaram uma manada de 1108 bezerros, saindo do Arante, passando pelos Patos, até chegar no córrego do Queixada, perto do rio Paranaíba. Nesta viagem eles comeram na pensão, que existia perto da ponte do rio da Prata, e pernoitaram na Querubina, lá no córrego da Divisa, seguindo viagem de madrugada.

José Virgílio de Souza casou-se apenas uma vez, com sua prima Eulâmpia Severina Muniz, de quem ficou viúvo há pouco mais de 3 anos. Seu casamento aconteceu num dia chuvoso, em 12 de janeiro de 1929, no Cartório Civil de Ituiutaba. Ele contou-me que no dia do seu casamento, ele e sua querida noiva vieram, da fazenda Grama, no Arante, para a cidade de Ituiutaba, no fordinho 29 do Sr. Oscar Teodoro de Andrade, o primeiro da região, um carrinho branquinho que dava dó colocá-lo naquelas estradas poeirentas e às vezes, cheias de lama. Por causa da baixa velocidade do Fordinho 29 e do estado das estradas carreiras da época, a viagem de ida e volta, sob um sol causticante, durou um dia inteiro. Mas a felicidade era maior do que o tempo e a distância.

Quando nasceu a primeira filha, ele tinha 25 anos e quando nasceu o caçula, ele já contava 36 anos de muita luta. Os seus filhos: Oneida, Onaldo, Onásio, Onésio e Orípedes foram crescendo e assistindo a tudo que o pai fazia e ouvindo tudo o que ele falava, com olhos e ouvidos curiosos de crianças... depois com olhos e ouvidos rebeldes de jovens... e, hoje, com olhos e ouvidos de admiração de adultos. A vida toda seus filhos tiveram-no como padrão de pessoa honrada, honesta, corretíssima e com um coração enorme, sempre disposto a ajudar parentes e amigos.

Seu José foi candeeiro do seu pai e depois, quando passou a carreiro, seus filhos eram os seus candeeiros. Primeiro, ele comprou um carro velho e passou a amansar bois de carro para os outros e para ele mesmo. Depois que seu carro velho quebrou, numa viagem que fez, carreando milho, o Joaquim Severino fez pra ele um carro novo, carro este que lhe deu muito trabalho, mas também muita alegria e do qual ele sente saudade e vontade de ver. Ele me disse que vendeu este carro para um dos filhos do Oscar Alves e que se alguém souber notícias de seu antigo carro de boi, favor avisem-no, porque ele quer ir vê-lo, esteja onde e como estiver.

E foi vendo a casa cada vez mais cheia de filhos, netos e bisnetos, fazendo e refazendo festas, que o Seu Zé Souza e a Dona Eulâmpia viveram 73 anos de casados, em harmonia muito perfeita. O Dr. Gilberto Aparecido Severino disse-me um dia: “O Zé Souza é o tronco mais antigo da grande árvore genealógica das Família MUNIZ – SEVERINO – SOUZA LIMA.” Concordo com o amigo, pois, seus descendentes formam uma família de cinco filhos, dez netos, quatorze bisnetos e uma trineta. Esse pai exemplar, sertanejo nato, criou os filhos com a fartura da fazenda, indo à cidade, de tempos em tempos, de carro de boi, levando arroz, feijão ou milho, ou tocando uma vara de porcos, para trocar por sal, querosene, arame farpado, víveres e utensílios para a labuta diária nas lavouras, nos currais e nos pastos extensos.

Na sua casa, cada visitante era recebido prazerosamente e, depois dos cumprimentos de praxe, era levado para lavar as mãos e a poeira do rosto, tomar café-com-leite, comer biscoitos de polvilho assados em um forno de barro, polvilho este, é claro, feito por eles mesmos na fazenda, comer queijo fresco com rapadura e outras guloseimas. Conforme a hora, ficava para almoçar ou jantar, e participar de uma gostosa conversa. Seu Zé Souza sabia dividir bem as horas de trabalho nas pastagens, na lida com o gado, porcos e galinhas e nas lavouras de milho, arroz e feijão. Sabe-se que ele era um pouco carrancudo e rude, às vezes, mas gostava, e gosta mais ainda hoje em dia, de contar estórias e causos, relatar casos, recriando-os com enternecedora vontade de transmitir alegria e felicidade. Seu Zé Souza foi e é, acima de tudo, um homem bom, o leme seguro para muita gente nesta região, que aprendeu com ele a andar no caminho certo, pois conselheiro melhor não havia naquele pequeno grande sertão da Fazenda São Jerônimo, do qual fazia parte o seu pedacinho de chão abençoado.

Em sua fazenda, tinha um quintal com pés de jabuticaba, mamão, banana, laranja, manga, limão, figo, abacate, goiaba e muitas outras frutas... o que proporcionava à família e às visitas, saborosos doces e compotas, que a sua esposa fazia num grande tacho de cobre. No fundo do quintal havia um enorme galinheiro, onde ele ia catar os ovos todos os dias e aos domingos pegar galinhas para o almoço. Mais afastado ficava o mangueiro e o chiqueiro, o que garantia carne, lingüiça e banha farta durante todo o ano. Ao lado da casa ficava o grande curral onde eram fechados os bezerros e as vacas leiteiras para ordenhar e garantir o leite para o sustento de toda sua família. Ainda havia o engenho onde o Seu Zé Souza, com a ajuda dos filhos, e anos mais tarde, dos netos, cortava a cana um dia antes e no dia seguinte levantava de madrugada para moer, e depois passava o dia inteiro apurando o melado, nas fornalhas montadas lá na rebaixa. Posteriormente este melado transformava-se em açúcar de forma e rapaduras deliciosas. O açúcar de forma era de dois tipos: um de primeira, bem branquinho, que enchia uma caixa de bálsamo, das grandes, que até hoje o Seu Zé Souza guarda em sua casa; e outro mais escuro, guardado em outra caixa, ainda maior do que a primeira. Seu Zé recorda-se que o primeiro engenho era de madeira, muito pesado, por isso ele usava bois para puxá-lo. Depois, com um segundo engenho, de ferro, passou a usar cavalos na tração, e mais tarde, quando comprou um trator Ford São Dest, o Destin, como era chamado, passou a usá-lo para puxar o engenho também.

Seu Zé Souza trabalhou muito, enquanto forças Deus lhe deu, para criar os filhos e ajudar a criar os netos. Em 1978, por causa de problemas com sua saúde, ele fez a partilha de suas terras, deixando-as aos cuidados dos filhos, e mudou-se para a cidade de Ituiutaba, junto com a Dona Eulâmpia, e é lá que ele reside até hoje.

A Oneida, sua primogênita, contou-me o seguinte: "Meu pai era muito sistemático e sempre foi muito correto com a mamãe e muito bravo com os filhos. Quando nós estávamos fazendo alguma coisa que ele não aprovava, bastava o papai olhar para nós: era mesmo que jogar água na fornalha de fogo do engenho. Porém, ele nunca nos bateu. Só uma vez ele deu uma lambada no meu irmão Onaldo, no dia em que ele cortou, com o machado, o dedo polegar do Orípedes, mesmo tendo sido um acidente. Por ser a filha mais velha, desde muito nova eu ajudava o papai na lida da fazenda: tirava leite, quebrava milho, ajudava a amansar os bois de carro, trelava garrotes, cangava os bois, ajudava a encher o carro de boi, às vezes de milho ou arroz, outras vezes de lenha, e era sua candeeira. Fiz tudo isso, até o Onaldo crescer e seguir os passos do papai, sempre descalça e usando vestidos de algodão feitos pela minha mãe. Ela apanhava o algodão, fiava, tingia, tecia e costurava os vestidos. Era uma vida dura mas, às vezes, sinto saudades daquele tempo longínquo.

Vou dizer agora algumas palavras de seu filho Onásio, conhecido como Nino: “Meu pai foi um homem muito trabalhador, honrado, graças a Deus, que sempre ajudou os filhos, seja com seus conselhos, seja materialmente, seja emprestando dinheiro que ele cobrava, mas sem imbutir nenhum centavo de juros, independente do tempo que levávamos para pagá-lo. Agradeço tudo que tenho, e creio que os meus irmãos também, a este grande homem: José Virgílio de Souza, meu pai, e à minha mãe: Eulâmpia Severina Muniz, que se esforçaram ao máximo para criar sua família e eles conseguiram o seu intento. Ele gostava muito de caçar, mas jamais se esquecia da sua tarefa, do seu dever. Hoje, com 100 anos de idade, já batido pela crueza do tempo e curtido pelo sol ardente, no trabalho árduo da fazenda, ele continua sendo o meu espelho, o meu herói e eu agradeço a Deus por tudo, principalmente pelos meus pais.”

Seu filho Onésio lembra-se da casa de seus avós paternos, onde o seu Zé Souza nasceu. Era uma casa grande, de pau-a-pique, cujo palanque, na soleira da porta, era tão alto, que ele, aos oito anos de idade, quase não dava conta de subir. Esta casa ficava próxima da vertente do Saltador, local onde hoje ficam as casas dos irmãos Togamis e Benjamim. Ele me disse que ouvia seus pais contarem que quando seus avós morreram, sua mãe Eulâmpia foi morar com o Joaquim Severino, casado com a Maria Cândida, irmã do Zé Souza, e seu pai foi morar com o Vital, irmão do Joaquim, casado com a Emília, outra irmã do Zé Souza. Certamente daí surgiu o namoro dos dois, que se casaram e viveram mais de 70 anos juntos. Onésio me disse ainda que ele e seus irmãos nasceram em uma casa, também de pau-a-pique, com assoalho de tábuas, que ficava na baixada, perto do córrego São Jerônimo, no mesmo local onde o Tio Orípedes e a Tia Joana construíram a sua primeira casa e foram morar ao se casarem. Onésio se recorda de que sua mãe batia muito nos filhos, mas o seu Zé Souza nunca bateu. Ele foi candeeiro do seu pai e companheiro de várias caçadas.

Vou repetir aqui algumas palavras do seu filho caçula, o Orípedes, que no dia 27 de janeiro completou 64 anos: "O meu pai sempre foi muito bom pra todos os seus filhos. Foi um pai severo, mas nunca precisou levantar a mão para bater em nenhum deles. Quando ele foi carreiro, eu o ajudava, sendo seu candeeiro. Fui seu companheiro de caça e pesca, e lembro-me que, às vezes, ficávamos abarracados na beira de um rio até por trinta dias seguidos. Pai, saiba que eu te amo e te agradeço. Guardarei para sempre em minha memória, tudo o que você me ensinou. Todos os anos de minha vida não serão suficientes para agradecer ao senhor por ser meu pai.  Devo tudo que sou ao senhor, e só acredito que ainda posso ser melhor porque trago comigo as boas recordações e os seus ensinamentos que sempre vieram na hora certa. Papai, obrigado por me acompanhar  em todos os momentos de minha vida, principalmente nos dias  em que eu mais precisei do senhor.  A cada dia eu peço a Deus paz, felicidade e muita saúde para o senhor, que é o melhor pai do mundo. Eu te adoro."

O senhor José Vergílio de Souza, com uma alimentação o mais natural possível, e sempre comendo pouco, apesar do trabalho pesado da roça, conservou o corpo esguio e atlético. Aliás, até hoje, e apesar de um século de vida, seu corpo ainda é ereto e ele nem aparenta ter vivido tantos fevereiros. Zé Souza gosta de conversar e sorrir, e não gosta de chorar ou sentir tristeza. Embora sertanejo e de poucas letras, ele é um verdadeiro romancista verbal, um narrador inigualável. Na verdade, Seu Zé Souza tem uma experiência de vida, uma habilidade diplomática, uma riqueza de inteligência e bondade, dignas de muita admiração. Ninguém que o conhece deixa de dizer que ele é uma pessoa alegre e agradável, verdadeiro, bom caráter, construtor de amizade, e que também gosta de ouvir seu interlocutor com interesse e prazer, apesar de já estar com pouca audição.

Neste sábado, 5 de fevereiro de 2005, na festa dos 100 anos do Seu Zé Souza, vamos ouvir os seus primos-irmãos: Ambrosina Cândida Muniz "Tia Fihica", 82 anos; o Tio Guilherme Severino Muniz, 84 anos, o Elviro Theodoro Muniz "Bedego", 92 anos, e a Dolorina Severino Borges "Dona Senhora", malunga do Seu Zé Souza, dizendo-lhe: "Parabéns, querido primo-irmão". Vamos poder ouvir seus filhos, todos eles já no alto de seus mais de 60 anos, dizendo: "Parabéns, papai". Vamos ouvir a sua bisneta Ilanna Carla Muniz, que completa 7 aninhos no dia 27 deste mesmo mês, dizendo: "Parabéns, Vovô Zé Souza". E quando os seus netos, bisnetos, noras, parentes em todos os graus e os milhares de amigos o cumprimentarem efusivamente, ele vai abraçar e responder a todos com braços fortes e voz sonora, talvez um pouco rouca de emoção: "Obrigado... Muito obrigado..."

Posso afirmar que nós todos somos privilegiados, principalmente os familiares do senhor José Virgílio de Souza, porque, em meio a tantas atrocidades que a gente tem conhecimento, através dos jornais escritos e televisados, em meio a tantos homens sem caráter, aproveitadores, ladrões, gente sem escrúpulos, traiçoeiros e corruptos, temos bem aqui, pertinho de nós e de nossos filhos e netos, esse modelo de gente honrada, honesta, simples e corretíssima, como talvez não se faça mais.

Parabéns, Zé Souza. Que Deus o ilumine sempre.

 

 

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Notas:

1) Seu Zé Souza faleceu em 2008, com 103 anos.
2) Leia também o poema "Carreiro centenário", que fiz em
homenagem a Zé Souza, clicando aqui.

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