Capa de Edson Angelo Muniz

 

Osvaldo Parruda nasceu em 1933, em Ituiutaba, MG. É filho de Antonio José da Silva Rosado e Elvira Cândida Muniz. Participou, como ator, nos filmes "Igrejinha da serra" (1979) e "Anúncio de jornal" (1982). É compositor de músicas sertanejas. Uma de suas composições, "Legado sertanejo", escrita em parceria com Josino Cruvinel, foi gravada por Sérgio Reis em 2000. Escreveu vários roteiros para o cinema e, com base em um deles, começou um projeto para publicar um livro, mas ele morreu em 2009, sem ver o seu livro finalizado.

 


 
* * * * *  

Prefácio

 

A partir da releitura do pulsar dramático do cotidiano de um garimpo típico do sertão brasileiro, Osvaldo Parruda constrói e perfila suas personagens, as experiências que vão marcando sua trajetória de muita dureza e de muitos conflitos e as escolhas que a vida delas exige. O resultado? O canto do urutau, uma mini-novela fluida, instigante, bem construída, que conjuga leveza, densidade e congruência, em uma atmosfera de melancolia.

O cenário torna-se uma força: a trama é apresentada como algo causado e condicionado, possível e característico no mundo do garimpo, determinando as escolhas das personagens. A linguagem denota a simplicidade do cotidiano e das personagens, contudo, deixa entrever a seriedade da reflexão filosófica.

Na configuração de uma concepção de mundo, são evidenciadas não só as relações das personagens consigo mesmas, com os outros homens e com os animais, mas também com o transcendente e com os mitos que povoam o meio rural.

Costurando as unidades dramáticas na metáfora do garimpo como um jogo perigoso, o enunciador onisciente desnuda retoricamente a violência, harmoniosamente moldurada em suas diferentes nuances, desvelando a desumanização que reduz as pessoas a bichos. Contudo, o leitor é poupado dos detalhes da barbárie perpetrada contra o homem e o animal, pela elegância na formulação das construções elípticas, em que as imagens incisivas são apenas sugeridas.

A metáfora da essência humana também é vigorosamente explorada para coligir as células dramáticas. A disputa entre o primata e o civilizado que co-habitam no ser humano é realçada, dando ao leitor uma dimensão de sua própria humanidade; o que lhe permite conhecer melhor a si mesmo.

A sensualidade, a sexualidade e a paixão permeiam, de forma marcante, a obra. Com um quê de Shakespeare caipira, a tragédia de Romeu e Julieta é evocada, e neuroses sexuais e carências afetivas são viradas do avesso, nas viagens eróticas de uma das personagens.

Como um bom garimpeiro, de olhar minucioso, sensível e agudo, Parruda inaugura, com força, beleza e elegância, o ofício de ficcionista, revelando maturidade literária e preocupação social. Para ele, a literatura revela-se como um jeito envolvente, rico e original de dizer situações que mostram o que pode existir de dramático em nosso dia-a-dia e as coisas mais importantes da vida e, não, como um amontoado de regras.
 

 Ione Marta Franco Pereira
Professora da Universidade do Estado
de Minas Gerais — Campus de Ituiutaba

Técnica da Superintendência
Regional de Ensino de Ituiutaba

Acadêmica da ALAMI — Academia de
Letras, Artes e Música de Ituiutaba

 

* * * * *