Artigo

de

Edson Angelo Muniz

 

Rotina

       

Aquele 27 de julho de 2005, uma quarta-feira, foi um dia normal de trabalho, como qualquer outro. Terminei de paginar a tabela dos XXVIII Jogos Estudantis de Ituiutaba, um livreto de 40 páginas, e fui até a Secretaria de Educação e Cultura, para mostrá-la ao Reinaldo, Secretário de Esportes. O Departamento de Esportes da Prefeitura de Ituiutaba funcionava no mesmo prédio do Banco do Brasil, na Rua 20, entre as avenidas 9 e 11. Subi, por um dos elevadores, até ao 4.º Andar. Conversei com o Reinaldo, deixei as provas da tabela com ele, e voltei, trazendo nas mãos uma capa da mesma tabela, impressa na gráfica Egil.

Neste prédio funcionam dois elevadores. Apertei o botão do elevador da direita. Enquanto aguardava, comecei a reler as informações da capa da tabela. O outro elevador subiu primeiro. Entrei nele, apertei o botão de número 1 e continuei a ler o impresso. O elevador desceu e parou, a porta se abriu e eu, com os olhos na leitura, saí maquinalmente. A porta fechou-se atrás de mim e foi só aí que me dei conta de que estava no subsolo do prédio, numa garagem com vários carros e algumas motos. Confesso que até aquele dia eu não sabia da existência de tal garagem.

Apertei o botão do elevador; porém, a luzinha não acendeu: concluí que o elevador estava com defeito. Mesmo assim, apertei o botão novamente, com mais força, e nada. Dei uma volta pela garagem e resolvi ligar, do meu celular, para a minha filha Elisangela, que trabalhava na Egil. O celular chamou... chamou... mas ela não atendeu. Esperei alguns minutos e liguei novamente... silêncio total. Liguei para o celular da gráfica, mas este estava desligado. Liguei, então, no telefone fixo da Egil. A secretária atendeu e eu disse, afobado, porque a bateria do meu celular estava no fim:

— Léia, peça para o Thiago vir à Secretaria de Educação e...

Ela não ouviu a frase completa, porque a bateria do meu celular esgotou-se... Voltei ao elevador e apertei o botão várias vezes... e nada. Dirigi-me, então, até o portão de entrada dos veículos, fechado eletronicamente, e olhei por cima dele. Vi o movimento da Rua 20 e pensei em pular o portão. Mas não fiz essa besteira por vergonha e receio — receio porque no dia anterior acontecera um assalto a uma loja de celulares, Credenciada da CTBC, bem em frente a esse banco. Eu pensei: “E se o guarda do banco me ver pulando o portão? Ele vai pensar que eu sou um assaltante!...”

Entrei novamente na garagem. Procurei um canto para esvaziar a bexiga. Entrei por uma porta e deparei-me com um banheiro sujo, com restos de material de pintura empilhados e muita bagunça. O vaso continha em seu interior uma água podre. Uma verdadeira latrina. No chão, papéis sujos e uma calça velha. Mijei assim mesmo, aumentando a fedentina daquele local tétrico. Saí do banheiro e, de repente, as luzes apagaram-se. Arrepiei-me... Logo após, as luzes acenderam-se. Certamente são controladas por um temporizador, tendo em vista que esse apaga-acende repetiu-se minutos depois.

Voltei ao portão eletrônico e fiquei olhando para a rua, esperando que passasse alguém conhecido. Passou, então, na calçada, meu amigo Luciano Vilela Ribeiro, e eu o chamei:

— Luciano!...

Ele veio para o meu lado e, todo sorridente, perguntou-me:

— O que você está fazendo aí dentro, Edson?

— O elevador me prendeu aqui embaixo...

— Como assim?

— Depois eu te conto os detalhes, Luciano. O que eu quero que você faça, agora, é me tirar desse sufoco. Faz vinte minutos que eu estou preso aqui. Por favor, vá até o elevador do canto da parede e desça com ele até o subsolo para que eu possa subir.

Ele entrou no prédio. Corri de volta para a garagem e fiquei de frente à porta do elevador. Passaram-se mais alguns minutos e nada do elevador descer. Eu ouvia o som da voz dele, que vinha pelo fosso do elevador, conversando com alguém, mas eu não entendia o que eles estavam falando.

Voltei então ao portão e vi, com satisfação, que este estava se abrindo lentamente. Corri e encontrei-me com o Luciano e o Thiago — este último, atendendo ao meu chamado, havia ido até a Secretaria de Educação para me encontrar e ver o que eu queria.

O Luciano disse-me:

— Olha, Edson, tentei de tudo, mas o elevador não desceu, de jeito nenhum, ao subsolo. Deve ter sido uma falha elétrica que o prendeu lá embaixo. Então, pedi ao guarda do banco para abrir o portão.

Agradeci, com um certo alívio:

— Obrigado, Luciano. Obrigado, Thiago. Muito obrigado, meu Deus!

E retornei à minha rotina, na Gráfica Egil.

 

* * * * *       

Clique aqui e leia outros artigos

de Edson Angelo Muniz

* * * * *