Prefácio do livro

 

1.a edição                                                2.a edição
        

 

da escritora Wania de Sousa Majadas

 

 

PERSPECTIVAS ENSAÍSTICAS DE WANIA MAJADAS
 

Temos, com O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela, de Wania de Sousa Majadas, afortunada tentativa de analisar o conjunto da criação do ficcionista, sob uma óptica unificadora. Para alcançar seu objetivo, a ensaísta adotou o princípio diretor que une as invariantes temáticas sob o crivo de uma metodologia. Ou seja: observou como se distribuem nos contos, novelas e romances de Luiz Vilela os referentes emocionais e conceituais, que distinguem o autor e se aglutinam no romance Graça.

O método consistiu em operar uma intertextualidade restrita. Vale dizer, Wania Majadas exerceu um estudo comparativo de elementos das diferentes obras do próprio autor, não obstante, em determinados momentos, ter dado o salto supratextual, na busca dos autores dignificados na meta linguagem. Revela, por exemplo, como certas personagens encaram sua condição de escritor e se remetem a grandes ficcionistas preferidos, mormente os russos.

Com objetividade e consistência persuasiva, Wania Majadas demonstra pleno controle da obra analisada e se dirige a ela frequentes vezes, para sustentar sua tese. Evita, deste modo, congestionar o trabalho com abundantes citações teóricas, como de ordinário acontece com investigadores inexperientes, que se arrimam em abonações variadas a cada passo do pensamento. A tal ponto que, não raro, teses universitárias parecem peças enciclopédicas, pontilhadas de reiterações de cunho exibicionista.

Com a leitura de O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela, o leitor absorve plenamente o conteúdo da interpretação e convive com o universo da imaginação criadora do ficcionista.

Alguns aspectos da narrativa de Luiz Vilela ficam evidentes: o pronunciado gosto pelo diálogo, uma das chaves-mestras do seu extraordinário talento de comunicação; a atração pelo “tempo perdido”, de tal modo que a todo momento sua narrativa se direciona para a infância ou para episódios retidos pela sensibilidade do narrador; a seguir, a permanente sensação que suas obras transmitem da incompletude da situação amorosa; por último, a exploração do apelo passional que nele produz a injustiça humana. Daí, a “compaixão”, que Wania Majadas localiza nas falas dos narradores, em seu choque com as situações enfrentadas.

Como bem acentua a ensaísta: “Percebemos que o eu dividido, a desintegração do ser, a perda da identidade, a tentativa de resgate dos sonhos da infância e a compaixão entrelaçam todas as histórias como se fossem uma rede, reunindo livro por livro e produzindo uma obra que, pela coerência, se aproxima de uma autoconsciência definida, mas que desta se distancia pela inconclusibilidade.” Aliás, utilizando uma observação estilística, Wania Majadas assinala o emprego da sátira e do chiste como fatores de abrandamento das circunstâncias dramáticas ou confessionais do narrador: “Para, diante de tantas dores, não se entregar ao sentimental, Luiz Vilela utiliza alguns recursos estilísticos que geram doses de humor e ironia, servindo elas para minimizar o alto grau de compaixão para com o homem que povoa o espaço e o tempo de sua ficção.”

Na criteriosa investigação do drama amoroso, não escapa à ensaísta o estudo da solidão que envolve as personagens masculinas, titulares da ação narrativa. Como, aliás, se exprime o narrador do conto “No bar”: “Amar alguém é descobrir a nossa solidão.”

Aqui gostaríamos de efetuar ligeiro paralelo entre a obra de Luiz Vilela e a de Marcel Proust. Em ambas, as personagens masculinas comandam as relações, e o projeto vital de cada mulher permanece na sombra. A experiência do amor, nos dois autores, não implica o conhecimento do objeto amado, e a ausência de aprofundamento acaba levando à infelicidade e ao sofrimento. Praticamente não existe, em Proust como em Luiz Vilela, mulher apaixonada. Parece que, neles, a conduta amorosa é presidida pelas perguntas embaraçosas e humilhantes: sou capaz de amar alguém? é possível alguém me amar? Todo o drama assenta na impossibilidade de acesso à amada. Isso porque a construção do amor, tanto em Proust quanto em Luiz Vilela, é mental: o narrador cria a imagem que ele ama, nem sempre congenial com a mulher que ele tem a seu lado. Graça, por exemplo, é uma personagem incompatível com o companheiro, assim como, em Proust, Odette não corresponde a Swann, ou Albertine a Marcel-narrador.

Wania Majadas compreende muito bem a extensão dos relacionamentos eróticos na obra de Luiz Vilela: Faz uma investigação demorada de sua trama e colhe partículas do discurso amoroso nos vários contos, novelas e romances, para, afinal, centrar-se no romance Graça, uma espécie de estuário das coordenadas temáticas existentes nas demais obras. A conclusão é a inconclusibilidade das relações, que ficam abertas à função especulativa.

Para culminar seu ensaio, Wania Majadas procura nos conceitos, nos motivos livres e nas ramificações narrativas, as manifestações estéticas dos narradores, a fim de alcançar o substrato do pensamento do autor sobre a arte da ficção. É que Luiz Vilela utiliza frequentemente personagens intelectualizadas para encarnarem preceitos literários e juízos críticos.

Uma nota final sobre um dos “achados” de Wania Majadas: a localização da camada lírica no discurso narrativo. “Vimos que a tonalidade do lírico faz-se presente na obra de Luiz Vilela, principalmente no processo do recordar, plasmado na preferência pelos narradores-protagonistas, situação em que a distância entre o eu-narrador e o eu-narrado é estreita (sujeito-objeto), e as visões do eu (sujeito narrado) que foi e do eu que é (sujeito narrante) se imbricam.”

Com tantas iluminações do texto, resta-nos concluir pela pertinência do ensaio e pela beleza de sua realização. Lê-se o trabalho com prazer, pois agrada e instrui ao mesmo tempo.


Fábio Lucas
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