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Homem de fibra

 

                               Autor: Edson Angelo Muniz
 

Adaptado do texto de João Corrêa de Almeida

 

 

Para Adelino Marques

 

 

Num cantinho da mãe-terra, na encosta de uma serra,
Em modesta e humilde moradia.
Lá no meio do cerrado, num casebre todo esbroado,
Um homem de fibra nascia.


Pra se chegar até ali, passava-se pelo sarandi,
Que ficava à beira da mata.
Por uma estradinha tropeira, mundão aberto sem porteira,
No caminho da Furna Chata.


Daquele lar sempre em festa, hoje nada mais resta,
Só os esteios de aroeira,
Pelo tempo apodrecidos, uns de pé, outros caídos,
E uma centenária figueira.


Em sua infância sofrida, aprendeu muito na escola da vida
Pois frequentou só escolinhas rurais.
Quando rapazola foi retireiro,

domador de potro e vaqueiro,
Tirador de leite em vários currais.


No tempo de solteiro, esse homem foi pagodeiro
E gostava de tomar um gole.
Se a moça a foice lhe quebrava, ali ninguém mais dançava
Fazia o sanfoneiro fechar o fole.


Com o pagode ele acabava, seu trinta e oito pipocava
Nós pés da donzela assustada.
A tiros o lampião apagava e intragável o ar ficava
Com o cheiro de pólvora queimada.


Aos dezoito anos de idade, conheceu sua cara-metade
Que sua vida transformou.
Mudou toda sua sina, pois com a jovem Guilhermina,
Em quarenta e seis, casou.


Os anos foram passando, os filhos aumentando
E, de sol a sol, esse pai labutou.
Pensando no futuro dos filhos, botou a mudança nos trilhos
E em Ituiutaba a família chegou.


Dia e noite trabalhava, serviço nunca enjeitava,
Qualquer que fosse a função.
Vendeu frutas, foi carroceiro,

plantou hortaliças, foi charreteiro,
Tocou bar, restaurante e pensão.


Ao ver os filhos formados, sonhos realizados,
Sente orgulho do dever cumprido!
Vencedor, põe-se a chorar,

quando um neto vem lhe abraçar,
Dizendo-lhe: “Eu te adoro, vovô querido!”


Pra família, ele é um gigante,

pois seguiu seu caminho avante,
Transpondo barreira após barreira.
Nunca abandonou seu posto e, com o suor de seu rosto,
Foi apagando a poeira.


Esse homem é o corretor Adelino, que cumpriu seu destino
Com fibra de cerne de aroeira.
Seguindo por caminhos risonhos, Trilhas, versos e sonhos,
No mastro da vitória, hasteou sua bandeira.

 

__________
Este poema foi publicado no livro Trilha, versos e sonhos,

de Regina Marques, filho do Senhor Adelino Marques.

 

 

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Andarilho

 

                              Autor: Edson Angelo Muniz
 

Adaptado do conto "Andanças", de Ibrain Calil

 

 

Um empresário tinha tudo em sua vida
Linda esposa e dois filhos que adorava
Um lar sagrado onde era tão feliz
Pra onde todo dia do trabalho ele voltava


Mas certo dia o destino lhe marcou
Voltou pra casa e ficou desesperado
Na sua rua muita gente ele encontrou
Pois o seu lar estava todo incendiado


O desespero tomou conta deste homem
Perdeu a família e saiu louco pro mundo
Abandonou o seu trabalho e se transformou
Em um andarilho, e era chamado de vagabundo


Rosto barbudo, roupas sujas e rasgadas
Falando sozinho, passava-se por um louco
Seu alimento eram restos jogados no lixo
Amigos e parentes foi esquecendo pouco a pouco


Em suas andanças nunca sabia onde estava
E numa manhã passando por uma estrada
Viu duas crianças brincando numa fazenda
Ficou parado lembrando a vida passada


Viu sua casa e sua querida esposa
Igual um filme exibido em sua mente
Viu seus filhos lhe mandando mil beijinhos
Lá no jardim brincando alegremente


Mas de repente ele voltou à realidade
Quando viu uma criança ir para o asfalto
E uma carreta que descia em disparada
Nesse instante o amor falou mais alto


Saiu correndo, movido pela emoção
Pulou depressa e salvou aquela vida
E abraçava aquele ser tão pequenino
Como se fosse a sua filhinha querida


Porém, a mãe daquela linda menininha
Pensando que ele estava a lhe maltratar
Escorraçou o andarilho salvador
Ao ver a filha em seus braços soluçar


Aquele homem foi se afastando cabisbaixo
Mas muito feliz, pois uma vida ele salvou
Olhou para trás e ficou emocionado
Pois a menina um beijinho lhe mandou


E soltando-se dos braços de sua mãe
Ela correu, e ao andarilho abraçou
E as lágrimas rolaram naquele rosto sofrido
Quando a inocente criança em sua face beijou.

 

 

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Entrelinhas

 

                                                Autor: Edson Angelo Muniz

 

       Escrevi alguns poemas de maneira diferente, fazendo uma intertextualidade com o CD de uma dupla sertaneja, usando os títulos (aqui em vermelho) como frases do poema.

        O primeiro desta série, que chamei de "Entrelinhas", escrevi em 1988, mas ainda não o encontrei para publicar aqui.

 

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Um dia desses, me lembrei de você...
DEU MEDO
quando pensei que te amava e que, no entanto,
eu tinha sempre a
SOLIDÃO POR PERTO.
O tempo passou, e hoje ainda sinto o mesmo amor, e
TÔ QUERENDO VOCÊ.
Quero você junto de mim quando passear a cavalo
em uma fazenda, ou quando ir a uma festa de peão,
e, quem sabe, te amar na arena num
DIA DE RODEIO,
e depois, saciado o nosso desejo, tomarmos um
COPO DE VINHO.
Isso é somente um sonho, porque você se foi,
e no meu coração só ficou a saudade deste nosso
AMOR DIVIDIDO.
Sei que ti perdi, que estás distante, mas
NÃO ENTREGO
os pontos e continuo sonhando com o nosso reencontro.
Recordo quando éramos crianças e brincávamos de
casinha, de papai e mamãe ou de
"CUMADE" E "CUMPADE".
Quanta saudade!
Fico sozinho em meu quarto e o desespero toma conta de mim quando recordo tuas duras palavras:
"TÔ DANDO O FORA!"
E você então partiu, deixando essa cruel amargura
MACHUCANDO O CORAÇÃO
deste sofredor, que tanto te ama.
Fiquei triste com sua partida e me senti
ABANDONADO.
Chorei e amarguei o teu desprezo por longos anos,
mas, agora resolvi que
VOU ONDE VOCÊ ESTIVER,
quero voltar a ser feliz, e reviver aquele nosso amor inocente, que mais parecia um
AMOR DE NOVELA.
Só parecia. Não teve um final feliz
e ainda deixou profundas marcas de saudade.
Eu queria ser o seu peão apaixonado,
e viver contigo uma
PAIXÃO DE RODEIO.
Talvez o tempo não me dê tempo para te encontrar, mas, sigo sempre em frente, em busca deste sonho, porque eu sou
UM SONHADOR!
 

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       Em novembro de 2002, escrevi o poema abaixo, usando os títulos do 2.º CD de Geraldo Viola & Dino Guedes, a quem eu dedico estes versos.

 
Estou só... triste... no "Bar Solidão".
Nunca em minha vida eu me senti assim:
vazio... perdido... desesperado... feito uma
PRESA ACUADA.
Meu coração está machucado,
e pra afogar a minha mágoa,
bebo e ponteio a minha
VIOLA PERFEITA.
Mas a dor da separação dilacera a minh'alma
e eu me desespero, sentindo
SAUDADE DE UM BEM.
Eu sempre sofri calado,
mas hoje eu não suportei,
peguei papel e lápis e escrevi este
DESABAFO DE PAIXÃO.
Todas as noites eu saio a te procurar,
porém, eu não te encontro.
Aí, fico vagando sozinho pela cidade,
PERDIDO NA MADRUGADA,
sem destino, sem amigos, chorando por este
AMOR DE GOIANA.
Ao chegar em casa, a solidão me apavora.
Deito na cama vazia e sonho com você
e parece que eu estou te amando por
DEBAIXO DO PANO.
Mas isto não passa de um sonho louco, e,
NO SILÊNCIO DA MADRUGADA
é que percebo o quanto eu estou apaixonado por você...
APAIXONADO DE DOER...
Elevo o meu pensamento e alço voo.
Um voo desequilibrado, sem rumo,
pois sem você eu sou um
FALCÃO FERIDO.
Mesmo assim, sofrendo,
não consigo esquecer você:
MULHER FORA DO COMUM.
E então, ao nascer de um novo dia,
preparo-me para sair novamente
À SUA PROCURA,
mas antes, ligo para o "Bar Solidão",
e deixo um recado:
ESTA NOITE EU PINTO AÍ!
 

 

 

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Trabalhador mola do mundo

 

                              Autor: Edson Angelo Muniz

 

 

Quando amanhece, quando um novo dia vem,
A cidade se aquece, fica toda em polvorosa.
É um corre-corre muito do assustador!
Cada ser leva consigo fé, e esperança tem,
de que seu dia será um mar de rosa,
e que será próspera a faina de todo trabalhador.

E essa azáfama, que é necessária ao mundo,
se repete em todo lugar,

ano após ano, década após década...
E o trabalhador, sofrido, oprimido, segue seu quinhão,
tendo a certeza do dever cumprido...

E de que o seu suor sagrado
não deixará faltar em sua mesa o sagrado pão...
E que ele contribuiu para o crescimento da Nação!

Nação! País que é construído pelo trabalhador,
pedra sobre pedra, tijolo por tijolo, sonho por sonho...
Mas, às vezes, o trabalhador é esquecido pela sociedade.
Às vezes, ele só é lembrado com mais ênfase, com alegria,
— chega a ser covardia essa descarada rejeição —,
no dia Primeiro de Maio e em época de eleição...

 

 

 

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Primeiro de maio

 

                              Autor: Edson Angelo Muniz

 

 

Dia consagrado aos trabalhadores, feriado internacional,
dia de luta e luto mundial, lembrando bravos operários,
que, no passado, morreram, travando uma batalha infernal,
reivindicando jornada de oito horas... melhores salários...

No Brasil, temos poucos motivos para esse dia comemorar.
É apenas um feriado dedicado a alguns, somente,
porque milhões de desempregados tentam trabalhar.
Cadê o trabalho? O ano todo, eles têm feriado permanente.

Todo trabalhador anseia por ganhar o pão de cada dia,
viver num país melhor, com mais emprego, mais igualdade.
Aí sim, poderemos ter um “primeiro de maio” com alegria
e amor, sem greves, com justiça social e humanidade.

Todos nós, que temos emprego, vamos fazer uma reflexão,
enquanto este “país maravilha” se transforma e acontece.
Façamos uma pausa, rezemos, com muito amor no coração,
e, no dia do trabalhador, elevemos aos céus esta prece:

Senhor, agradeço-Vos pela paz, tranquilidade, vida,
pela minha mesa farta, boa saúde, amizade e amor,
por meu trabalho sagrado e por minha família unida,
pois a família é a mola que impulsiona o trabalhador.

Senhor, venho Vos pedir, triste, contrito e humildemente,
que olheis pelos desempregados, dê-lhes mais proteção
e que eles possam encontrar um trabalho decente,
para que também seus filhos tenham um teto e o pão.
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