Crônica
de
Edson Angelo Muniz

 

Osvaldo Rosado Muniz
"Osvaldo Parruda"

O Osvaldo Parruda, também conhecido como Vadico, é filho de José Antonio da Silva Rosado e Elvira Cândida Muniz. Ele é o caçula de uma família de seis filhos, e nasceu no dia 25 de junho de 1933, na Fazenda Bandeira, que na época ainda era município de Ituiutaba.

Osvaldo iniciou seus estudos em uma escola da fazenda, depois, estudou em Ituiutaba, na Escola Estadual João Pinheiro e no Instituto Marden. Foi funcionário do Banco Crédito Real e passou em um concurso para o Banco do Brasil, mas não trabalhou nesse banco. Foi locutor da Rádio Platina, em Ituiutaba, e vendedor da extinta loja de eletrodomésticos, Carlos Saraiva, na cidade de Uberlândia.
Depois de alguns anos, mudou-se para Goiânia, GO, onde foi trabalhar de vendedor ambulante, em sociedade com um amigo. O negócio não deu certo, e em vez de ganhar dinheiro, acabou perdendo o pouco que tinha. Em Goiânia Osvaldo iniciou-se no teatro, mas as dificuldades financeiras fizeram com que ele se mudasse para Rio Verde, na tentativa de melhorar de vida. Neste cidade goiana, ele tomou conhecimento da história contada na música “Igrejinha da Serra” — de autoria do Marinheiro, e gravada por Praião & Prainha, e outras duplas sertanejas —, e o tino artístico de Parruda fez com que ele escrevesse um roteiro para o cinema, com o mesmo título da música. O filme é o primeiro longa-metragem totalmente goiano, feito em 1979, e foi gravado na fazenda Capa Branca, onde foi construída a igrejinha da Serra. Com uma hora e meia de duração, o filme conta a história de Evaristo e Rosinha, personagens que viveram no município de Rio Verde. O personagem de Evaristo foi interpretado por Osvaldo Parruda, e o do Rosinha, pela atriz Idelvina Bueno. O romance virou uma espécie de lenda. O filme “Igrejinha da Serra” foi dirigido por Alberto Rocco e Henrique Borges, e rodou o Brasil, fazendo sucesso.

Depois, na década de 80, Osvaldo Parruda trabalhou também, como ator, no melodrama paulistano “Anúncio de Jornal”, onde atuou ao lado Júlia Graziela — a cantora da música que deu nome ao filme —, Simone Carvalho, Paulo Leite e outros.

Osvaldo era um artista polivalente: além da ator e roteirista de cinema, foi empresário de peças teatrais e compositor de música sertaneja, algumas inéditas ainda, e entre elas: “Legado Sertanejo”, que escreveu em parceria com Josino Cruvinel, e que foi gravada, em 2000, por Sérgio Reis.

Há alguns anos, Parruda, aposentado, ficou mais quieto em Ituiutaba, e nos desfrutamos de sua agradável companhia, tanto para trocar um dedinho de prosa quanto para jogar o truco, que ele tanto gostava. E o Osvaldo Parruda foi um dos meus colaboradores quando eu estava escrevendo o livro “Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro”.

Em 2006 ele me procurou, na Egil, tendo em mãos um roteiro para o cinema, de uma aventura, romance, tragédia, que se passava em um garimpo, com o título “O canto do urutau”, e pediu-me para transcrever aquele texto, da linguagem cinematográfica, para a linguagem oral. Depois de fazer o que ele me pediu, levei o livro para que ele analisasse. O Osvaldo fez algumas correções e mudanças no livro, e me pediu para o enviar a uma editora de São Paulo. Eu enviei “O canto do urutau” para duas editoras. Mas, infelizmente, as grandes editoras não publicam autor desconhecido.

Este ano, o Osvaldo enviou um ofício para o Prefeito de Ituiutaba, pleiteando um apoio financeiro para a sua obra, mas o seu pedido não foi atendido. O seu livro está prontinho para ser impresso, porém, neste domingo, dia 27 de setembro, com 76 anos de idade, o primo Parruda partiu para a eternidade sem ver mais um sonho realizado. Fica a certeza de que continuaremos a buscar apoio junto aos órgãos culturais de Ituiutaba, e com os familiares e amigos do Osvaldo, e vamos publicar este seu livro, em honra de sua memória.

O artista Osvaldo Parruda, deixou os palcos da terra para brilhar no palco do céu.

 

 

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Nota: Com a colaboração de parentes e amigos, e como o grande esforço do José Rosado Muniz, o Zé Nêgo, irmão do Parruda, em 2010 o livro "O canto do urutau", de Osvaldo Parruda, foi publicado, na Egil, sob a supervisão gráfica de Edson Angelo Muniz, que também fez a organização textual e a montagem da capa.

 

 


 

Prefácio

 

A partir da releitura do pulsar dramático do cotidiano de um garimpo típico do sertão brasileiro, Osvaldo Parruda constrói e perfila suas personagens, as experiências que vão marcando sua trajetória de muita dureza e de muitos conflitos e as escolhas que a vida delas exige. O resultado? O canto do urutau, uma mini-novela fluida, instigante, bem construída, que conjuga leveza, densidade e congruência, em uma atmosfera de melancolia.

O cenário torna-se uma força: a trama é apresentada como algo causado e condicionado, possível e característico no mundo do garimpo, determinando as escolhas das personagens. A linguagem denota a simplicidade do cotidiano e das personagens, contudo, deixa entrever a seriedade da reflexão filosófica.

Na configuração de uma concepção de mundo, são evidenciadas não só as relações das personagens consigo mesmas, com os outros homens e com os animais, mas também com o transcendente e com os mitos que povoam o meio rural.

Costurando as unidades dramáticas na metáfora do garimpo como um jogo perigoso, o enunciador onisciente desnuda retoricamente a violência, harmoniosamente moldurada em suas diferentes nuances, desvelando a desumanização que reduz as pessoas a bichos. Contudo, o leitor é poupado dos detalhes da barbárie perpetrada contra o homem e o animal, pela elegância na formulação das construções elípticas, em que as imagens incisivas são apenas sugeridas.

A metáfora da essência humana também é vigorosamente explorada para coligir as células dramáticas. A disputa entre o primata e o civilizado que co-habitam no ser humano é realçada, dando ao leitor uma dimensão de sua própria humanidade; o que lhe permite conhecer melhor a si mesmo.

A sensualidade, a sexualidade e a paixão permeiam, de forma marcante, a obra. Com um quê de Shakespeare caipira, a tragédia de Romeu e Julieta é evocada, e neuroses sexuais e carências afetivas são viradas do avesso, nas viagens eróticas de uma das personagens.

Como um bom garimpeiro, de olhar minucioso, sensível e agudo, Parruda inaugura, com força, beleza e elegância, o ofício de ficcionista, revelando maturidade literária e preocupação social. Para ele, a literatura revela-se como um jeito envolvente, rico e original de dizer situações que mostram o que pode existir de dramático em nosso dia-a-dia e as coisas mais importantes da vida e, não, como um amontoado de regras.
 

 Ione Marta Franco Pereira
Professora da Universidade do Estado
de Minas Gerais — Campus de Ituiutaba

Técnica da Superintendência
Regional de Ensino de Ituiutaba

Acadêmica da ALAMI — Academia de
Letras, Artes e Música de Ituiutaba

 

 

 

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