Parecer da Comissão Julgadora

 

 

Num concurso de contos como este, que traz como referência o nome de um dos mais sérios autores brasileiros, é natural uma participação quase que massiça, poderíamos dizer, tanto de escritores dedicados à prosa quanto daqueles que, apenas por oportunismo, lançam mão desse tipo de escrita, muitos deles novíssimos, o que se deixa perceber facilmente em suas hesitações de forma e conteúdo.

Cerca de 2 mil textos nos foram passados para analisar, de tamanhos, temas, tendências e "sotaques" os mais variados, a minoria restrita ao conceito mais rígido de conto - narrativa curta girando em tomo de um só núcleo, à moda machadiana -, mas a maioria absoluta atestando aquela máxima irritada do Mário de Andrade de 1938, hoje constante de O empalhador de passarinhos: "Conto é aquilo que seu autor batizou com o nome de conto".

Compreendamos bem estas palavras: conto não é algo cuja identidade cabe ao leitor decidir, o que, se dependesse desse expediente, acabaria por levar o leitor a uma crise infindável, sobretudo na interpretação de textos encaminhados a concurso, os quais freqüentemente se mostram presos a um desejo de ser diferentes, inovadores, de se colocarem muito além do cânone estabelecido.

Deve-se a esse desejo o fato de uma gama considerável de textos apresentados a este concurso extravasar completamente da esfera do conto, da short story, sendo eles, na verdade, romances de dezenas de páginas, ensaios e até poemas. Claro, eles não foram descartados apenas em conseqüência disso; afinal, o século XX jogou por terra a noção purista de gênero e consolidou o hibridismo como atitude própria da coisa literária.

Mas, por outro lado, tal aspecto contribuiu significativamente para a desclassificação desses textos, à medida que comprovamos que neles não se revelava nenhum novo Cortázar ou qualquer outro mestre da "degeneração" literária, da destruição da idéia de gênero, à medida que comprovamos, não sem uma boa dose de decepção, que ali se afirmava tão-somente uma flagrante carência de identidade pessoal.

Assim, se fomos, no processo de leitura, excessivamente generosos em relação à identidade textual, se trabalhamos com um conceito mais livre de conto, por outro lado tentamos ser excessivamente rigorosos em relação à identidade autoral, procuramos encontrar rostos próprios, maneiras autênticas de interpretar o ,real, de "costurar" o que se quer dizer, a respiração que define um escritor.

A nosso ver, tais aspectos se encontram nos dez textos que selecionamos para integrar esta antologia, todos, na verdade, com mérito para serem agraciados com a primeira colocação nesta edição do Concurso de Contos Luiz Vilela; mas, infelizmente, tínhamos de apontar o dedo para um e dizer: é esse.

O conto escolhido foi "O galo de Asclépio", de Gabriel Leitão.

Regulamento à parte, gostaríamos de assinalar que este estranho conto tem, para nós, uma função também "referencial" nesta coletânea: é referência da densidade, do caráter reflexivo, do aspecto inusitado, do esforço de linguagem que estão presentes em todos os demais contos; um modo sério de se fazer literatura, no meio da vida, por onde, inevitavelmente, chega-se à idéia de morte, motor do escrever.

Optamos justamente pela seriedade destes textos, quisemos contrariar a prática equivocada do que Calvino chamou de "leveza" nas Seis propostas para o próximo milênio (que é este), por entender que a literatura, em quaisquer de suas modalidades, tem a ver com suas verdades, construídas ao longo da história ocidental, não com as modas literárias ditadas pela vida monetária.

Estes textos - não pelos seus latentes intertextos, mas pelo simples fato de estarem na contramão das modas atuais - dão importante contribuição para que a literatura praticada aqui e em outros espaços encontre-se consigo mesma, deixe de ser propaganda de novela televisiva e volte a ser literatura.

E é assim que eles atestam o papel libertário que concursos como este podem desempenhar. 

 

Anelito de Oliveira e

Cassiano Elek Machado.