Parecer da Comissão Julgadora

 

 

Conhecido nacionalmente, graças ao êxito das edições anteriores, era de se esperar que o Concurso de Contos Luiz Vilela atraísse um grande número de inscritos. Ainda assim, o total de trabalhos causou surpresa — foram mais de 1300, revelando uma diversidade também muito grande de estilos, de temáticas e mesmo de regiões do País, identificáveis às vezes pelo espaço físico da narrativa, às vezes pelo “sotaque” característico deste ou daquele estado.

Os contos tratavam de ampla gama de assuntos, da sátira política à parábola religiosa, da intriga policial à ficção científica ou fantástica. A maior parte deles, porém, debruçava-se sobre o cotidiano. O conjunto também revelou-se uma boa amostra das influências vivas entre os leitores brasileiros — uma vez que ser leitor é, via de regra, a condição inicial de quem almeja construir sua própria obra literária (embora, em muitos casos, seja transparente o impacto de novas linguagens, sobretudo o cinema e a televisão).

A narrativa realista domina, em geral seguindo um estilo bem tradicional ou, então, um completo coloquialismo. Mas ainda aparecem, fortes, traços do romantismo; muitas vezes, até, da subliteratura romântica, dos romances água-com-açúcar vendidos em bancas de revista. Há uma cota de herdeiros de Guimarães Rosa, que se esforçam por apresentar um trabalho sofisticado com a linguagem, e aqueles que incorporaram elementos das vanguardas literárias, como a fragmentação e a ambiguidade do discurso.

Algumas dezenas de contos apresentavam uma artesania competente, fruto, sem dúvida, de uma intimidade maior com o fazer literário, de um contato com uma literatura mais ampla e mais selecionada, de uma maior experiência no manejo da palavra. Aliás, as obras premiadas revelam que também aí, no grupo dos trabalhos melhor realizados, é grande a diversidade de vertentes e temáticas.

Uma grande parte dos inscritos, porém, demonstrava o contrário: a absoluta inexperiência, o desconhecimento até mesmo dos parâmetros mais elementares da literatura — o que fez, por exemplo, com que uma quantidade de poesias estivesse participando do concurso de contos. Fica claro que essas pessoas, mais do que por qualquer veleidade artística, são movidas pela vontade de auto-expressão. Querem exteriorizar uma experiência de vida que lhes parece significativa ou, pelo menos, curiosa, manifestar sua indignação ou seu apreço, proclamar a ligação com alguém que amam, difundir uma sabedoria convencional (não por acaso, muitos escolheram a forma do apólogo) ou, talvez, apenas passar adiante uma anedota que julgaram divertida.

Tais manifestações tendem a ser desconsideradas como realização literária, mas são legítimas e preciosas. Revelam a busca pela expressão, a necessidade de se fazerem ouvir e, mais do que isso, um desejo de apropriação da literatura, uma ferramenta que no Brasil costuma ser privilégio de poucos. Mesmo aqueles que se mostram menos qualificados para a tarefa — aqueles que revelam uma escolarização precária e tropeçam em todas as armadilhas da ortografia e da sintaxe — estão indicando a valorização da palavra escrita e reivindicando seu direito de fazer uso dela.

Na seleção dos dez melhores, privilegiamos sim o domínio da técnica, a capacidade narrativa, a segurança no estilo. Mas é importante ressaltar que a literatura permite um uso social que vai muito além dos cânones e que, pelo Brasil afora, milhares de pessoas fazem dela, com os recursos que possuem, um instrumento para sua própria expressão. O que nem é tão pouco assim: a busca desta expressão sempre foi também o móvel da melhor literatura.


Ituiutaba, 16 de fevereiro de 2002.

Jamil Snege,
Miguel Sanches Neto e
Regina Dalcastagnè.