Parecer da Comissão Julgadora

 

 

Convidados pela Fundação Cultural de ltuiutaba como membros da comissão julgadora do 10.o Concurso de Contos Luiz Vilela, recebemos uma soberba caixa de papelão com cerca de um metro de altura. Isto é: cada um recebeu uma caixa assim, com conteúdo semelhante.

Perplexos, senão desconsolados, falamo-nos por telefone, cogitando da aventura ou desventura da avaliação de contos medidos a metro. Eram apenas 1473 os contos inscritos, número quase galáctico, próprio de distâncias calculadas em anos-luz, supondo que na média pareciam contar de cinco a seis páginas cada um.

Se esta era uma certa medida espacial, a medida temporal não preocupava menos, o que implicava que teríamos uma corrida arriscada, de três a quatro meses, para a qual o simples combustível poluído da nossa atmosfera paulistana não parecia suficiente. Talvez fosse necessário hidrogênio líquido para turbinar a comissão.

A primeira suposição que nos ocorreu foi evidentemente patriótica. Esses números deveriam ter relação com a grandeza do País na sua atual fase histórica e globalizada. Nossas fronteiras não pareciam suficientes para tantos contos, por isso eles desbordavam, talvez tendo havido uma invasão também de contistas estrangeiros. Isso punha-se mesmo como ameaça, já que não poucos pseudônimos corriam da Hélade e da Roma clássicas, passando por línguas e países contemporâneos, concentrando-se, felizmente, nas variações pátrias da nossa própria língua. Mas essa quantidade de contos, medida a metro, dizia também que não nos faltam escritores, conquanto não se possa dizer o mesmo dos leitores.

A ordem de grandeza, em todo o caso, com otimismo, supunha para os três membros da comissão julgadora um movimento dialético, o da transformação da quantidade em qualidade.

Assim, temíamos que escolher um único vencedor e mais nove premiados com menção honrosa pudesse ser tarefa impossível, ou, quando não, marcada de uma arbitrariedade imperdoável.

Corríamos o risco dramático de atirar ao lixo ou à vala comum do esquecimento eterno nada menos que 1463 contos primorosos, textos eventualmente imortais, cujos autores poderiam estar começando a perder ali a possibilidade de ganhar o próprio Prêmio Nobel de literatura. Não obstante isso, a comissão passou a cogitar que o melhor papel cumprido por quem julga é o de injustiçar a muitos e promover apenas uns poucos eleitos ao panteão da glória. Com esse triste consolo pesando na nossa fria consciência, arregaçamos as mangas (metaforicamente, mas também literalmente) e pusemo-nos em situação de combate para enfrentar, como D. Quixote, o nosso gigantesco moinho de contos.

Atirados às incertezas desse vasto campo minado, os membros da comissão julgadora comunicavam-se de vez em quando, transmitindo impressões, comentando trabalhos que se destacavam e também desanuviando a atmosfera canicular do verão com o horizonte disparatado de não poucos textos. Com o avançar das leituras, íamos compreendendo que nossas injustiças não seriam da proporção que de início supúnhamos. Dezenas e centenas de contos ainda estavam em botão, meras crisálidas, sem vôo, sem flores, nem mesmo as da boa retórica. O descarte era pletórico, como fora a inscrição, e isso trazia uma sensação dupla de certa decepção e de certo consolo. A mostra de ltuiutaba estava dizendo que não tínhamos 1473 contos bons inscritos, o que fazia encolher nossa preocupada consciência das injustiças e escolhas arbitrárias.

Mas também indicava que era uma pena a diminuição quase drástica, e na mesma proporção, dos nossos bons autores. E nós líamos e selecionávamos...

Antes, entretanto, de devassar inteiramente a grande floresta contística do 10.º Concurso de Contos Luiz Vilela, resolvemos propor entre os membros uma primeira seleção de 50 contos, para que tivéssemos um parâmetro. Vencida a íngreme montanha inicial, pusemos as cartas, digo, os contos, na mesa. E vimos, com não pequena surpresa, que a comissão julgadora estava a desmentir o brocardo que afirma que "em cada cabeça uma sentença".

Os supostos 150 contos que seriam apresentados pelos três membros judicantes eram, na verdade, pouco mais de 50. Nossas escolhas não estavam disparatadas e não seria dramático aparar as arestas e chegar a um resultado consensual, pois o sumo dessa vasta literatura era relativamente pequeno e bom, ainda que nunca excepcional.

Nesse andamento, a comissão chegou a 25 contos e, sem maiores diferenças, aos dez classificados, e mesmo ao primeiro colocado. E mais: não parece ter havido castigo às nossas consciências pelas escolhas realizadas. Os três membros da comissão sobreviveram e não crêem que terão de purgar culpas nem neste nem no outro mundo, ainda que saibamos do relativo arbítrio praticado, pois gostaríamos que talvez uns 5 ou 8 contos mais também pudessem ter sido honrados com menção. Mas regulamento é regulamento. Em todo o caso, esses e outros bons trabalhos e, certamente, um número grande dos que descartamos, se reescritos e melhorados, deverão voltar a se inscrever; pois, se não temos quase um milheiro e meio de contistas geniais praticando na praça, certamente temos muito mais do que os ora escolhidos.

Por sua vez, o resultado a que chegamos demonstra cabalmente que o Concurso de Contos Luiz Vilela já se consolidou como um excelente viveiro de escritores, jovens ou não, uns melhores que outros, mas com uma demonstração de que a literatura brasileira necessita muito dessas iniciativas. A continuidade por dez anos seguidos do Concurso de Contos Luiz Vilela, com aumento constante do número de inscritos e com a premi ação de textos de boa ou excelente qualidade literária, permite dizer que a progressista cidade do Triângulo Mineiro tomou-se centro de uma saudável competição, que a engrandece e a institucionaliza como promotora desse evento, capaz de estimular avanços e renovações em nossa literatura.

Isso fica mais patente quando observamos a origem dos dez autores premiados deste concurso. São escritores do Rio Grande do Sul, do Ceará, de Minas Gerais, do Paraná e de São Paulo, numa demonstração evidente do alcance nacional atingido pelo concurso. Os leitores deste precioso volume notarão também o alto nível dos textos premiados, podendo-se dizer que qualquer um dos dez poderia ficar com o primeiro lugar, o que não depõe contra o que venceu, senão que ilumina o nível dos demais.

A experiência da leitura desse vasto cabedal de textos é de difícil expressão. Fica para a comissão julgadora uma sensação relativamente tumultuada ante os escritos, sendo quase impossível tabular tendências, esclarecer rumos e supor linhas de força que eventualmente poderiam germinar e florescer no futuro próximo.

A mesma escolha dos dez vencedores, como o leitor verá neste volume, praticamente indica dez caminhos diferentes, e todos eles bem realizados. O que é sinal de vitalidade e reafirma que para a literatura não existem receitas ou fórmulas prontas, permanecendo ela como um espaço preservado de liberdade e de iniciativa criadora. A originalidade e a novidade nunca são absolutas, evidentemente, mas o prazer, a emoção e a verdade do texto literário movem-se nessa relação sutil e difícil entre a busca e o efeito alcançado, lugar em que a comoção (mas não o sentimentalismo!) penetra a sensibilidade do leitor para um encontro democrático e humanizante. A comissão acredita que os dez contos premiados são, entre os 1473 inscritos, os que melhor alcançaram essa comunhão com os leitores.

Finalmente, os três membros da comissão tiveram, no coroamento de seu trabalho hercúleo (modéstia à parte), uma compensação verdadeiramente afetuosa, que foi a visita, infelizmente brevíssima, à cidade de ltuiutaba, onde conhecemos a gente gentil, trabalhadora e hospitaleira que hoje administra e promove a continuidade desse importante concurso. Acresça-se que neste ano de 2001 ltuiutaba está comemorando o seu centenário de fundação, o que a faz merecer, e ao concurso de contos, ainda maiores louvores e incentivos para que continue na rota do progresso, tendo como fío condutor as conquistas e avanços democráticos e a humanização - especialmente através da literatura, para a qual a liberdade de pesquisa, criação e expressão é o próprio ar que se respira. 

 

Alcides Villaça

Antonio Arnoni Prado

Valentim Facioli.