Parecer da Comissão Julgadora

 

 

Após a leitura de quase dois mil originais participantes do 9.o Concurso de Contos Luiz Vilela, a Comissão Julgadora formulou algumas considerações:

a) Primeiramente, parabenizar a Fundação Cultural de Ituiutaba pela iniciativa da promoção dessa tertúlia literária;

b) Felicitar a Fundação Cultural e, sobretudo, o escritor Luiz Vilela, pelo engenhoso trabalho de motivação de tantos brasileiros para acreditarem na arte do conto, praticando-o no exercício da escritura;

c) Exprimir sua admiração pelo alto nível da arte contística no Brasil, tendo em vista que, a par dos escritores consagrados, existem centenas de exímios cultores da narrativa curta, exercitando-se no ofício de escrever, já com destaque de qualidade, no variegado direcionamento temático-estilístico.

Apresentando-se estes contos com fisionomia vária, por justiça, também vários deveriam ser os critérios de avaliação, reunidos, no entanto, estes critérios no maior e mais sólido deles: o da qualidade.

Para Julio Cortázar, o bom contista é aquele cuja escolha possibilita essa fabulosa abertura do pequeno para o grande, do individual e circunscrito para a essência mesma da condição humana. E. A. Poe associa a excelência do conto ao efeito que passa ao leitor, ou àquela impressão total que permanece após a leitura.

Muitos vêem no conto a representação de um momento particular, em que algo acontece, mudando o rumo esperado dos acontecimentos. Nesta acepção, basicamente feito de ação, o conto carregaria sempre a idéia de mudança - ética, psicológica, existencial - que de algum modo deve afetar ou realizar o leitor.

A julgar por estas afirmações, o "9.º Concurso de Contos Luiz Vilela", refletindo parcial ou totalmente os traços acima, atinge plenamente o nível de qualidade que o vem caracterizando ao longo de sua existência. A amostra dos dez contos ora selecionados pela Comissão Julgadora testemunha não só a mencionada variedade de tendências do conjunto, como evidencia a excelência dos trabalhos, certamente ficando fora desta lista seletiva outros bons exemplares, devido à impossibilidade, antes de mais nada "espacial", desta amostra.

A Comissão teve consciência do destaque relevante que representa o primeiro lugar, o grande vencedor do concurso, em relação aos demais nove classificados. Estes últimos figuram por ordem alfabética, sem hierarquização.

Percebe-se, porém, que, entre os candidatos, nem sempre está presente a idéia mais ou menos precisa do que seja um conto. Por mais que se queira inovar, trazendo para a categoria algo de novo relativamente à sua estrutura ou linguagem, é impossível uma boa realização do gênero se não se levar em conta certos pressupostos. A grande extensão de alguns contos apresentados (se é que de "contos" podem ser chamados), o acúmulo de ações e desvios da meta principal. a prolixidade verbal. a mesmice "princípio", "meio", "fim", sem intenção artística particularizante, são alguns dos traços verificados em parte do conjunto. Para corrigir um possível mal-estar derivado deste fato, estão aí estes dez primeiros lugares (além de outros tantos possíveis, nada distantes) de linguagem mais inovadora ou mais tradicional, feitos com o tecido do cotidiano ou urdidos com o do fato raro, excepcional, carregados de suspense ou aparentemente despretenciosos em sua ironia sutil, fincados numa realidade local, palpável, ou mergulhados no devaneio e na introspecção, muito curtos ou relativamente extensos,  possibilitando  todos  eles,  através  da  visão  circunscrita,  individual, essa  fabulosa  abertura  "para  a  essência  mesma  da  condição  humana". 

 

José Carlos Zamboni,

Lauro Junkes e

Melânia Silva de Aguiar.