Parecer da Comissão Julgadora

 

 

Esta comissão teve por incumbência escolher o melhor e indicar outros nove, para publicação, dentre exatos 449 trabalhos concorrentes ao 8.° Concurso de Contos Luiz Vilela (dos 621 inscritos, 172 foram desclassificados por não se enquadrarem nas normas do Concurso). A cifra é considerável e confirma o prestígio de que o prêmio desfruta, não só em Minas Gerais. Mesmo sem conhecer a identidade dos autores, foi possível detectar — nos motivos, na linguagem, nos cenários - a proveniência extrafronteiras regionais de muitos deles. Quase daria para esboçar um pequeno mapa geocultural do País a partir desses quatrocentos e tantos flashes. Mais interessante do que este, porém, seria o mapa literário implícito nos maneirismos, mais do que recorrentes, dominantes. A julgar pela mostra, nosso mapa, em matéria de narrativa curta, ainda é dominado por Machado de Assis, quando o pendor é mais para o urbano, e Guimarães Rosa, quando prevalecem os ares rurais. Em seguida, parece vir o magistério de um Dalton Trevisan, um Rubem Fonseca, talvez Lobato, Graciliano... Um mapa heterogêneo e discutível, cloro, como seria de esperar.

Primeira inferência, óbvio: esta sofra de contistas percorre caminhos seguros, já trilhados e bem pavimentados por aqueles mestres. Segunda, menos óbvio: não há relação direta entre a qualidade do modelo escolhido e o resultado final obtido pelo seguidor. (Se a mostra não revelo caminhos novos, revelo talentos em profusão, muitos dos quais - não só os premiados - podem vir a inscrever, naquele mapa, seu relevo próprio.) Terceiro inferência: além de rigoroso, o critério de avaliação foi comparativo. Os 449 contos foram comparados entre si e também àqueles modelos. A excelência esperada não se restringiu aos padrões internos, efetivamente realizados pelos concorrentes, mas também teve em mira os padrões almejados pelos melhores dentre eles, o que extravasa da mostra.

Esta comissão não partiu de possíveis modelos prévios, que eventualmente não coincidiriam com os detectados; o que fez foi esperar, de cada conto inscrito, a melhor e mais apurada realização possível do modelo implícito no próprio conto, demonstrasse ou não o autor estar ciente desse modelo e dessa meta ambiciosa. (A variedade de tendências e estilos dos premiados reflete o caráter não-dirigido do critério.) Para atingir esse nível de excelência, o candidato não devia limitar-se a expor um tema curioso, uma idéia atraente ou uma situação pitoresca; precisava demonstrar, também, um seguro domínio da técnica narrativa de sua escolha.

Dez candidatos passaram pelo crivo, todos num nível muito próximo, e dentre eles foi escolhido o ganhador; duas ou três dezenas chegaram perto; grande número apenas anotou casos ou cenas, mais ou menos interessantes, mas com pouca ou nenhuma técnica. Se a história ou o enredo, em si (este o equívoco da maioria), pudesse garantir a excelência de um conto, não precisaríamos de contistas. Bastava gravar, e depois degustar, a saborosa prosa-contadora-de-causos que rola, toda noite, em qualquer dos milhares de bares e botecos espalhados pelo País. A arte do conto vai além. A qualidade dos premiados, a exemplo do que vem ocorrendo, a cada ano, com o Concurso de Contos Luiz Vilela, é uma das garantias de que assim permaneça.

 

Ituiutaba, 10 de outubro de 1998.

 

Aurora Fornoni Bernardini,

Carlos Felipe Moisés e

 Wladyr Nader.