Conto
de
Edson Angelo Muniz

 

Mingau de milho verde

                       

         O cenário desta história, acontecida há alguns anos, é uma fazenda à margem esquerda do Rio da Prata, na balsa de cima. Nesse local, onde antes existiu uma velha ponte de madeira que rodou em uma forte enchente, meu pai construiu uma balsa, com três grandes canoas, para a travessia do rio. À beira do rio e da estrada ficava a sua venda, e nos fundos da venda a nossa casa, feita de casqueiros de aroeira, onde eu morei até os cinco anos de idade.

        O rico fazendeiro tinha cinco filhos: um homem e quatro mulheres. Aos quinze anos, Cida, moreninha linda, começou a namorar Nenê, um balconista que atendia na venda do Senhor Barão, de frente a uma loja de tecidos, de propriedade da família da moça.

         A mãe da menina tentava impedir, a todo custo, aquele namoro e contava com o total apoio de Dona Rosa, avó materna de Cida. O rapaz era simples, filho de lavrador e, em seu conceito, não era um bom partido para a sua filha.

        Cida sofria com os severos castigos da mãe, que tentava dissuadi-la, dizendo-lhe: "Esse rapaz não serve pra você!" "Ele não tem onde cair morto." "Você merece casar com filho de fazendeiro!" Outras vezes, aconteciam discussões, envolvendo a austera avó e a meiga neta. Mas de nada adiantou, eles não desistiam dos encontros amorosos, pareciam seriamente interessados na união conjugal.

        O tempo correu e Nenê encheu-se de coragem e pediu Cida em casamento. O fazendeiro, homem muito calmo, correto e de bom coração, pigarreou, coçou a espessa barba, deu-lhe conselhos, olhou de soslaio para a esposa e a sogra — que faziam gesto de negação com a cabeça — e aceitou o pedido. Porém, as artimanhas das duas mulheres para destruir o romance dos jovens continuaram. Agora, com uma dose de perversidade.

        Certo dia, a mãe e a avó, fizeram uma tachada de doce de figo e dois dos frutos maiores rechearam com estricnina para dar a Nenê. Por sorte, Cida, que vigiava tudo que a mãe e a avó faziam, viu e ouviu a trama. Ela já estava desconfiada e pressentia que algum perigo pairava sobre a cabeça de seu amado.

        À tarde, lá estava Nenê de chamego com a sua amada, quando Dona Rosa entrou na sala e lhe ofereceu o doce de figo, colocando o prato sobre a mesa para que se servisse. Nenê, avisado pela namorada, recusou a oferta apesar de gostar daquele doce. Dona Rosa não disse nada; voltou à cozinha, deixou na mesa o prato de doce, torcendo para que o rapaz comesse pelo menos um, o maior.

        Quando sua avó saiu da sala, Cida espetou um dos figos menores com um garfo e o deu ao namorado, dizendo-lhe: "Este você pode comer, Nenê!" Mesmo assim, ele agradeceu-lhe. O veneno poderia ter se misturado à calda.

        Dia a dia a situação foi se agravando. E, na ânsia de separar o casal, mãe e avó não mediam as consequências de seus atos.

        Na época da colheita do milho verde, fizeram pamonhas de sal, recheadas com pedaços de linguiça de porco, pamonhas de doce, entremeadas de queijo, e mingau de milho verde, salpicado de canela moída. Dona Rosa e sua filha, sem saber que estavam sendo vigiadas pela menina, entraram na despensa e prepararam um prato especial para Nenê, colocando o mesmo veneno no mingau. Chamaram a irmã mais nova de Cida e mandaram a encomenda para o rapaz, como se fosse um agrado da namorada querida.

        Cida, desesperada, saiu correndo do esconderijo, pegou lápis e papel e escreveu um bilhete ao amado. Disse à irmã que entregasse o bilhete a ele com o prato de mingau, pedindo-lhe, quase suplicando, que não se esquecesse de entregá-lo. A caçula das meninas não estranhou a aflição da outra, pensando ser um bilhete com palavras de amor, igual a tantos outros de que sempre fora portadora.

        Na venda do senhor Barão, naquele domingo, havia dois Nenês: um era o namorado e o outro, um primo da moça. Eles jogavam truco quando a menina chegou com o prato de mingau e o bilhete, dizendo que eram para Nenê.

        "Qual Nenê?", perguntaram, e ela apontou o dedo para o namorado da irmã.

        Como já diziam os antigos: "Jogador não tem ação", o jogo não podia ser interrompido, Nenê somente trocou o presente de vasilha e devolveu o prato à garota. Guardou o mingau numa prateleira, colocou o bilhete no bolso da camisa e continuaram o jogo.

        Findo o truco, Nenê chamou os companheiros para comerem a iguaria, mas, ao ver o seu estado, ficou desconfiado. O mingau estava com uma cor estranha, roxa, quase preta. Então se lembrou do bilhete, e, ao abri-lo, teve a certeza de que se tratava de mais uma armadilha. No pequeno pedaço de papel, sua amada teve tempo de escrever apenas: "Não coma!"

        Nenê colocou um pouco do mingau para um dos gatos da venda. Ao dar a primeira lambidela, soltou um terrível miado e morreu. Então, ele foi até à janela e, num gesto impensado, despejou o mingau envenenado no terreiro. Mais tarde, constatou-se a tragédia: galos, galinhas, pintinhos, patos, patas, gansos, marrecos, galinhas-d’angola, perus e até o cachorro de estimação do senhor Barão morreram. Depois desse episódio, passaram a chamar o pobre rapaz de Nenê-Mingau.

        Com esses acontecimentos, os jovens desistiram do namoro. Nenê mudou-se, e eles nunca mais se viram.

 

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Nota: Esta história de família foi publicada no livro "Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro" (Egil, 2002), de Edson Angelo Muniz, e reeditada na "Antologia de Contos" (Egil, 2005), publicada pela ALAMI — Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.

 

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