Conto
de
Edson Angelo Muniz

 

Língua de trapo

 

                                                  

Ao meu amigo-irmão Wanderlei Bueno da Silva

 

 

Aquele barbeiro sempre fora muito alegre, brincalhão e conversador. Somando-se a isso o profissionalismo e a honestidade exemplares, sua barbearia ficou famosa na redondeza, e era muito frequentada, por amigos e  desconhecidos.

Sábado, dia de muito movimento, o salão estava repleto de clientes, que, pacientemente, esperavam a sua vez de serem atendidos. Uns sentados, outros de pé; uns lendo jornal, outros conversando sobre mulheres, filhos, futebol, cervejada, filmes, política... E havia aqueles que só ouviam e observavam, e os que simplesmente assistiam à televisão.

O barbeiro não parava: tesoura, navalha e língua estavam afiadíssimas.

O próximo cliente a sentar-se em sua cadeira para cortar o cabelo e fazer a barba era um senhor de uns 60 anos de idade. O barbeiro o cumprimentou, bateu a almofada do assento, e pediu que ele se assentasse. Colocando uma capa-de-corte sobre a camisa xadrez do seu mais novo cliente, pegou a tesoura e o pente e iniciou o ritual que, havia anos, era o seu.

Não demorou muito, o barbeiro puxou conversa.

— É a primeira vez que o vejo em meu salão, mas estou com a nítida impressão de que já o conheço. O senhor mora por aqui há muito tempo?

— Não. Mudei-me para esta cidade, com minha família, a semana passada. E já fiquei sabendo, pelos meus vizinhos, que a sua barbearia é a melhor do bairro.

— Muito obrigado pela preferência! Há anos que eu sou barbeiro aqui. Aliás, sou pioneiro neste bairro, o que me rendeu até mesmo um diploma de honra ao mérito — e apontou com a tesoura um quadro, com o diploma e uma foto sua, de terno e gravata, afixado na parede, logo acima do grande espelho à frente de sua cadeira.

— Meus parabéns! — disse o velho senhor.

Enquanto isso, os clientes e os assuntos se revezavam nas outras três cadeiras de barbeiro daquele salão. E o trec-trec das tesouras misturava-se ao matraquear das bocas.

O barbeiro, interrompendo o corte do cabelo, pergunta ao seu cliente:

— Como o senhor se chama?

— Meu nome é Sebastião Inácio, mas sou mais conhecido por Tião Cigano.

— Eu sabia! Quando vi o senhor entrar, eu pensei: “Será que aquele é o Tião Cigano?”

— É engraçado! — disse o velho, olhando para o barbeiro com mais atenção. — Eu não estou me lembrando de você... De onde você me conhece?

— Lá se vai o tempo... Naquela época eu era um adolescente franzino, talvez por isso o senhor não se lembre de mim. Mas do meu pai o senhor deve se lembrar! — disse o barbeiro, voltando a cortar o cabelo grisalho do velho.

— Quem é o seu pai?

— Meu pai também era barbeiro. O senhor ouviu falar na “Barbearia do Juvelino”, que ficava em frente à praça?

— Você está brincando! Então você é filho do Juvelino Barbeiro?

— Sou o Wanderlei, o primogênito — disse o barbeiro, inchando o peito de orgulho.

— Seu pai é que cortava o meu cabelo e o de meu único filho — disse Tião Cigano.

— Mundo pequeno esse, hem? — exclamou o barbeiro, sorridente, satisfeito com o rumo que a conversa tomara.

— É. É muito pequeno mesmo. Quem diria que depois de tantos anos eu fosse encontrar você aqui, e exercendo a mesma profissão de seu pai.

— Esta profissão é passada de pai para filho. Aprendi com o meu pai e a ensinei aos meus dois filhos, que hoje trabalham comigo. Um é aquele da cadeira da entrada, o Cristiano, e o outro é esse do cabelo comprido, o Telson.

— Um barbeiro cabeludo. Que ironia!... — disse Tião Cigano.

— Coisa dessa juventude.

— E esse barbeiro aqui, sério, o que ele é seu?

— Esse é o meu genro, o Sérgio. E minha esposa, Cida, e minha filha, Vanessa, têm um salão de beleza aqui ao lado...

— Que maravilha! Família que trabalha unida, permanece unida!

— É verdade — disse o barbeiro, abrindo um largo sorriso. — Somos mesmo uma família unida!

— Você disse que seu pai era barbeiro... Ele já morreu?

— Meu pai está bem forte ainda. Mas não exerce mais a profissão; ele agora gasta o seu tempo de aposentado cuidando de minha mãe, presa a uma cama, e de seus passarinhos, presos em gaiolas.

Terminando de cortar o cabelo, o barbeiro retirou a capa-de-corte, espanou os cabelos cortados que haviam ficado na camisa e no pescoço enrugado de Tião Cigano. Inclinou a cadeira, deitando o cliente, e colocou em seu peito uma toalha-de-barba, branquinha. Deu três pedaladas na manivela que regula a altura da cadeira, levantando-a, e perguntou ao velho:

 — Pode deixar as costeletas?

 — Não. Pode rapar rente ao cabelo — respondeu o velho.

 — E o bigode?...

 — É pra rapar tudo. Quero ficar com o rosto que nem bumbum de bebê.

 O barbeiro pegou um vidro com álcool, despejou um pouco do líquido na mão esquerda, esfregou uma mão na outra e passou as duas no rosto do velho, que perguntou:

 — Para que o álcool? Você vai pôr fogo na minha barba, em vez de rapá-la?... — brincou.

   — Não... É que o álcool amolece os pelos, proporcionando um barbear mais suave, e não deixa a pele irritada.

— Eu nunca ouvi falar isso, e sempre passaram álcool em mim após a barba. Vamos ver se essa sua teoria funciona mesmo.

Pegando a vasilha com a espuma de barbear, o barbeiro passou o pincel sobre a barba branca e espessa, cobrindo de espuma todo o rosto de Tião Cigano, inclusive a sua boca. Com o canto da toalha-de-barba limpou a boca do cliente e, em seguida, pegou a navalha. Enquanto passava a navalha no afiador de couro, para cima e para baixo, ele perguntou:

— O senhor conheceu o Seu Odilon, aquele meu vizinho, que trabalhava de enfermeiro?

— Conheci. Ele era um bom “médico”!

— E o Seu Teodoro, dono daquela oficina mecânica, perto do grupo escolar?

— Também o conheci. Era um bom mecânico e um bom homem...

— O Tioripe do ferro-velho?...

— Vendi muito traste pra ele.

— O Seu Biá, vendedor de frangos?...

— E de galinhas gordas também — completou o velho.

— O do Chiquinho Fotógrafo? O senhor se lembra dele?...

— Vixi! Esse me deixava quase cego com os flashes de sua máquina. Tenho guardadas muitas fotos que ele tirou. Boas recordações...

E todos os nomes que o barbeiro lembrava, Tião Cigano dizia que conhecera. Já começando a rapar a barba do lado direito do rosto do velho, ele continuou:

— E o Seu Joaquim Pedreiro? O senhor também o conheceu?

— Sim. E até hoje somos amigos.

— E da filha dele, a Isabela, uma loirinha bonitinha, o senhor se lembra?

— É claro que me lembro. Ela é...

 — Ela foi minha namorada — disse o barbeiro, não deixando que o velho completasse a frase. — Mas em poucos meses terminamos.

 — Talvez tenha sido melhor para os dois — disse Tião Cigano, fechando os olhos.

 — Para mim, tenho certeza de que foi melhor, porque, logo depois, comecei um namoro com a Aparecida, filha do Seu Teodoro e da Dona Carmem, e me casei com ela. Fui e ainda sou muito feliz ao seu lado. Temos três filhos que amamos e que nos enchem de orgulho. Agora, quanto à Isabela, coitadinha...

 — O que aconteceu com a Isabela? — perguntou Tião Cigano, interessado, abrindo os olhos e olhando bem dentro dos olhos do barbeiro.

 O barbeiro, afastando a navalha do rosto do velho, correu os olhos pelo salão, e disse:

 — Ela também se casou e mudou para uma fazenda, nesse mundão de Goiás, longe dos pais, distante de toda a sua família. E sofre muito... Não sei como aguenta a vida que leva ao lado daquele homem...

 O velho foi ficando agitado e o seu rosto se avermelhou. E a língua do barbeiro cortava como o aço de sua navalha:

 — A Isabela, que era bonita e tinha um corpinho de sereia, está feia e acabada, pois trabalha demais, e o marido é um brutamontes, um sem-vergonha! Todos os dias chega em casa bêbado, xingando e brigando com a pobre mulher... E se ela diz um “a”, bate nela. É um crápula!

Nesta hora, o salão silenciou. Todos os olhares se voltaram para os dois, pois o velho, que havia se levantado da cadeira com uma agilidade não peculiar à sua idade, gritava, bufando de raiva:

— Isso não é verdade! É tudo invenção das más línguas. É mentira!

E colocando o dedo indicador em riste, bem no nariz do barbeiro, ele esbravejou:

— E você, seu língua de trapo, não sabe o que diz e não puxou nem um pouco ao seu pai.

O barbeiro ficou lívido e disse, gaguejando:

— O que... o que é isso senhor... o que... o que aconteceu?...

— Sabe com quem você está falando? Você sabe quem sou eu?...

— Não... eu...

— Eu sou o pai desse homem, que você ousou chamar de crápula. Fique sabendo que ele é um filho amável, um marido exemplar e um pai amoroso; é um trabalhador honesto, não é um beberão nem nunca encostou um dedo na Isabela...

— Eu... eu só estou contando o que me contaram, Seu Tião... — disse o barbeiro, tentando se defender.

O velho não quis mais conversa. Saiu pisando duro, com metade da barba rapada e a outra metade cheia de espuma, sem olhar para trás e sem pagar nem pelo corte do cabelo. Antes de transpor a soleira da porta, para nunca mais voltar, ele tornou a dizer:

— Língua de trapo...

O barbeiro, cabisbaixo, afundou-se em sua cadeira, escondendo o rosto entre as mãos...

 

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