Crônica
de
Edson Angelo Muniz

 

José João Pereira:
100 anos de vida...
100 anos de história

 

 

Nestes últimos 100 anos aconteceram muitas mudanças no mundo.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fez um levantamento sobre o Brasil de hoje, e dá para comparar com o que era o país há um século. Em 100 anos, a população brasileira saltou de 17 milhões de pessoas para 194... milhões. Onze vezes maior! A população mudou de tamanho e de cara. Em 1910, um brasileiro vivia, em média, 33 anos; hoje essa expectativa de vida é bem maior: quase 70 anos. Sabem o que isso quer dizer? Que hoje no Brasil há muito mais pessoas idosas, a chamada terceira idade — mas é claro que eles estão muito mais saudáveis e estão mais em forma do que antigamente.

O Senhor José João Pereira, mais conhecido como Seu José, que completou 100 anos de vida no dia 19 deste mês, é uma prova viva desta verdade.

É muito difícil para qualquer narrador contar, em vinte ou trinta minutos, ou até mesmo em uma hora, a longa história de quem viveu:
 

3.155.760.000 segundos;

     52.596.000 minutos;
                    876.600 horas;
                      36.525 dias;
                        5.204 semanas;
                        1.200 meses;
                           100 anos...

 

Vou relatar episódios importantes da vida do Senhor José João Pereira, que foi sempre carregada de luta, sofrimento, alegrias, emoções e tristezas.

Ele nasceu no município de Frutal, Minas Gerais, no dia 19 de maio de 1905, na região da Fazenda da Laje, também conhecida por Perobeira ou Rocinha. Filho de Dona Ana Luiza de Freitas e do Senhor José João Pereira, de quem herdou o nome, a coragem, a hombridade e a honestidade. Teve só um irmão, que morreu bem pequeno, e várias irmãs. Destas apenas uma ainda se encontra entre nós: a Barbina.

Quando Seu José estava com 2 anos, seu pai faleceu, e sua mãe, “mulher de raça forte, pegou as rédeas com as duas mãos”, para sustentar e educar os filhos. Então, para ajudar a mãe, ele, com 6 ou 7 anos, começou a trabalhar no engenho de cana, lá na Fazenda da Laje, tocando boi. O engenho era de madeira, puxado por seis bois, de cujos nomes Seu José só se recordou de um: o Mimoso, um boi preto, grande, que não se podia passar na frente dele que ele pegava. Quando o engenho estava moendo, distância de uma légua, escutava-se aquele som característico, de certa forma melancólico, e o povo da região comentava: “Dona Sinhaninha tá moendo”.

Seu José comenta que hoje não tem ninguém pobre, todo mundo tem sapato, roupa, celular, moto, carro, tudo... e tudo à mão. No seu tempo a condução era na sola do pé ou a cavalo, só se tinha a calça e a camisa. Levantava de madrugada, às vezes caindo geada, e, mesmo sentindo muito frio, ia pro engenho de pés no chão, fazia uma fogueira ao lado do engenho e enquanto os bois davam uma volta na moenda, ele esquentava as mãos na fogueira. A garapa era transformada em rapaduras, vendidas para o sustento da família, e em açúcar, para o gasto.

Como um fato triste o Seu José relembra a morte de um rapaz ocorrida perto de sua escola. Aquela cena está gravada até hoje em sua memória. Não vou entrar em pormenores, mas o que mais chocou o nosso homenageado, e a mim também, foi o motivo desta tragédia: uma briga entre vizinhos, por causa de um rego-d’água. Faltou Deus no coração daquelas pessoas.

Do seu tempo de rapazola, aos 17 anos de idade, ele só se lembrou de que estudou, trabalhou e teve educação exemplar. Quando sua mãe morreu ele foi morar com seus cunhados Liosório e José Rocha e, por último, com sua irmã Maria das Neves e seu cunhado Olantino Luiz Miguel. Quando estes se mudaram para Mato Grosso, juntamente com os pais do seu cunhado, o Sr. Joaquim José Miguel e a Dona Francisca Amélia de Jesus, além de sua numerosa família, levaram ele também. E o Seu José ficou morando na fazenda do Senhor Joaquim Miguel, que mais tarde, tornou-se seu sogro, pois nessa época ele já estava de olho na sua filha Olívia e começara a namorar com ela.

Seu José sempre se recorda com saudade das suas viagens de carros de bois. E ele conta, com os olhos marejados de lágrimas, que lá no Mato Grosso, ele e seu cunhado viajavam quase 30 léguas da fazenda até a cidade de Três Lagoas, onde iam buscar provisões: sal, açúcar, arame farpado, querosene e outros utensílios para a lida na fazenda. Numa destas viagens, levando o carro abarrotado de mercadorias, lá ia o Seu José gritando com os bois: “Ouuuu, bora Lavrado, puxa Moreno, vai Diamante, vem Bordado, vorta Rojão e Feixão...”, quando chegam às margens do Rio Sicuriu. Para atravessar este rio, o carro ia em uma barca e os bois eram desatrelados e jogados na água para passarem a nado. As mercadorias foram transportadas, do carro para a barca, por eles mesmos, no ombro, e o carro empurrado no muque. Chegando na outra margem, a labuta se repetia: tiravam o carro da barca, cangavam os bois e carregavam as mercadorias da barca para o carro. Quando terminaram, o dia terminou junto. Mesmo assim, seguiram viagem até onde eles e os bois agüentaram. Soltaram os bois num descampado, sem nenhuma cerca, porque não havia morador naquelas paragens, e dormiram ao relento. No outro dia, bem cedinho, seguiram a dura viagem que durou mais ou menos uns 15 a 20 dias de ida e volta. Neste trajeto, ouvindo o tilintar dos polacos, um no pescoço do boi de guia e o outro debaixo do carro, ainda passaram pelo rio Quitéria, onde a travessia tinha de ser feita sem barca. Quando estavam no meio do rio, Seu José, sobre o seu cavalo, teve uma vertigem e parecia que o cavalo estava inclinando, seguindo o sentindo da água. Então, levantou os olhos, e olhou firme em direção à outra margem, conseguindo atravessar sem maiores contratempos.

Depois de muitos anos de luta, lá no sertão de Mato Grosso, o Senhor Olantino vendeu suas terras e se mudaram para Ituiutaba, Minas Gerais, em 1928. Seu José e Dona Olívia vieram juntos.

Em 5 de outubro de 1929, nesta cidade, o Senhor José João Pereira casou-se com Dona Olívia Luiza Pereira. Depois do casamento eles ficaram em Ituiutaba até 1930, quando se mudaram para o Junco — antigas terras do Senhor Heitor Parreira —, local que hoje fica no município de Gurinhatã. Nesta fazenda nasceram os três primeiros filhos do casal: Joaquim Miguel Pereira, Iolanda Luiza Pereira e Berenice Luiza Pereira.

Depois de muito trabalhar em fazenda, Seu José aprendeu a profissão de sapateiro. O primeiro a lhe ensinar o ofício foi seu cunhado Olantino e depois um senhor conhecido por Criolo Machado. Certo dia ele mesmo derrubou um grande angico, fez o cocho para curtir os couros com os quais fazia botinas e chinelas. Quando se casou ele só tinha a mulher amada, o dia e a noite e uma mula para fazer seus negócios. Por isso, de dia ele fazia as botinas e os chinelos, sempre contando com a ajuda da esposa, e à noite ele saía pela vizinhança, vendendo ou trocando os pares por bezerros, porcos e galinhas. Fazia qualquer catira. Depois de muito trabalho, muita luta, comprou seu primeiro pedaço de chão: uns vinte alqueires de terra bruta, num lugar chamado Seladinho, de propriedade do Sr. Oscar Teodoro. Seu parcos recursos deu para comprar as terras mas não para receber a escritura. Para que isso acontecesse, foi preciso que o seu cunhado Orcolino Luiz Miguel pagasse a escritura. Nesta sua terrinha trabalhou de sol a sol. O dia que tinha peão, pagando dia, tudo bem, mas quando não tinha, trabalhava sozinho, derrubando árvores, arrancando toco, plantando, carpideirando, colhendo, às vezes, até escurecer.

No Seladinho, nasceram mais cinco filhos: Paulo Miguel Pereira, Enoque Miguel Pereira, Jessé Miguel Pereira, Damaris Luiza Pereira, Joab Miguel Pereira.

Seu José era, e ainda é, muito amável, amigo, conversador e fez amigos mundo afora. Na região do Junco fez amizade com todas as famílias, e se recorda, com saudade, de todas, e não se cansa de falar na Família Bernardes, vizinhos e amigos inesquecíveis.

Ele continuou trabalhando e ensinando os filhos a trabalhar, e comprando terras, porque o seu maior desejo era que cada um de seus filhos tivesse o seu pedaço de terra para dela tirar o seu sustento. E com os poderes de Deus e muito suor seu e de seus filhos, que muito trabalharam também ajudando o pai na fazenda, plantando milho, arroz e feijão, tratando de porcos e galinhas, apartando bezerros e tirando leite, que ele conseguiu uma gleba de mais de 150 alqueires, deixando cada filho com seu quinhão.

Seu José ficou morando no Seladinho até quando todos os filhos estavam casados, e em 5 de outubro de 1967, mudou-se novamente para Ituiutaba, para a Vila Platina, onde vive até hoje, na Rua Alexandre Vilela de Andrade. Perto de sua casa, antigamente, havia somente cerrado. Seu José não perdeu tempo, foi até a prefeitura e reservou um bom terreno, à frente do seu, onde plantou milho, mandioca e um bananal, e deixou bem claro que quando eles precisassem do terreno era só falar. Usufruiu muitos anos daquele terreno, trabalhando e colhendo os frutos que a terra lhe dava, até que chegou o dia de devolvê-lo à prefeitura. Foi com dor no coração e lágrimas nos olhos que Seu José viu as máquinas revirarem a terra arrancando as bananeiras, ainda com enormes cachos de bananas dependurados. Mas trato é trato e palavra de homem não volta atrás.

Em 12 de dezembro de 1985, outra tristeza abateu sobre o lar e a vida deste homem exemplar: sua companheira de tantas e tantas lutas veio a falecer. Desta união de mais de 56 anos, Seu José e Dona Olívia tiveram: 8 filhos, 27 netos, 39 bisnetos e um trineto. E são eles, tenho certeza, o maior legado de sua vida.

Seu José João Pereira é um homem vivido e viajado, conhece todas as cidades da região, várias capitais, só não conheceu, ainda, a capital federal Brasília e a cidade maravilhosa: Rio de Janeiro. Quando perguntei se queria conhecê-las, ele respondeu que já perdeu as esperanças, pois já está um pouco velho.

Não perca as esperanças, Seu José, pois o senhor é a esperança de muitos, é o espelho e modelo de caráter para todos nós, pois com o Senhor nós aprendemos que as pessoas valem pelo que são e não pelo que têm.

No seu tempo de solteiro o Seu José gostava de ir aos bailes em uma mula bem arreada e dançar até o sol raiar. Certo vez, nos dias atuais, um de seus médicos lhe perguntou: “Seu José, o senhor, com estes olhos azuis, essa pinta de galã, deve ter arrumado muitas namoradas no tempo da mocidade?”

E ele respondeu todo sorridente:

“Ih... um punhado!”

Vou terminar repetindo um trecho dos Salmos:

“Fui moço e agora sou velho, contudo, nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Salmos 37-25).Parabéns! Senhor José João Pereira, por viver mais de cem anos de vida, com saúde e lucidez, e por tudo que o senhor fez pelo engrandecimento da região e por amor à família.

 

(Ituiutaba, 20.05.2006)

 

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Nota: o Senhor José João faleceu em 2008.

 

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