SÃO  JOSÉ  DO  TIJUCO

VILLA  PLATINA

ITUIUTABA

 

JOÃO BATISTA DE ANDRADE


 
 

 

Teimosamente cineasta e escritor, conforme ele se autodefine, nasceu em 01-12-1939, em Ituiutaba (MG). Morou em São Paulo (capital) até trocar o bulício paulistano por Goiânia (GO), a fim de filmar um longa-metragem, e foi ficando.

Minha vinda para cá, para filmar, acabou despertando o pessoal mais jovem daqui para o cinema, gerando um movimento que já dá os primeiros frutos, com os primeiros curtas e projetos de longas, que eu vou ajudando como posso. Acabei dirigindo um festival, o FICA — Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, na cidade de Goiás, e criei uma produtora, a Oeste Filmes Brasileiros.

O cineasta ituiutabano (na foto ladeado pela autora e o arquiteto Costa Melo) é elo importante entre nós, tijucanos,  e  a  Sétima  Arte.  Em  parceria  com a esposa Assunção Hernandez, produtora e Presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, impulsiona a cinematografia do centro-oeste. Em sua carreira, alternam-se documentários para  TV  e  onze  filmes, quase todos premiados no Brasil e exterior.

Os troféus estão esparramados por aí. É um alimento importante, mas não mata a fome.

Trabalhos mais conhecidos: O homem que virou suco (melhor filme do Festival Internacional de Moscou, 1981); Doramundo foi o vencedor, nas categorias de filme e direção, do Festival de Gramado (RS), em 1978. Pela mesma película, João Batista recebeu o Ipê do Tijuco, um troféu destinado a homenagear ituiutabanos de projeção nacional em Arte e/ou Ciência. O fato deu-se no ano 1979, no Cine Capitólio, nesta cidade, onde o longa-metragem teve lançamento estadual, com apoio do Prefeito Acácio Cintra.

Nosso herói colhe flores e pedras com o filme mais recente, O Tronco. É livre adaptação de romance homônimo, um épico de Bernardo Élis: disputas entre coronéis e governo goiano, no início do século, que resultaram em guerra de jagunços e militares. Na listagem de filme estrangeiro para seleção à disputa pelo Oscar, o que, por si só, caracteriza prêmio, ele perdeu para Orfeu: O Oscar é festa de americanos. Claro que qualquer prêmio internacional é bom, mas é sempre a luta para participar da festa do inimigo e ganhar um prêmio dele.

Não foi nada não. O Troféu 500 Anos do Descobrimento, do Festival de Brasília foi para... O Tronco. O que não impediu de a obra incomodar descendentes de envolvidos na famosa Chacina de 1919, em Dianópolis (hoje município de Tocantins), sequer citados na abordagem cinematográfica. Porém, como para quem sabe ler, um pingo é letra, os brios familiares sentiram-se ofendidos. Para o Diretor, é um absurdo eles criarem caso após engolirem a história durante quarenta e três anos, desde o lançamento do livro. Palavras textuais: No filme é dado um tratamento histórico de um momento importante da formação política de Goiás. Existe uma vasta literatura a respeito. Fiz ficção em cima de ficção.

Nos anos setenta, ele teve dissabores também na área televisiva, quando se feriu na tesoura da censura. O menor abandonado, retratado no adolescente Wilson Paulino da Silva, acusado de quatorze homicídios e morto por rajada de metralhadora, buliu com os homens no Planalto. Deviam preocupar-se mais com a telinha no horário nobre e nas tardes de domingo e menos com os Wilsinhos Galiléias de um João Batista de Andrade. Mas, segundo ele, não buscava o mórbido sensacionalismo do fato real: Quis ir fundo no problema, por o dedo na ferida, expor uma situação de miséria humana.

O romance de estreia de nosso versátil personagem, Perdido no meio da rua (Global, 1989), teve autógrafos no Calçadão da Avenida 15. Ele assina ainda A terra do deus dará e Um olé em Deus. No prelo, o romance O portal dos sonhos. O Autor não sabe dizer se é mais cineasta ou escritor. Gosto de filmar, gosto de escrever. Filmar dá mais poder, escrever dá mais prazer.

A nosso pedido, ele começa a historiar o passado: Posso dizer que vivi saindo de Ituiutaba como quem sai de sua infância e das dificuldades. Eu já não parava em casa, vivia pelas casas dos amigos. E como um cineasta, que tem na imagem a essência mais pura de seu fazer, veria a própria representação e os cenários da infância?

Era um menino bobo, sonhador, me vejo andando na enxurrada, o olhar vago. É minha imagem preferida de mim mesmo. Apanhava em casa quando chegava sujo.

Em 49, com nove anos, fui estudar em Belo Horizonte (Belo Horizonte era uma graça, pequena, eu a conhecia como a palma da mão, andava de bonde sem pagar, pois pulava dele e para ele quando queria). Voltei para Ituiutaba em 50, saí em 56 para estudar em Uberaba, de lá para Belo Horizonte de novo.

A palavra Ituiutaba mexe bastante comigo. Aí ainda estão um irmão e duas irmãs, estão enterrados meus pais, está minha infância com toda a poeira, a lama, os córregos, as surras, as namoradinhas, os amigos: Jandimar e Márcio Vilela, Luizinho e Carlos Calixto (eu não saía da casa deles, Dona Jandira era uma segunda mãe), o José Cury, o Jorge Féres.

Na adolescência fazíamos noitadas de pinga, cerveja e música popular com outro amigo, o Badião. O Badião tocava, cantava e a gente filosofava o tempo todo. O Jorge é uma cabeça! Eu e ele fizemos um jornalzinho em 63, acho que era “A Hora da Verdade”, com essa pretensão toda.

Universidade em São Paulo, na Escola Politécnica da USP: mais política estudantil e cinema, menos engenharia. Casou-se lá, teve os dois filhos e empunhou de vez a câmera. Tinha um projeto inviabilizado pelo ex-presidente Collor com o seqüestro financeiro. O de filmar Vladimir Herzog em co-produção com Espanha, Portugal e Yuguslávia, onde seriam filmadas as sequências da infância do meu amigo Vlado.

João Batista voltaria a Ituiutaba, quem sabe se tirassem o cimento da Praça Getúlio Vargas, deixando voltar a terra vermelha e as bilocas, quem sabe se tirassem o maldito asfalto que cobriu as belas pedras da Rua 22 — protesta.

O cinema do Horta só podia ser uma delícia para ele, e admite a influência vocacional a partir da magia de nossa telona (quase) pioneira. As aventuras da Deusa de Joba e do Príncipe Submarino, os heróis mais lembrados, decerto chancelam o encantamento. Mas é o Zé do Óleo que seria um bom personagem local para filmar. Ainda não deu. Tenho um roteiro antigo, de 68, sobre um personagem que luta contra os poderosos donos do arroz e consegue se enriquecer mas... bom, o final não posso contar.

Falando de cinema, aqui vai João Batista de Andrade em plano detalhe: A minha pasmaceira poética convive com meu espírito de luta. Isso não me deixa em paz. Sinto-me compelido a lutar e sonho em não ter que fazer nada. Tenho raiva de todos os que me empurraram pela vida, cobrando coisas, para mim, sempre muito difíceis de fazer. As pessoas têm mania de se realizar na luta dos outros, como o personagem do músico em meu filme “O país dos tenentes”, que rouba a estatueta de ouro do velho general (Paulo Autran): o músico, oportunista, quer, sem ter que lutar e viver, o prêmio dedicado a toda uma vida de lutas, enganos, traições do velho general em crise.

Pensando na hipótese de recomeçar tudo, ele diz um tantinho desencantado, parece: Estou envelhecendo devagar, chegando aos sessenta. Ainda não consegui fazer meu balanço, se valeu a pena. Como meu personagem, o velho do Tonico Pereira em “O cego que gritava luz”, acho a vida longa demais e, como ele diz, a gente vai cometendo tantos erros e os erros vão formando como que um rabo cada vez mais comprido, que a gente vai arrastando, cada vez mais pesado, mais incomodatício.

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Texto extraído de O Livro de (quase) Todos, de autoria de Alciene Ribeiro Leite (Egil, 2004, páginas 205-208).

 

 

              
 

 

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