Capa de Edson Angelo Muniz

 

 

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Chico Angelo é natural de ltuiutaba, no Triângulo Mineiro, nasceu no dia 12 de março de 1964. Fez o primeiro grau na Escola Estadual ltuiutaba, o segundo grau na Escola Estadual Antonio Souza Martins (Polivalente), ambas em ltuiutaba. Fez o curso de Estudos Sociais (História e Geografia) na UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais) e Artes no Conservatório Estadual de Música Dr. José Zoccoli de Andrade.

Atuou como professor em várias escolas de ituiutaba e região. Em 1998 foi aprovado em um concurso público, em um cargo administrativo na cidade de ltuiutaba tendo assim que deixar a sala de aula.

Chico Angelo publicou outro livro, "Sonho", de poemas, e tem mais três para serem publicados: "Sonho e lágrimas", de poemas, "Lágrimas de solidão", de poemas, e "Flor do mercado", romance.

 

 

 

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Prefácio

 

 

 

Amigo Chico Angelo, poeta e contista tijucano:

 

 

Li e reli Vontade de fumar, gostei. É o tipo de leitura que aprecio: de estilo simples. Mais valoroso torna-se seu trabalho se considerarmos que você é um literato autodidata. Não tem professores de literatura, aprendeu consigo mesmo. Quem não leu um texto seu está perdendo uma leitura que mexe com a sensibilidade, como o faz Catullo da Paixão Cearense em “Luar do sertão”.

 

Ituiutaba, MG, março de 2008.

 

João Corrêa de Almeida
          Acadêmico da ALAMI — Academia de
          Letras, Artes e Música de Ituiutaba

 

 

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Vontade de fumar

(Conto)

 

Autor: Chico Angelo

 

 

 

Sempre ouvi dizer que “fumar faz mal à saúde”, porém, nunca fumei.

Vigilante no Centro de Saúde da Mulher, um órgão municipal, lá eu estava, toda noite, sem nunca faltar ao trabalho.

Eu tinha um companheiro de ronda: o Seu Nêgo. E era assim que ele gostava de ser chamado, apesar de ser branco e ter os olhos claros. Ele era o guarda de um supermercado, que ficava próximo ao meu local de trabalho. Seu Nêgo era um caboclo simples, mas sistemático, nunca dormia em serviço, e dava notícia de tudo que acontecia pelos arredores. Toda noite, ele e eu conversávamos até tarde. Era só eu terminar meus afazeres que ia aonde ele estava pra iniciarmos o nosso bate-papo noturno.

O Centro de Saúde da Mulher, como o próprio nome diz, atendia mulheres. Lá, faziam-se exames de mama, do colo do útero e outros  exames  ginecológicos. As  pacientes--impacientes chegavam quase sempre na madrugada, pois eram poucas as vagas para consulta, a partir da uma hora da manhã eu já ficava esperando, pois elas estavam prestes a chegar, a qualquer momento, atrapalhando, assim, o meu sagrado cochilo... afinal, sou funcionário público! E ninguém é de ferro.

Eu sempre gostei de fazer plantão ali, mas um detalhe me incomodava muito: o prédio ficava a apenas uma quadra do cemitério municipal. Não era medo o que eu sentia, digamos que era... receio, pois meus amigos adoravam me contar histórias que sempre envolviam um defunto. Acho que era para me encorajar, mas perto deles eu me fazia de durão.

Certo dia, eu estava vendo um programa na televisão do meu trabalho — talvez o apresentador é que estivesse me vendo, porque eu sempre cochilava. Eu sempre tirava um cochilo, pois era só chegar alguém e abrir o portão de entrada, que eu despertava, pois seu barulho parecia com o de uma porteira velha de fazenda, seu rangido na madrugada desencorajava qualquer um, e o sono desaparecia logo. De repente, despertei com o rangido do portão. Levantei-me e abri o vitrô de bascular e olhei através dele. Vi uma mulher, aparentando ter uns 39 anos, muito bonita. Como de costume, pensei que fosse a primeira mulher a ser consultada, pois já eram 2:45 horas da manhã, por isso não achei estranho.

Ela, então, me perguntou, com uma voz quase inaudível:

— O Senhor tem um isqueiro?...

— Tenho, sim — eu respondi.

Fui até a cozinha buscar o isqueiro. A cozinha não era muito distante de onde estávamos, apenas uns dez metros. Não havia um isqueiro, mas encontrei uma caixa de fósforos. Sem abrir a porta, entreguei a caixa de fósforos a ela, pela abertura do vitrô. Ela acendeu um cigarro de papel, feito a mão, por sinal, muito bem feito. Lá de dentro deu para perceber o cheiro do fumo. Ela me devolveu a caixa de fósforos pelo vitrô e eu, sem ao menos esperar que ela me agradecesse, fui até a cozinha guardá-la. Quando voltei, olhei pela abertura do vitrô, pois não tinha aberto a porta ainda, e não a vi. Resolvi, então, abrir a porta. Olhei para todos os lados, e ela não estava mais lá. Até mesmo na praça, que fica de frente ao Centro de Saúde, não vi aquela mulher. Então, saí pra fora e fui até a esquina de onde se avistava o cemitério. Olhei pro lado dele, pois a rua era a mesma do meu trabalho, e por incrível que pareça, ela não estava em lugar algum onde meus olhos poderiam alcançar.
Meio preocupado, — para não dizer que estava com medo — fui conversar com o Seu Nêgo. Quando cheguei ao seu lado, ele percebeu a minha preocupação e foi logo me perguntando:

— O que aconteceu, companheiro, você parece preocupado?

Olhei em seus olhos e notei que eles estavam vermelhos como brasa, sinal de que ele não havia tirado um cochilo se quer, como era seu costume. Respondi-lhe, meio sem jeito:

— Veja só, Seu Nêgo, uma mulher chegou lá, na portaria, e me pediu um isqueiro para acender um cigarro. Emprestei os fósforos a ela, ela acendeu o cigarro e me devolveu os fósforos. Eu fui guardar a caixa de fósforos, na cozinha, quando voltei, ela havia desaparecido!

Ele então me perguntou:

— Onde foi que isso aconteceu?

— Ali, na portaria do Centro de Saúde — eu respondi.

Ele abriu um sorriso e me disse:

— Você está ficando é doido, rapaz! Tô aqui o tempo todo olhando praquele lado, na esperança de ver você vindo pra cá, para conversarmos, e não vi ninguém chegando lá, não!

Eu repeti pra ele, que a mulher queria acender um cigarro e que acendeu e desapareceu. Ele achou que eu estava pirando e começou a rir de mim. Eu também comecei a rir, já que não me restava outra alternativa a não ser participar de suas gargalhadas e levar o caso na brincadeira, mas por dentro eu estava muito preocupado, e não queria que ele percebesse que eu estava com muito medo.

Fiquei ali, conversando com o Seu Nêgo um pouco mais, até que chegasse alguém lá no Centro de Saúde para me fazer companhia.

Ao despedir-me dele, eu ainda lhe disse:

— Pelo menos ela não foi para o além com vontade de fumar!...

 

 

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