Crônica
de
Edson Angelo Muniz

 

 

 

Escola Estadual Governador

Israel Pinheiro: celeiro de sabedoria

                                             

 

A família é o alicerce da sociedade; a escola e o professore são seus construtores e esteios.

Estudei em várias escolas de Ituiutaba, e aprendi com vários professores. Em 1969, já na 7.ª série, transferi-me para a Escola Estadual Governador Israel Pinheiro, conhecido como “Colégio Estadual”. A Diretora era a Prof.ª Vânia Aparecida Alves de Moraes Jacob. Frequentei aqueles bancos escolares por muitos anos “para me tornar doutor”, como meu pai sempre dizia, e era um dos seus sonhos. Não proporcionei essa felicidade ao meu pai, pois não me formei nenhum “doutor”, mas devo ao Seu Neinho e à Dona Dorcina o que hoje eu sou, com muita honra.

Dos dias e dias que passei no Estadual, muitas são as lembranças que me vêm à mente:

Na 8.ª série, em sua primeira aula de química, o professor Reinaldo, o “Serafim”, escreveu uma palavra no quadro e disse: “Quem conseguir ler esta palavra, na primeira tentativa, sem errar, eu pago uma entrada para o filme de hoje no Cine Capitólio.” Vejam só que palavrão: — no bom sentido — dimetilamenofenildimetilpirazolona. Ninguém conseguiu pronunciar o nome científico da Cibalena.

O Renatinho, professor de Física no 1.º científico, entrava na sala de aula com um cigarro Arizona preso entre os lábios, e ficava o tempo todo passando o cigarro de um canto a outro da boca, sem acendê-lo. Certo dia ele chegou, com o cilindro de papel na boca, e vaticinou: “Hoje, vamos fazer um teste: provem, matematicamente, que uma circunferência é uma reta.” A sala ficou em polvorosa. Eu bem que tentei, mas não consegui desenvolver nenhuma tese. Somente o Marcelo entregou alguns cálculos matemáticos ao Renatinho. Não vimos os cálculos desse colega, e o professor não o corrigiu em sala, portanto, até hoje eu não sei se é possível provar, matematicamente, que uma circunferência é uma reta.

"Na última fila de carteiras sentavam-se a Rúbia, a Maria Tereza, a Rosa, a Lena de Castro, a Didi e a Marisa. Dr. Renato Patrão, nosso sábio professor de biologia, se referia a elas como 'As Hexoses'. E essa cadeia de seis colegas,  após  o  recreio,  ainda  saboreava  pirulito  com paçoca na sala de aula."

Mesmo com uma diretora e professores enérgicos e capacitados, acontecia de tudo em nossa sala de aula. Num dia de fúria, a Lena acertou o meu pulso esquerdo com a quina de sua prancheta. Esse episódio não há como esquecer pois ainda tenho a cicatriz do corte profundo, por onde esguichava meu sangue. O motivo? É que eu não resisti à tentação e...

Às vezes, quando faltava um professor e tínhamos um horário vago, ou no início do primeiro horário, as carteiras — de metalon e aglomerado —, se transformavam em carrinhos de corrida, e eu me transmudava em “Edson Fittipaldi”. O motor a propulsão — ou melhor: motor a empurrão — era o Mauro, que também adorava uma bagunça generalizada.

Além de estudar — e brincar —, ainda sobrava tempo para as fofocas. As meninas, mestras neste assunto, criaram um jornalzinho, “O Louco”, onde se publicava de tudo. E eu era colaborador e desenhista desse jornal, que marcou época.

Porém, a despeito dessa zorra total, éramos uma turma de inteligentes, e nos tornamos pessoas de bem e profissionais competentes, modéstia à parte. Para citar apenas alguns nomes: Maria Isabel Jacob “Didi” (professora e diretora  da  Escola  Estadual  Sérgio  de  Freitas  Pacheco, em Capinópolis), Hermes Honório de Miranda “Pebão” (odontólogo), Maria Inês de Miranda “Melzinha”  (engenheira), Francis Safi  “Fufo”,  Túlio  (engenheiro), Meire Patrão, Gilberto Aparecido dos Santos “Baguera” (advogado), Valdeir Avelar, Washington  (advogado), Orlando “Orlando Sabino”, Alexandre Carvalho “Foquinha” (engenheiro), Nelson Sangote (produtor rural), Maria Aparecida Cancella, Márcio Chaves “Árabe”, Maria Tereza Paranaiba, Nadime Bittar, Jailton Barreto Miranda “Baiano” (vendedor autônomo), Ana Lúcia Andrade (agente de saúde), Sandoval Barbosa (produtor rural), “Luizinho”, Ivonete, Pedro Lúcio Saraiva “Pepa”, Rosangela Demétrio Baduy (presidente do Sanatório Espírita José Dias Machado), Nelson Neves “Perna”, Adão Franco (médico), Sinval, João Mariano, “Toninho Baixadão”, Marçal Franco (in memoriam), Oscar Franco, Cleonedes Paes Leme, Marta Queiroz, Rômulo Maciel Camargos (advogado), Maria Helena Matos de Castro “Lena” (professora e artista plástica), Telson Franco “Tatu” (in memoriam), Carlos Teodoro Brito “Gordo” (in memoriam), Galba, Ana Maria de Paula, Corina Severina Muniz (in memoriam), Armante Martins, Maria Madalena da Rocha Abrão (professora e diretora da Escola Municipal Nadime Derze, em Ituiutaba); Márcio Paranaiba Vilela “Merenda” (comerciante); Rúbia Pereira Barros (odontóloga); José Orlando Silva (detetive e advogado); Sonia de Oliveira Muniz (professora); Marcos Melo “Marquinho” (dentista); Mauro Barbosa “Topo Gigio” (dentista); Luiz Jacob (comerciante); José Beniz Neto (oftalmologista), Edson Angelo Muniz (editor e revisor de livros, genealogista e escritor)... Alguns colegas desta época inesquecível saíram pela tangente e sumiram na distância, por entre as retas e curvas da vida de cada um.

Devemos muito do nosso sucesso à nossa querida e eterna diretora Vânia Jacob e aos nossos mestres: Lázara Maria Alves Moraes de Souza, Jarbas Gomide, Hélis Ferreira da Silva, Élio Rodrigues Franco, Maria Tereza Araújo Menezes, Dr. Renato Lansac Patrão, Laila Jorge Chaves, Celso Franco de Gouveia “Celsinho”, Marcelo Lansac Patrão, Sílvia Agostinho, Reinaldo Martins Custódio “Serafim”, Luiza Faria, Dr. Airton Rodrigues, Said Jacob Yunes, Cristina Agostinho, Renato Lansac Patrão “Renatinho”, Nadime José Dib “Nadim”, Rolemberg Pinheiro, Jeová Leão... A todos eles, o nosso muito obrigado!

Vou encerrar por aqui, porque para contar todas as lembranças de minha passagem pela Escola Estadual Governador Israel Pinheiro, este celeiro de sabedoria, eu precisaria editar um livro semelhante ao “Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro”, que contém 630 páginas, no qual empreguei 22 anos de minha vida.

Agradeço aos meus amigos Maria Isabel Jacob “Didi” e Hermes Honório de Miranda “Pebão” pela importante colaboração na composição deste pequeno histórico.

 

 

Prof. Hélis Ferreira com alunas do 1.º C – 1971

 

 


Prof.ª Vânia Jacob (Diretora) com alunos do 1.º C – 1971

 

 

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Homenagem Especial à Diretora

Vânia Aparecida Alves de Morais Jacob

 

 

 

Em 31 de março de 1970, foi autorizado o curso de Administração de Empresas da EAEI — Escola de Administração de Empresas de Ituiutaba. As aulas eram ministradas em salas do Instituto Marden, cedidas pelo Dr. Álvaro Otávio Macedo de Andrade. Vânia Aparecida Alves de Moraes Jacob fez parte do quadro de primeiros professores da EAEI, ao lado de Pedro Neto Rodrigues Chaves, David Cury Hanna, Hélio Benício de Paiva, Celso Franco de Gouveia, Rafael Eugênio de Azeredo Coutinho, José Roberto Finoti, Gerson Abrão, Reinaldo Campos Andraus, Diana Stael Martins Barros, Vanderli Anacleto de Campos, Ataulfo Marques Martins da Costa, José Mauro de Castro, Aluísio Andrade Chaves, Públio Chaves, Oswaldo Pádua Vilela e Jarbas Gomide.

Vânia Aparecida Alves de Moraes Jacob foi Secretária Municipal de Educação e Cultura de Ituiutaba, de 1983 a 1988, onde realizou diversos projetos culturais. Uma de suas ações como Secretária de Cultura foi a mudança do nome do Concurso de Contos para Concurso de Contos Luiz Vilela, em homenagem a este escritor ituiutabano que nos enobrece e nos orgulha com suas obras literárias, que são lidas e reconhecidas no Brasil e no exterior. O Concurso de Contos Luiz Vilela é um dos mais concorridos de todo o Brasil e um dos únicos a serem realizados durante mais de 20 anos, premiando escritores de todos os rincões brasileiros. Vânia Aparecida Alves de Moraes Jacob foi ainda vereadora pela Câmara Municipal de Ituiutaba, de 1989 a 1992, quando exerceu também o cargo de secretária desta entidade.

A professora Vânia Jacob foi uma das diretoras que mais lutou pela classe estudantil de Ituiutaba. Foram mais de dez anos no cargo de diretora do Colégio Estadual, e pela sua folha de serviços em prol da educação ela recebeu diversas homenagens em vida, e uma homenagem póstuma: a biblioteca da FEIT leva o seu nome. Mesmo depois de partir para a morada do Pai, ela continua presente entre os livros e entre os alunos, seus maiores tesouros na face da terra.

 

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