Crônica de
 

 

Edson Angelo Muniz

 

 

"Destino fatal"

 

 

Homenagem póstuma a Leandro Lima Paes Leme


“Viver é perigoso, pois a vida não é dada
ao homem já feita como um destino fatal,
mas tem de ser ele a construí-la
segundo os seus desígnios.”

Fernando Cristóvão

 

Naquela tarde de quinta-feira, levei um choque ao atender o telefone.

— Alô!

— Boa-tarde, Edson. Tudo bem com você? — perguntou-me uma voz grave e rouca.

— Tudo bem! Quem está falando?...

— É o Marciel, da Gráfica Contatto.

— E aí, Marciel. Como está?...

— Tudo bem, Edson! Mas... Você já soube o que aconteceu com o Leandro, filho da sua prima Vera?...

— Não, não soube de nada!... O que houve com ele!?...

— Ele bateu com a moto, de frente com uma camionete, e...

— E?...

— Ele morreu...

A notícia, dada assim à queima-roupa, deixou-me sem ar, sem chão, sem fala... Despedi-me dele, desliguei maquinalmente o telefone, e fiquei pensativo.

Logo em seguida, minha irmã Ednazir também me ligou:

— Edson, você já soube da triste notícia?...

— Já, mana, o Marciel, amigo do primo Zé Muniz, acabou de desligar o telefone.

— Você vai até a casa da tia Doracina?

— Estou pensando em ir.

— A mamãe quer ir até lá também, ver como estão todos, principalmente a tia Doracina, por causa da perda do seu neto, e dar-lhes um apoio moral. Passa em casa e leva ela, o meu carro está na oficina...

— Já estou indo, mana, diga à Mamãe para esperar apenas uns dez minutinhos.

Concluí rapidamente um arquivo que havia começado, desliguei o computador e saí, rumo ao estacionamento onde guardava o meu carro. Peguei minha mãe, que morava perto do meu local de trabalho, e levei-a até a casa de sua irmã, no alto da Vila Platina. A tristeza ali fez sua morada. Lágrimas em todos os olhos. Semblantes abatidos. Ao abraçar minhas primas e meus tios, meus olhos teimavam em chorar também. Não tive como evitar as lágrimas.

O acidente que pôs fim à vida do primo Leandro, com apenas vinte e dois anos de idade, aconteceu em Acreúna, Goiás, na zona rural. O corpo seria velado em um galpão, na cidade, e o sepultamento aconteceria no cemitério municipal daquela cidade.

Perguntei ao primo Zé Muniz:

— Vocês já sabem como aconteceu essa fatalidade?

Ele explicou-me:

— Segundo me disse minha irmã, pelo telefone, seu filho saiu cedo para o trabalho, em sua moto, e ela ainda o advertiu: “Cuidado com essa moto, Leandro!” Na hora do almoço, ele voltou em casa para buscar uma ferramenta que havia esquecido. Deu um beijo nela e saiu novamente, na moto que a Vera tanto pediu pra ele não comprar.

O primo parou de falar, suspirou fundo e continuou:

— Na estrada, um caminhão passou por ele, levantando muita poeira. Moto e motoqueiro ficaram totalmente encobertos pela nuvem de pó. O motorista de uma caminhonete, que vinha em sentido contrário, e que também não via um palmo à frente do seu nariz, só sentiu a pancada e viu um corpo a voar sobre o vidro, despedaçando-se.

— O Leandro foi socorrido? — perguntei.

— Não tiveram como fazer nada, ele morreu na hora — dizendo isso, o Zé Muniz se afastou, soluçando.

Fiquei por ali mais alguns minutos e voltei para a Gráfica Egil.

Depois de uma meia hora, o primo Jandimar Muniz, outro filho da tia Doracina, ligou-me:

— Edson, estamos organizando uma lotação para ir ao velório do meu sobrinho. Você vai conosco?

— É claro, Jandimar, pode relacionar o meu nome e o de minha esposa, Helice. Nós iremos — afirmei.

— Vamos sair da casa de minha mãe às quatro e meia, estamos esperando por vocês — ele disse.

— Estaremos aí, primo, às quatro horas — confirmei.

Tomei algumas providências na Egil, onde sou chefe de produção, e contei à minha patroa o trágico ocorrido, avisando-a de meu afastamento naquele final de tarde e durante todo o expediente de sexta-feira.

Chegamos à casa de minha tia às dezesseis horas e dez minutos, mas o ônibus fretado só encostou às dezessete e quinze. E somente trinta minutos mais tarde é que seguimos viagem. A distância não é muito longa, mas as rodovias estão em péssimo estado de conservação. Demoramos a chegar ao destino. Sofremos mais quando passávamos perto da Triálcool, uma usina de álcool, onde se perdia de vista uma lavoura de cana-de-açúcar, porque entrou pelas janelas do ônibus, e pelas nossas narinas, um mau cheiro insuportável, causando-me náuseas.

Penso que Ituiutaba, minha terra natal, famosa no passado por suas terras férteis, conhecida como a “Capital do Arroz”, irá se transformar na “Capital da Cana”. Além daquele fedor nauseabundo, a única forma de efetuar o corte da cana, manualmente — como é feito nas plantações dos arredores de nossa cidade —, é com a queimada. As cinzas cobrem toda a cidade, causando doenças respiratórias e trazendo vários transtornos ao povo tijucano, sem esquecer da agressão ao meio ambiente. Outro problema causado por essa monocultura é a mudança dos médicos veterinários para outras regiões. As plantações de cana avançam sobre os pastos onde os fazendeiros da região criavam o “boi verde”, tão procurado pelos europeus, para fugirem da tal “vaca louca”.

Durante todo o trajeto viajamos em silêncio, cada um mergulhado nos mais tristes pensamentos e imaginando como seria o nosso encontro com a família do Leandro. Quando chegamos à cidade de Acreúna, cheios de tristeza e de cansaço, o primeiro a vir nos receber foi o Celso, esposo da Vera. Fortes emoções tomaram conta de todos. Celso, em meio às lágrimas, disse à tia Doracina, sua sogra:

— Ô, Doracina, não consegui... Não consegui salvar meu filho — e ele chorou, abraçado à sogra e aos cunhados.

Tia Doracina, com o coração dilacerado, ainda encontrou forças para consolar aquele pai em desespero:

— Meu filho, você é o melhor pai que um filho pode querer. Tenho certeza de que o Leandro, de onde ele está, concorda comigo.

Com cada parente que a nossa turma encontrava, sucediam-se os abraços de consolo e as lágrimas de sofrimento. Larissa, a irmã caçula do Leandro, inconsolável, repetia a todo momento, num choro incontrolável:

— Meu irmão, não, meu Deus! Meu irmão, não.

Ao lado do caixão, abracei a Vera. Um abraço forte, demorado, daqueles que dispensam palavras. Mesmo porque elas não saíram, minha voz ficou embargada quando ela me disse:

— Primo Edson, obrigada por ter vindo, mas eu queria que você viesse à minha casa para tocar violão e cantar para nós, não para me ajudar a enterrar o meu menino.

Como resposta, chorei amargamente.

Olhando para o caixão, fixei meu olhar no rosto de Leandro. Por entre as manchas roxas, os cortes e as linhas de sutura, tentei visualizar o rosto sorridente do menino que eu conhecera aos nove anos de idade e vi crescer, sempre alegre e sorridente. Não consegui. As lágrimas teimavam em sair.

Uma senhora gorda, ao meu lado, disse, sacudindo a cabeça, desiludida:

— Coitadinho! Morreu tão jovem! — e fez uma oração silenciosa e breve, saindo em seguida.

Netinho, o irmão mais velho de Leandro, abatido, sucumbido pela dor, não saía um só instante de perto dele, sempre alisando seu rosto e proferindo palavras que eu não conseguia entender. Ele cochichava ao pé do ouvido do irmão, como se ele o pudesse ouvir.

Sentei-me ao lado de tia Doracina e pus o braço direito em seu ombro, acariciando-o. Corri os olhos em torno e voltei a olhar para o caixão. Sobre o corpo de Leandro foram colocados seu uniforme de jogador — com o qual, há pouco tempo, em companhia do irmão, havia ajudado seu time de futebol a ganhar um campeonato —, e várias medalhas.

Havia no salão muitas pessoas: parentes, amigos, colegas de trabalho, colegas da escola, curiosos... todos no mais absoluto silêncio, em respeito ao morto e à dor da família. Rezavam, balançavam a cabeça, davam tapinhas nas costas da mãe e do pai do garoto, passavam ao lado do caixão, olhando, pela última vez, aquele rosto juvenil, antes sorridente, agora transfigurado.

Levantei-me e fui tomar um copo d’água e uma xícara de café. Na cantina, estava o Celso, fumando um cigarro. Aproximei-me e o abracei, dizendo-lhe:

— Celso, a morte é nossa companheira, e todos morreremos um dia. Mas nesse momento de dor somente Deus e a família podem nos sustentar de pé para continuarmos lutando pela vida.

Ele não disse nada. Jogou fora o toco do cigarro, agradeceu-me e voltou para o lado da esposa e dos três filhos.

Mais tarde, vi, ao lado do caixão, uma moreninha de cabelos pretos, aparentando uns dezoito anos. Com as lágrimas a escorrer-lhe pelo belo rosto, a cabeça pendida sobre o ombro direito, olhava para o rosto do Leandro, mordia os lábios vermelhos, na tentativa de segurar o choro que teimava em aflorar, e balançava a cabeça, talvez dizendo a ele, em pensamento: “Leandro, não acredito que você se foi. Não quero acreditar que você me deixou sozinha, neste mundo cruel!”

À meia-noite, rezamos um terço pela alma do Leandro. O primo Neilton foi o puxador. Foi uma noite longa. Poucos parentes ficaram ali, rezando, velando o corpo e contando os minutos, que demoravam a passar.

Surgiu o Sol, com seus raios dourados, clareando o mundo, clareando Acreúna, iluminando o interior do salão de velório... Parecia que o astro-rei queria mostrar a todos nós que a vida continuava, apesar do silêncio de morte que chegava com o raiar do dia.

Os amigos voltaram. Mais estranhos vieram para ver o morto e saber como acontecera a fatalidade. Uma jovem bem-vestida, usando salto alto, nem chegou perto do caixão. A dois metros de distância olhou o corpo por alguns instantes. Netinho, que não saíra do lado do irmão, nesta hora, pegou a camisa de jogador e puxou-a sobre o rosto de Leandro, querendo protegê-lo daquele olhar curioso. Seu pai, do outro lado do caixão, fez-lhe um sinal de reprovação. Ele obedeceu. E a jovem bem-vestida saiu.

A garota de cabelos pretos reapareceu, acompanhada de duas amigas. Dessa vez, ela chorou copiosamente, abraçada a uma de suas amigas. Mais calma, chegou mais perto de Leandro e começou a acariciar-lhe os cabelos — também negros, como a noite que passara — e, com gestos cadenciados, acariciava-os demoradamente, com os dedos da mão esquerda, por baixo da renda branca que cobria o corpo inerte de Leandro. Deduzi que era sua namorada quando a vi abraçando minha prima Vera, demorando-se no abraço cúmplice de duas mulheres que perderam um ente querido. Duas dores diferentes que se uniam num mútuo conforto.

Às sete horas, Neilton puxou outro terço. Às oito, o Padre chegou para encomendar o corpo e rezar pela alma de Leandro. Às nove, saiu o féretro. Segurei uma das alças do caixão e, cabisbaixos, passo a passo, seguimos. Entre os quinhentos metros que separavam o velório do pequeno cemitério, muitas foram as mãos que ajudaram a levar Leandro para sua última morada, num revezamento constante e silencioso.

Ao baixar o caixão na sepultura, Netinho, erguendo a taça que eles conquistaram, e que ele levara com muito carinho, gritou, em homenagem ao irmão que partia para sempre:

— É campeão! É campeão! O Leandro é campeão!

E todos se juntaram a ele, nessa última e merecida homenagem:

— Campeão! Campeão! Campeão!

Netinho, beijando a taça e prendendo nela as várias medalhas do irmão, colocou-as na tumba, ao lado do caixão. Ouviu-se, em seguida, uma sonora salva de palmas para Leandro, por tudo de bom que ele havia feito durante os vinte e dois anos de passagem pela Terra, pela nossa vida...

Fomos saindo, um a um, lentamente, deixando o coveiro a assentar os últimos tijolos que selariam a câmara com os restos mortais de Leandro. Ao passar por um grupo de pessoas, que comentavam sobre o acidente fatal, escutei um velho senhor dizer:

— Deus criou para cada um de nós um destino. O de Leandro foi morrer nesse dia, trombando na camionete do seu patrão!

 

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