Crônica
de
Edson Angelo Muniz

 

Caso de família

Era noite de lua cheia, e a Fazenda Santa Bárbara estava clara como se fosse dia.

Aquele 24 de fevereiro de 1951 estava sendo comemorado de maneira especial, com uma grande festa na casa dos meus avós maternos, Nenê Muniz e Helena Teixeira, marcando os dezessete anos daquela que viria a ser minha mãe.

Durante todo o dia a família e alguns voluntários fizeram um grande mutirão, cuidando dos preparativos da festa. Enquanto as mulheres lidavam na cozinha, os homens limparam o terreiro, fincaram cincos paus, trançaram bambus, fazendo um tipo de estrado, e jogaram sobre os bambus o pano de bater arroz: estava pronta a tolda para o tão esperado baile.

Os convidados eram muitos. além dos treze filhos dos donos da casa, lá estavam o Tio Gerson, o Juca Lobo, o Tio Antenor, o Tio Lázaro Padeiro, o Sebastião Souza, o Adelino Freitas e outros mais. De tardinha, chegaram os sanfoneiros, e estes não eram outros senão o Vovô Nenê Padeiro e seu filho Neinho (que viria a ser meu pai), e toda a família.

Em dois tempos a tolda estava coalhada de pares dançantes, ao som do acordeom oito baixos, ora nas mãos do Nenê Padeiro, ora nas mãos do Neinho, que era um excelente tocador, já que aprendera com o seu pai.

Os fandangos onde os Padeiros tocavam e dançavam, amanheciam na maior alegria. Mas havia no baile duas mocinhas que não estavam gostando do jeito que o Neinho tocava, era a sua irmã Lazica e a namorada do sanfoneiro: a Dorcina, a aniversariante. Tudo porque quando elas dançavam com um rapaz bem-apessoado, pé-de-ouro, o toque era bem curtinho. Agora, quando elas estavam dançando com um rapaz feio ou, pior, com um bêbedo, então o Neinho tocava, tocava, tocava sem parar, assim como também não parava de rir.

Em todas as festa na casa do Nenê Muniz, não faltavam o truco e a pinga da boa, e todos se fartavam da “marvada”. Tio Nêgo, já meio tonto, andava na cozinha pra lá e pra cá, porque não estava gostando de certas piadinhas que havia escutado de alguns convidados, enquanto estava dançando.

Lá pelas oito horas da noite, a Vovó Lena chega à porta da cozinha e diz para o Vovô que a comida estava servida. Vovô Nenê chamou a todos para comerem e os convidados se dirigiram para a cozinha a fim de se refestelarem.

O jantar foi arroz com galinha, feijão tropeiro, almôndegas de carne de veado, molho de piracanjuba, carne assada e mandioca. Sem falar nas saladas de alface, tomate e guariroba. Todos se serviram na cozinha, e os homens foram para o terreiro, onde uns sentavam-se nos próprios calcanhares, outros em tocos, um outro sentou-se no pilão, enfim, todos se ajeitavam.

De repente o Sebastião Souza, genro do Tio Marcolino Pato, já com o prato na mão, pronto para saborear o seu conteúdo, resolve fazer mais uma de suas gracinhas, e diz:

— Gente! E se esta galinhada estiver envenenada?

Tio Nêgo, desta vez, não aguentou o desaforo: de um pulo só, saltou a escada de cinco degraus que havia na porta da cozinha e aplicou um violento pontapé no fundo do prato que estava nas mãos do Sebastião. O prato esmaltado, depois de acertar no rosto do Sebastião, rodopiou no ar, reluziu com a luz da lua e caiu no chão, enquanto Tio Nêgo, muito nervoso, exclamou:

— Se a comida está envenenada, então não come, seu desgraçado!... Vá comer lavagem lá no chiqueiro!

Esse foi o começou de uma grande encrenca. Sebastião puxou sua peixeira e partiu pra cima do Tio Nêgo, tentando furar-lhe as tripas. Tio Lázaro Padeiro, que era muito amigo do Tio Nêgo, pegou o Sebastião pelo meio das pernas e o jogou para cima, e quando ele caiu, a faca lhe escapou da mão.

Todos largaram os pratos e se engalfinharam, rolando na terra arenosa e macia, em grupos de três brigões. Uns tentando apartar a briga, outros porque tomaram as dores do Sebastião ou do Tio Nêgo. Um dos que tentavam apartar a briga era o Tio Lázaro, mas como ele tinha a fama de brigão, ao verem-no agarrado com o Sebastião, todos acharam que ele é que estava armando toda a confusão.

As mulheres ficaram desesperadas, pensando numa desgraça maior. Umas gritavam, outras choravam, e havia outras que até rezavam, invocando os santos: “São Jerônimo, Santa Bárbara”.

Os cachorros de caça do vovô Nenê Muniz, ao verem aquele furdunço todo, resolveram entrar na brincadeira e começaram a correr, latindo desvairadamente, em volta dos brigões que ainda rolavam no chão.

Ouviu-se, então, um disparo de revólver. Todos pararam de brigar para ver quem havia atirado e por quê, começando a discutir por esse novo motivo. Vovô Nenê Muniz entrou no meio para apaziguar a confusão e, ao indagar quem havia efetuado o disparo, ouviu o Sebastião, causador da balbúrdia, dizer, quase gritando:

— Foi o Lázaro Padeiro, Seu Nenê, eu vi!

Tio Lázaro, defendendo-se, disse que havia atirado para o ar, na intenção de espantar os perdigueiros e jamais para acertar alguém, como de fato não acertou.

Depois de conversarem bastante, tudo acabou bem: todos se desculparam, o Sebastião foi embora, talvez com vergonha da confusão que ele havia armado, Tio Nêgo se acalmou, a paz reinou novamente, e a festança continuou, sem novos contratempos, até o raiar da aurora.

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