16.o capítulo do livro

Zelando do laboratório Cetro todos os dias, para que RC tivesse mais tempo para se dedicar ao propósito de salvar a Terra, vistoriei, naquela manhã, os três andares, sala por sala, e todos os computadores. À tarde, fiz uma refeição leve e limpei o meu apartamento. À boca da noite, tomei um banho de espuma, vesti um roupão felpudo, azul, deitei-me na cama larga, e ordenei:

— Cemus, execute uma seleção de músicas sertanejas antigas, acompanhadas por viola.

Imediatamente o som mavioso das cordas de aço de uma viola caipira, dedilhadas pelas mãos mágicas do insuperável Tião Carreiro, tomou conta do ambiente. Ouvi umas três músicas com o volume um pouco alto, depois pedi:

— Cemus, abaixe o volume para soneca.

Não demorou muito, adormeci.

De manhã acordei com o barulho ensurdecedor de uma sirene. Saí correndo e me encontrei com RC já ao lado do computador que monitorava o supertransmissor de sinais de rádio.

— O que está acontecendo, RC? Algum incêndio no laboratório?

— Não, Erik, é uma nave de Cetro que está vindo em direção à Terra. Veja!... — ele disse, apontando para um pontinho dourado que se deslocava em direção ao centro da tela, onde se via a imagem do globo terrestre.

Com a outra mão, ele apertou um ícone na mesa digitalizadora, desligando a sirene.

— Os cetronianos vieram buscá-lo, RC! — eu exclamei, emocionado, mas com voz triste.

— Você estava enganado, Erik, eu não sou Robô Cobaia... — ele me disse, desabafando.

— Agora eu sei, RC, o quanto você é importante... para os cetronianos, para os terráqueos, para o Universo... Eu até já pensei em um novo significado para as iniciais do seu nome.

— Qual significado?...

— Robô Camarada.

RC me olhou, todo sorridente, e disse:

— Vou tentar contato com a nave-mãe.

Ele pegou um pequeno microfone, conectado com o computador, e disse, com sua voz forte:

— RC 1.500 chamando nave-mãe...

Alguns segundos de espera... e nenhuma resposta.

— RC 1.500 chamando nave-mãe...

Desta vez, responderam, em cetronês:

— Aqui fala o Comandante Ziul...

— Saudações terráqueas, Comandante Ziul! O que o traz de volta à Terra? Veio buscar mais oxigênio?...

— O sol amarelo brilha intensamente em Cetro, RC 1.500. Além disso, plantamos, em todo o planeta, aquelas milhares de espécies de árvores que levamos, e a maioria delas se adaptou ao nosso meio ambiente. O nosso ar está melhor do que antes. Não precisaremos de mais oxigênio da Terra. Desta vez, minha missão é levá-lo para casa. RC 1.499 ficará tomando conta do laboratório.

— Se não precisam de mais oxigênio, também não precisam mais do laboratório. O que RC 1.499 ficará fazendo aqui?...

A comunicação ficou suspensa, até que o Comandante Ziul quebrou o silêncio:

— Eu não deveria revelar, RC 1.500, mas as ordens do RC 1.499 são para desativar o laboratório Cetro. Daqui a alguns anos viremos buscá-lo e levaremos todos os componentes importantes do laboratório, o restante será destruído.

— Por que demorou tantos anos para voltar, Capitão Ziul?

— Depois que reavivamos o sol amarelo, nossos esforços foram concentrados na reconstrução das cidades e na organização das famílias em suas casas... Somente há poucos anos o Rei Cetro VII ordenou que a minha nave-mãe
retornasse à Terra, para resgatá-lo.

— Rei Cetro VII?... O que aconteceu com o Rei Cetro VI?... Abdicou?

— O velho Rei já não está entre nós. Ele expirou, depois de 407 anos de existência, antes de ver o sol amarelo novamente jorrando vida. O Príncipe Oten assumiu o trono e, conforme a tradição cetroniana, passou a chamar-se Rei Cetro VII.

— O velho rei, na sua sapiência, não deixou o Príncipe vir conosco porque sabia que estava próximo o seu fim...

— É verdade. Quando retornei a Cetro, o Príncipe já havia assumido o trono. E tanto ele quanto o criador dos RCs o esperam, RC 1.500, para prestar-lhe uma merecida homenagem pelos seus valorosos serviços à coroa, ao planeta Cetro e a todos os cetronianos.

— Comandante Ziul, por 64 anos-terra eu esperei que este dia chegasse, computando cada segundo; mas depois de conhecer Erik, um terráqueo que vive comigo há 10 anos-terra, que me ajuda na manutenção do laboratório e me proporcionou mais alegria e uma vontade férrea de viver, eu não vou mais voltar a Cetro.

— Isso me deixa muito triste, RC 1.500, porque estou me afastando do comando desta nave, e não vou cumprir a minha última missão! O Rei considerará essa sua decisão como uma deserção.

— O Comandante, o jovem Rei e o meu criador que me desculpem, mas não vou abandonar meu amigo Erik. Prometi a ele que vamos salvar o seu planeta. E o senhor, mais do que ninguém, sabe que eu nunca minto e que sempre cumpro o que prometo.

Fiquei emocionado e meus olhos se encheram de lágrimas de felicidade.

O Comandante Ziul disse:

— Sei disso, RC 1.500. Mas o rei e todos os cetronianos o esperam como um herói. E devo lembrá-lo de que você está violando a 1.ª LRC: “Obedecer ao Rei de Cetro e ao seu criador.”

— Desde que a obediência a esta lei não me coloque em conflito com outra lei, neste caso, estou seguindo a 2.ª LRC: “Lutar sempre pela preservação da vida, em qualquer quadrante do Universo.”

— Relatei pessoalmente ao Rei a sua importante ajuda para conseguirmos realizar a extração do oxigênio da água, além das outras descobertas e outros inventos importantes que realizou, para que pudéssemos salvar Cetro.

— Fico lisonjeado e agradecido pelos elogios, Comandante, e, principalmente, pelo jovem Rei ter se lembrado de que eu existo e pelo Comandante ter se arriscado nesta missão para vir me resgatar. Mas já decidi: ficarei na Terra. E não vou deixar que desativem este laboratório...

— Essa é a sua palavra final, RC 1.500?

— Sim, Comandante Ziul.

— Vamos voltar a Cetro, então.

— Boa viagem, Comandante!

— Você precisa de alguma ajuda deste seu companheiro?

— Tem uma coisa que o senhor pode fazer por nós, Comandante.

— É só pedir, RC 1.500.

— Vocês trouxeram o C-99?

— Sim, mais do que vamos precisar para empreender a viagem de volta.

— Nós usamos o oxigênio da Terra para salvar o planeta Cetro. Agora, preciso usar o C-99, só encontrado em Cetro, para salvar a Terra.

— Vou deixar para a Terra muitos quilos, RC 1.500. Abra o portão do hangar, uma de nossas naves-anãs levará o C-99.

— Erik e eu, em nome de todos os seres vivos da Terra, agradecemos, Comandante Ziul.

Vimos, pelo circuito interno de imagens, que em poucos minutos uma nave entrou no hangar, pousando ao lado da nossa. Alguns cetronianos, acompanhados por RC 1.499, descarregaram os recipientes com o C-99 e já estavam voltando para a sua nave, quando RC perguntou ao Comandante Ziul.

— Comandante, o senhor pode nos prestar outro grande favor?

— É só pedir, RC 1.500...

— A nave que temos no laboratório já está muito velha, e vamos precisar de uma mais moderna para resolver o sério problema da camada de ozônio da Terra. Será que o senhor poderia autorizar a troca das naves, deixando a que
veio trazer o C-99 e levando essa outra, para manutenção?

— Imediatamente, RC 1.500.

O comandante deu a ordem ao piloto e voltou a falar com RC:

— A nave é toda de vocês. 

Quando os cetronianos se preparavam para abastecer a velha nave, RC chamou.

— Comandante Ziul?...

— Sim, RC 1.500!

— Diga ao seu piloto que a nossa nave tem combustível suficiente para decolar e voar até a nave-mãe.
— Como é que ela tem combustível?...

Você encontrou C-99 na Terra?

— Infelizmente, não, Comandante. Mas adaptamos na nave uma câmara de compressão para usar hidrogênio líquido como combustível.

— Então, RC 1.500, é preciso retirar esse dispositivo, talvez vocês precisem dele.

— Não será necessário, Comandante. A conversão é demorada. Quando o C-99 estiver prestes a se esgotar, construiremos outra câmara.

O Comandante voltou a falar com o piloto, que partiu imediatamente; e, depois, disse a RC:

— RC 1.500, estamos reprogramando a rota para regressarmos a Cetro. Venha conosco! Você recebe as homenagens em Cetro e volta. Tenho certeza de que o Rei Cetro VII atenderá ao seu pedido de regressar à Terra para concluir os seus projetos aqui, para salvar o planeta de seu amigo Erik.

— Não, Comandante Ziul. Há 214 anos-terra, 8 meses, 5 dias, 4 horas, 10 minutos, 50 segundos e 9... 10... 11... milissegundos que eu estou na Terra...

RC parou de falar e me olhou. Eu não disse nada, apenas sorri para ele. Ele também sorriu, e continuou:

— Já me considero um robô cetroterráqueo. Aprendi a amar este planeta, este laboratório e este amigo...

— Amigo?... Que amigo?

— Meu amigo Erik, que está aqui, ao meu lado, ouvindo e entendendo tudo que conversamos, Comandante.

— Robôs não têm amigos.

— Eu tenho, Comandante Ziul, e sou capaz de dar a minha vida por este meu amigo... — disse RC, dando-me um abraço.

— Então, você não vai mesmo a Cetro, receber a condecoração que o Rei lhe outorgou...

— Não vou, Comandante. A viagem de ida e volta é muito demorada, não posso me arriscar. Os terráqueos, atualmente, precisam mais de mim do que os cetronianos.

— Adeus, RC 1.500, sentirei a sua falta!

Arivederte, Comandante Ziul! Recomendações ao Rei, ao meu Criador e aos meus ex-companheiros da missão “Salvar Cetro é nossa obrigação”.

A nave-mãe partiu velozmente, singrando o cosmos. Na tela do computador o pontinho dourado foi se afastando do globo terrestre, até sumir no canto do vídeo.

O robô cetroniano olhou-me e sorriu. Eu o abracei, chorando, e lhe disse:

— Eu pensei que robôs não tivessem coração, RC. E você me confirmou que não tem. Porém, você, que não foi programado para mentir, desta vez se enganou, porque tudo que você fez pelos cetronianos e está fazendo pelos seres vivos da Terra é uma prova irrefutável de que tem coração, sim... Um coração bondoso! Muito obrigado, meu amigo, por não nos ter abandonado!...

RC não chorou, mas sua voz saiu embargada pela emoção quando ele disse:

— Estou apenas cumprindo ordens, Erik: lutar pela preservação da vida...

— Eu não penso assim, RC. Você até pode estar cumprindo ordens, mas é um ser único em todo o Universo e tem vontade própria, não precisava nos ajudar, se não quisesse...

Saímos andando, lentamente. RC colocou a mão direita em meu ombro e disse, olhando para o meu rosto:

— Nós vamos salvar o nosso planeta Terra, amigo Erik!...

Eu olhei para os seus olhos, que brilhavam mais intensamente, e, sorrindo, disse:

— Sabe de uma coisa, RC: vou mudar o título daquele livro para “O robô de bom coração”...

 

* * * * *

 

Esta história não termina aqui...

 

Edson Angelo Muniz já escreveu,

 

e irá publicar em 2018, o livro

 



com mais 16 capítulos.
 

 

(Clique na capa para ler o Prefácio, de Alciene Ribeiro).

 

 

E, se Deus o permitir,

 

ainda escreverá mais um volume,

 

para encerrar a saga

 

do Robô e seu amigo Erik.

 


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