15.o capítulo do livro

Imaginar a Terra livre do efeito estufa e do aquecimento global dava-me ânimo para trabalhar, incansavelmente, ao lado de RC, transformando o oxigênio em ozônio e armazenando-o nos tanques de giônio.

Copiei da internet o projeto de um antigo modelo de pulverizador de inseticida, usado nas lavouras de algodão, e comecei a construir um pulverizador mais moderno, com mais potência e maior raio de ação.

Após meses de trabalho, RC concluiu a câmara de compressão e eu concluí o pulverizador.

Acoplamos nossos inventos à nave e colocamos um tanque dos grandes, cheio de hidrogênio líquido, ligado à câmara de compressão, e alguns tanques, cheios de oxigênio, ligados ao pulverizador. Os tubos de condução dos gases eram de aço, revestidos com cetrógino.

As primeiras tentativas de voo foram infrutíferas. Não conseguíamos potência suficiente para decolar a nave. Reanalisamos todo o projeto, fizemos algumas modificações na câmara de compressão e, depois de mais alguns ajustes, finalmente, saímos voando.

RC, que estava pilotando a nave, me disse:

— Erik, assuma os controles. Vamos fazer o seu primeiro teste, na prática, de tudo que lhe ensinei sobre esta nave-anã.

 

 

Nota: as ilustrações deste livro, incluindo a capa,
são de Edgar Franco.

 

 

Um pouco trêmulo, de emoção e de medo, assumi o controle total da nave. Houve alguns solavancos no início, mas mantive a calma. E com a ajuda de RC, estabilizei o voo.

Em poucos segundos estávamos sobrevoando a grande cidade de São Paulo. Com o escudo invisível acionado, pulverizamos na atmosfera poluída daquela cidade todo o oxigênio que havíamos levado.

Voltamos para o laboratório. Depois de pousar e entrar no hangar, emocionado, perguntei a RC:

— E então, Professor, como me saí? Vou receber o meu brevê de piloto de nave espacial cetroniana?

— Você o receberá, Erik, mas só depois de mais algumas horas de voo.

— Qual a velocidade que esta nave consegue atingir?

Caminhando rumo ao computador do satélite, ele respondeu:

— Se o combustível fosse o C-99, ela chegaria à velocidade de duzentos quilômetros por segundo, agora, com o hidrogênio líquido, seu desempenho caiu um pouco, ficou entre cento e vinte e cento e cinquenta quilômetros por segundo.

— Meu Deus! Isso é loucura!... Então, se tivéssemos o C-99 e imprimíssemos a velocidade máxima... — pus a mão na cabeça, fiz cálculos na memória e concluí: — poderíamos dar uma volta ao mundo em menos de quatro minutos?

— Teoricamente, sim, Erik.

Chegando de frente ao meu quarto, RC pôs a mão no meu ombro e disse:

— Vá descansar. Amanhã vamos fazer outro voo para ter a certeza de que a câmara, o pulverizador, a nave e o piloto — e apontou o dedo para mim, sorrindo, — estão realmente aprovados para realizarmos o teste na estratosfera, para reconstituir a camada de ozônio.

Entrei no apartamento e fui direto para o banheiro, tomar um bom banho. Depois do banho,  deitei-me para dormir, mas não consegui conciliar o sono. Liguei a televisão e fui assistir a um telejornal. Passados poucos minutos, a repórter disse: “Mudança repentina no ar de São Paulo!”

— Cemus, aumente o volume! — eu gritei.

E a repórter continuou: “Hoje à tarde, uma inesperada frente fria, vinda não se sabe de onde, transformou o céu da capital paulista. Os meteorologistas afirmam que o ar de São Paulo, milagrosamente, ficou menos denso, mais respirável...”

Eu dei um pulo de alegria e corri para contar a RC. Ele também ficou satisfeito com o sucesso do nosso primeiro teste.

Voltei para o quarto, desliguei a televisão, deitei-me e fiquei pensando em todos os acontecimentos desses últimos anos, até dormir, tranquilamente.

Duas vezes por ano eu ia ao setor norte do laboratório e subia, pelo elevador, até o cume da montanha, sempre à noite, de onde eu vislumbrava, ao longe, as luzes das pequenas cidades da redondeza, que mais pareciam pedaços do céu que caíram na Terra.

Bem próximo da saída do elevador, no alto da montanha, por debaixo de uma grande pedra, nascia o riacho. Ele corria, sinuoso, por sobre a montanha, em meio às árvores, e caía do penhasco, formando aquela cachoeira, que me atraiu com o seu barulho, e aquele lago de águas cristalinas, por onde eu entrei no coração da montanha.

Somente uma vez, nesses anos todos, eu fui à cidade mais próxima, a pé, para ver um pouco de gente e comprar doces, carne, arroz, feijão e algumas sementes de hortaliças, para replantar a horta que os cetronianos fizeram no laboratório.

Algumas pessoas olhavam-me, assustadas, pensando ver um fantasma. Outras ficavam me apontando, como se eu fosse um ser de outro planeta. Certamente elas pensavam que eu fora varrido da face da Terra, junto com minha esposa e meu filho, pelo vendaval assassino. Mas ninguém se aproximou para conversar comigo.

Paguei as compras com uma nota de 100 reais que estava guardada em minha velha carteira de couro marrom — presente da minha esposa —, junto com outras cédulas de menor valor. Por sorte, em dez anos o nosso dinheiro não havia mudado, e, o que era melhor, estava tão valorizado quanto o dólar americano. É que o Brasil, finalmente, se transformara em um país desenvolvido, com uma economia
forte e sustentável.

Uma vez por mês, eu ia à Gruta do Descanso para pescar, comer frutas fresquinhas, tomar sol, deitado na areia da praia, e relaxar um pouco. E naqueles momentos de lazer é que eu mais sentia a falta dos carinhos de minha linda mulher...

Em meu apartamento cinco estrelas, todos os dias, antes de dormir, eu ligava a televisão e assistia aos acontecimentos no mundo: fogo nas poucas reservas florestais que ainda existiam, a Amazônia — considerada como o pulmão do mundo — sendo devastada por pessoas sem escrúpulos, maremotos, terremotos, vendavais, erupções vulcânicas, guerras, violência, ganância, corrupção, crise econômica... E via as cidades à beira-mar, como Rio de Janeiro, Guarujá, Fortaleza, Nova York, sendo invadidas pelos oceanos, devido ao degelo das calotas polares.

A natureza é bela, mas está se vingando — e tarde — do homem que mexe em tudo, não respeitando o ambiente em que vive. O homem mata a natureza, a natureza mata o homem...

Eu até agradecia a Deus por estar bem longe de tudo isso, mas ao mesmo tempo ficava triste por não poder ajudar as vítimas daqueles cataclismos, assim como não pude ajudar minha mulher e meu filho.

Mas agora eu tinha certeza de que esse quadro seria mudado, em muito pouco tempo.

 

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