14.o capítulo do livro

Novembro de 2020. Passaram-se dez anos após aquela tragédia que mudou o rumo da minha vida. Dez anos desde o dia em que eu conheci o robô cetroniano.

Aprendi muitas coisas com ele e, como tempo era o que não me faltava, eu passava horas e horas conectado com o computador central do laboratório e à rede mundial de computadores da Terra, pesquisando e estudando sobre todos os assuntos, principalmente os ligados à área da ciência. Tornei-me um cientista-inventor. E, de quebra, aprendi a falar o cetronês.

Pedi a RC que me cedesse um dos computadores mais antigos, e alguns componentes do setor de robótica. Com eles, montei uma central de música, controlada por minha voz e a conectei ao amplificador da tevê. Fiz o download de várias músicas pela internet, a maioria sertanejas, e salvei-as na central, que eu batizei de Cemus. Nos momentos de descanso, eu ouvia as minhas músicas preferidas.

Para salvar a Terra de um trágico fim, RC e eu concentramos nossos esforços em pesquisas, experiências e inventos no intuito de fechar os buracos da camada de ozônio, que a cada ano ficavam maiores.

Lendo todo tipo de literatura sobre o assunto, descobri que, além dos buracos causados pelos clorofluorcarbonos lançados pelo homem na atmosfera, outros buracos foram causados pelos foguetes e ônibus espaciais lançados ao espaço. Na ânsia incontida de descobrir novos mundos, o homem acabou prejudicando o mundo em que vive.

Em uma de nossas conversas, concluímos que se o oxigênio extraído da água fosse pulverizado na atmosfera, o ar seria purificado, melhorando as condições de vida de milhões de pessoas que sofrem de problemas respiratórios, devido à poluição.

Depois de muitas pesquisas e exaustivos testes, descobrimos também um processo para obter ozônio em laboratório: dividimos uma molécula de oxigênio em dois átomos separados. A estes átomos livres adicionamos outra molécula de oxigênio, o que resultou em ozônio. Teoricamente, concluímos que se este ozônio fosse lançado na estratosfera, nos pontos mais críticos, a camada de ozônio, que nos protege da radiação solar ultravioleta, a qual causa câncer de pele e cataratas, prejudica a flora e mata o plâncton dos mares, seria reconstituída.

Depois de um dia exaustivo, trabalhando na transformação do oxigênio em ozônio, e armazenando-o nos tanques menores, RC me disse:

— Se a nossa nave não estivesse sem combustível, já poderíamos levar os primeiros tanques de ozônio para testar, na prática, se a nossa teoria dará resultado, Erik.

— É verdade. Mas não temos o C-99 para abastecer a nave...

— É. Não temos o C-99, mas estou pensando em fazer contato com a Aeronáutica Brasileira, e com todos os centros espaciais do planeta, para que eles levem o oxigênio até a atmosfera e o ozônio até a estratosfera. O que você acha?

— O quê?... Parece que lhe falta um parafuso nessa cabeça de metal, RC! Se fizermos isso, logo, logo, a Polícia Federal irá nos prender, nos interrogar e os cientistas vão tentar desmontá-lo, para estudar a sua composição, descobrir como você funciona, de que material você é feito, como são as suas memórias, e copiar essa tecnologia superavançada. Não podemos correr esse risco...

— Não estou nem um pouco preocupado com isso, Erik! Você já se esqueceu de que sou invulnerável?

— Mas se eles descobrem o laboratório, isto aqui virará um inferno e todo o nosso trabalho para salvar a Terra irá aquífero abaixo. Eu não concordo com esses contatos.

— Está bem, Erik! Vamos pensar em outra solução.

— Ontem eu estava no hangar, fazendo a manutenção da nave, e lembrei-me que você disse, há tempos, que o hidrogênio líquido poderia ser usado nela como combustível alternativo, bastando desenvolver um equipamento de transformação...

O robô cetroniano segurou-me nos ombros, e me olhando com o rosto iluminado por um sorriso, exclamou:

Yes, my friend; that’s the way!

— Quer falar em português, por favor! Eu não entendo essa língua — eu disse, me desvencilhando de suas pesadas mãos.

Ele deu uma sonora gargalhada, e traduziu, quase gritando:

— Sim, meu amigo; esse é o caminho!...

Em seguida, RC fechou os olhos, abaixou a cabeça e pôs a mão no seu queixo quadrado, sem barba, e ficou acariciando-o com as pontas dos dedos. Certamente processando possibilidades.

De repente, ele arregalou os olhos e disse:

— Vamos trabalhar neste projeto agora mesmo, Erik. Temos centenas de tanques cheios de hidrogênio, vamos transformar tudo em hidrogênio líquido...

— Sim, meu amigo! Vamos arregaçar as mangas.

— Vamos adaptar uma câmara de compres-são na nave, conectada com o sistema central de propulsão, por onde o hidrogênio líquido será bombeado, alimentando os retroprojetores.

— É isso, RC! E o que é melhor: o hidrogênio líquido não deixará resíduos na atmosfera.

— Isso mesmo, garoto! Só tem um problema!

— Que problema?...

— Usando o hidrogênio líquido como combustível, vamos precisar de escapes para a energia que é liberada na combustão, em forma de línguas de fogo, o que também será prejudicial para a camada de ozônio, uma vez que as chamas queimam as moléculas de oxigênio e de ozônio.

— Problemas existem para serem resolvidos, não é mesmo, RC?...

Ele me olhou, esboçou um sorriso e concluiu.

— Vamos pensar numa maneira de não lançarmos as chamas para fora da nave. Encontraremos um jeito de armazenar essa energia, e ainda reaproveitá-la para dar mais potência à nave...

Eu também sorri, mas levantei outra questão:

— Será  que  aquela  nave  velha  vai  suportar  o tranco?...

— Ela está há muito tempo parada, pode ser que não funcione, mas vamos tentar.

— Vamos tentar, RC.

— Se ela não funcionar, vamos ter que ser também mecânicos de nave espacial...

Sem dizer mais nada, ele seguiu para o setor de robótica e eu o acompanhei. Enquanto o robô cetroniano trabalhava para desenvolver o projeto da câmara de compressão, eu pesquisava sobre um sistema para pulverizarmos o oxigênio na atmosfera e o ozônio na estratosfera.

Interrompemos os projetos para fazer a vistoria diária do laboratório. Entramos no elevador. RC ficou no segundo plano e eu segui para o primeiro, para vistoriar o computador do satélite. Aproveitei para localizar, com as potentes lentes do satélite de RC, a velha Fazenda Saltador, o meu recanto de paz e amor, aonde eu nunca mais voltei. Tudo era mato e ruínas.

Focalizei, entre o mato fechado, ao lado do mourão da porteira, já corroído pelo tempo implacável, as pedras que eu amontoei para proteger e marcar o lugar onde sepultei os corpos de meus entes queridos.

Nessa hora, eu pensei: “Se naquele dia fatídico eu estivesse usando esta armadura, teria chegado a tempo de salvá-los...”

Não contive a emoção: lágrimas de dor e de saudades brotaram de meus olhos e rolaram pela máscara da armadura, molhando a mesa digitalizadora.

 

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