12.o capítulo do livro

Minha cabeça estava meio zonza. Processar tantas novidades de uma só vez deixara-me tonto. Fui até a cozinha, tomei dois copos d’água e me sentei em uma das quatro cadeiras sem pernas, de encostos e assentos supermacios, que flutuavam ao lado de uma mesa oval, também flutuante.

RC, sem sair da sala, me disse, com voz paternal:

— Você precisa descansar, Erik. Seus batimentos cardíacos estão alterados e você está com os olhos pesados de sono.

— Que nada, RC, só vou descansar minhas pernas por alguns minutos.

— Tome um banho e durma, amanhã continuamos a vistoria!

— Não, RC, já estou melhorando — eu disse. Depois de uns cinco minutos, levantei-me e fui até a sala.

— Vamos, RC, mostre-me essa beldade...

Ao sairmos do aposento, a porta se fechou automática e silenciosamente.

Caminhamos uns cem metros e paramos em frente a uma parede. RC, medindo-me com o olhar, de cima a baixo, disse:

— Ela vai lhe cair como uma luva, Erik, pois você tem o mesmo corpo e a mesma altura do Príncipe Oten: 1,83 metros.

— O que é “ela”?...

Sem responder-me RC dobrou o braço esquerdo, posicionando-o à frente do corpo e o seu antebraço se abriu, deixando à mostra um painel com vários símbolos. Ele apertou alguns ícones no painel — certamente uma senha — e a parede à nossa frente se abriu. Era outro elevador. Entramos, e ele ordenou: “Terceiro plano.”

Quando o elevador parou, descemos em um setor onde havia vários computadores desligados e apenas um funcionando, algumas peças estranhas e muitos componentes eletrônicos espalhados pelas bancadas.

— Aqui ficam o laboratório de robótica, a usina geotérmica e a bomba elevatória de água.

— Essa bomba fornece água para os planos superiores, certo?... — eu perguntei, quase afirmando.

— Certo. Mas além disso, a bomba abastece a usina geotérmica e eleva a água do aquífero até o topo da montanha, formando um riacho. As águas correm mansamente e caem, em cachoeira, naquele poço por onde você entrou na montanha — ele disse.

Caminhamos alguns metros e RC parou diante de uma câmara de vidro que protegia uma armadura, parecida com a que ele usava.

E, antevendo minha pergunta, explicou:

— Essa armadura é o que de mais moderno existe na tecnologia cetroniana, Erik — e me olhou.

Como eu não disse nada, voltou-se e enfiou um dedo, como se fosse uma chave, numa abertura da câmara, e esta se abriu.

— O que achou do estilo, Erik?

— O estilo é meio conservador; agora... a armadura é linda. Linda, imponente, misteriosa...

— Esta armadura foi projetada e construída para ser usada pelo Príncipe Oten, que viria conosco na expedição.

— E por que ele não veio?...

— Na última hora, o Rei ordenou que seu filho ficasse em Cetro, alegando que precisaria de sua ajuda para reinar mais tranquilo.

— O Rei estava certo, RC. Separar-se de um filho é muito dolorido, seja qual for o motivo...

— Quando a nave-mãe partiu de Cetro, rumo ao espaço, esqueceram de retirar a armadura. Agora vamos fazer um bom uso dela, pois você vai usá-la para me ajudar a salvar o seu planeta.

— Eu vou usar esta armadura, RC?...

— Sim, Erik, esta imponência agora pertence a você.

— Obrigado, RC? Mas... o que esta belezura é capaz de fazer?

— Eu vou lhe explicar, com detalhes, tudo que eu sei sobre ela. Depois, é você entrar na armadura e descobrir as suas várias utilidades.

— Não sei, não, estou com medo de usá-la... Ela parece que pesa 500 quilos, como você.

— Nem tanto, Erik. Ela é mais moderna do que esta lata velha aqui. Pesa cinco vezes menos e é mais poderosa do que eu.

— Mesmo assim, não vou suportar todo esse peso.

— Não é você que vai carregá-la, é ela que vai carregar você. Além disso, quando você a estiver usando, conseguirá levantar o peso de até uma tonelada, dar grandes saltos em distância e altura e correr velozmente, como eu.

— Quantos quilômetros por hora conseguirei atingir quando eu estiver usando essa armadura?

— Teoricamente, quatrocentos quilômetros por hora...

Ele começou a falar e não parou mais. Foram três horas de instruções, precauções, comandos, teclas, códigos e tantos outros detalhes sobre a armadura. Finalmente ele me disse:

— Agora, Erik, é com você. Entre na armadura e comece a pôr em prática os ensinamentos que eu lhe transmiti.

Cheguei mais perto da armadura e fiquei admirando-a. Abri um compartimento no seu lado esquerdo, na altura do peito, e apertei a tecla dourada. A armadura se abriu e eu me encaixei perfeitamente em suas formas. Apertei a tecla marrom, ao lado da dourada, e a armadura se fechou sobre mim.

— Lembre-se, Erik, que é só você pensar que as fibras óticas da máscara, em contato com as suas têmporas, captam os impulsos elétricos de seu cérebro e enviam sua ordem mental à memória central da armadura.

— Se eu não sei falar e, óbvio, nem pensar em cetronês, como é que a memória central desta armadura cetroniana vai entender e fazer o que eu ordenar?

— Depois que eu fiquei sozinho... ou, melhor dizendo, que eu fui abandonado aqui, eu sempre pensei em encontrar algum ser humano que utilizasse essa armadura e que pudesse dividir comigo a responsabilidade de fazer a vistoria e a manutenção do laboratório. Então desenvolvi e acoplei à sua memória central um tradutor de todas as línguas que eu aprendi aqui na Terra para o cetronês. Se você apenas pensar “ande”, ela começará a andar.

Eu não disse nada. Estava nervoso.

RC incentivou-me:

— Tente andar, Erik...

Assim eu pensei: “Ande.” E comecei a andar... Andar, correr, trombar, pular, cair, levantar... Quebrei uma das grandes telas de computador; amassei uma parede, que certamente era de giônio; porém, em cinco dias eu já estava dominando aquela fera mecânica.

 

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