10.o capítulo do livro

Lembrei-me da minha família, das nossas conversas, das brincadeiras, dos risos, da união e do amor que reinavam em nossa casa. Fui andando devagar e me sentei numa grande poltrona macia, em forma de “c”, revestida com um couro de cor marrom.

RC me seguiu e ficou de pé à minha frente, esperando uma resposta. Passados alguns minutos, sem que eu abrisse a boca, ele perguntou:

— Então, Erik, você fica comigo?...

Olhei para o seu rosto, que tinha um ar de preocupação, e respondi, sorrindo:

— Sim, RC, eu fico. E muito obrigado por me acolher em sua casa!

— Eu é que agradeço, Erik, por você trazer um pouco de calor humano para este laboratório frio e solitário.

— Bem — eu disse, levantando-me —, já que eu vou morar aqui você pode me mostrar todo o laboratório, o quarto onde você dorme, onde eu vou dormir e tudo o mais?...

Ele abriu um largo sorriso, e disse:

— Venha, meu caro amigo, vamos iniciar a sua inspeção pelo setor onde foram construídos os reservatórios para armazenar oxigênio e hidrogênio, depois vou lhe mostrar os seus aposentos, porque eu não tenho um quarto.

— Você nunca dorme?

— Não, eu nunca durmo. Às vezes fecho os olhos e fico bem quietinho, diminuindo minhas atividades de processamento, mas não posso dizer que isso seja dormir — ele disse, começando a andar novamente.

Levantei-me e o segui.

— RC? Se você não dorme, também não deve sonhar...

— Não, Erik, mas quando estou inerte, de olhos fechados, seleciono alguns acontecimentos e fico rememorando-os. Sonhar seria isso?...

— É... Pode-se dizer que sonho seja mais ou menos isso: retalhos do passado que são costurados pela memória.
Entramos em um enorme galpão, onde havia uma parafernália que me fez lembrar uma oficina metalúrgica que eu havia visto numa reportagem na tevê. Meu novo amigo foi me explicando, tintim por tintim, como eles fabricaram os enormes tanques para armazenar o oxigênio e o hidrogênio extraídos da água.

— Não estou vendo os tanques, RC. Não sobrou nenhum para você me mostrar?

— Tem muitos, guardados no segundo plano.

— Segundo plano é outro depósito?

— É o setor onde também fica a usina de extração do oxigênio e do hidrogênio.

— E onde fica esse segundo plano?

— Aqui embaixo.

— Existe um andar aqui embaixo?...

— Um, não, Erik, dois andares para baixo.

— Uau!...

— Venha, vamos descer ao segundo plano.

Entramos no elevador e num piscar de olhos chegamos. RC me mostrou os enormes tanques para transportar o oxigênio, que agora continham também hidrogênio líquido, e milhares de tanques menores que seriam usados para a distribuição do oxigênio de casa em casa, se o plano de reavivar o sol amarelo de Cetro não desse certo.

— Esse setor se parece mais com uma câmara frigorífica, RC. Por que ele é tão gelado?

— Apesar dos tanques serem bem resistentes, esses dois gases são muito instáveis e precisam ser armazenados em ambientes de temperaturas baixas...

— Os tanques são feitos do mesmo material que usaram em você?

— Não, Erik. Eles foram construídos com giônio, por ser mais leve e mais fácil de ser industrializado. O cetrógino-sílio-giônio é uma liga indestrutível.

— Indestrutível?...

— Para você ter uma ideia, se eu estivesse no centro das nuvens, em forma de cogumelo, que as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki produziram, eu não seria exterminado como aquelas pobres criaturas.

— Puxa! Então você é um robô eterno, RC!

— Sou. Eu sou um robô eterno...

— Quantos anos você tem?

— Há 250 anos-cetro que estou na ativa.

— RC, você ter nascido no mesmo ano que o sol amarelo morreu foi só uma coincidência?

— Não foi coincidência, Erik. Eu já estava completamente montado, e com minhas memórias alimentadas de todas as informações, apenas aguardando as ordens para a minha primeira missão, quando aconteceu aquela tragédia. Então, meu criador decidiu programar-me para ajudar os cetronianos e vir nessa expedição... e aqui
estou eu.

— E de onde vem a sua energia vital, RC?

— Em cada uma de minhas pernas, do joelho para baixo, há uma bateria que me abastece de energia por 50 anos-cetro. Uma fica ativada, enquanto a outra fica carregando. Quando uma bateria começa a se enfraquecer, a que estava na reserva automaticamente entra em funcionamento e a outra é desligada e passa a se autorrecarregar. Nos sóis artificiais adaptamos esse mesmo sistema.

— Fico imaginando se essas baterias fossem usadas em nossos meios de transporte e nas indústrias: não haveria mais a necessidade de produzirmos combustíveis fósseis, e, em consequência, não haveria a emissão de mais gás carbônico na atmosfera. Acabaríamos com a poluição. Seria uma mão na roda para acabarmos de vez com o efeito estufa, com os vendavais...

— É verdade, Erik, mas, infelizmente, o principal componente para a produção dessas baterias, o C-99, não existe na Terra. Já o procurei com o meu satélite em todos os recantos do globo.

— Você não guardou nem um pouquinho desse componente no laboratório?

— Não, não sobrou nada. O que trouxemos foi utilizado para a nave-mãe retornar a Cetro, porque o C-99 também é usado como combustível sólido para alimentar os retroprojetores de nossas naves, e para outras finalidades.

— RC, o hidrogênio também não é um combustível para naves?

— Sim, aqui na Terra ele é o mais utilizado, mas para usá-lo em nossas naves teríamos que desenvolver um equipamento de transformação.

— No planeta Cetro tem muito desse tal C-99?

— Em nosso planeta  há  muitas  minas  naturais  de  C-99.

— Se tivéssemos como buscá-lo...

— É. Ele seria muito útil aqui na Terra...

Fiquei por um momento pensativo e, de repente, tive uma ideia:

— RC?...

— Sim, Erik.

— Com os conhecimentos que lhe foram passados pelo seu criador, quando você foi programado, mais os que você adquiriu ao longo desses anos e armazenou em suas memórias de cetronicbites e com essa facilidade que você tem para inventar de tudo, será que você não consegue descobrir uma maneira de reconstruir a camada de ozônio e salvar também o planeta Terra da destruição para a qual estamos caminhando?

Ele pareceu surpreso com a minha pergunta. Ficou sem dizer nada por alguns instantes, até que respondeu:

— Confesso que eu não havia processado essa possibilidade, Erik. Pensando bem, como eu terei que morar na Terra para sempre, não posso deixar que ela seja destruída.

 

Próximo Capítulo
 


Para adquirir livros de Edson Angelo Muniz, clique aqui.