9.o capítulo do livro

Entrei no elevador, que subiu velozmente. Subi correndo pela escadaria de pedra e abri a escotilha. Não havia mais chamas na fogueira, só algumas brasas cobertas de cinzas. Assoprei o borralho e coloquei mais folhas secas e lenha para reavivar o fogo. Fui até o pomar, colhi um diamante-negro e saí andando na direção do riacho, comendo aquela deliciosa fruta e levando a tralha de pesca.

Pescar é muito relaxante, por isso dizem que é antiestresse. Quando eu ia pescar no Prata, rio caudaloso que serpenteava entre as colinas e passava bem próximo de nossa casa, esquecia o trabalho, a raiva, as tristezas, os problemas, as dívidas... E voltava com mais ânimo para realizar as árduas tarefas em minha fazenda.

Cheguei à beira do riacho e escolhi uma pedra grande, onde fiquei sentado, protegido dos raios do sol artificial pela sombra de uma gameleira. Preparei o caniço e lancei o anzol nas águas cristalinas, com aquela isca que dava gosto ver. Fiquei alguns minutos esperando... e nada. Pensei: “RC me enganou; não tem peixe neste riacho.”

O calor era tão intenso que resolvi deixar o caniço no automático, em uma forquilha, e deitar-me para descansar sobre a areia branquinha, debaixo da frondosa gameleira. Fiquei ouvindo os zumbidos estridentes das cigarras, que nesta época do ano é o que mais se ouve nas matas, principalmente à beira dos riachos.

De repente, olhei para o caniço e vi que ele estava curvado feito um bodoque. Levantei-me depressa e saí correndo. Fiquei de pé em cima da pedra e segurei o caniço com as duas mãos. Percebi de cara que era um peixe dos grandes. Dei dois xaxos para trás, com bastante cuidado. Depois, dei mais um xaxo, para confirmar se o bicho estava mesmo fisgado.

De repente, o peixe tomou linha riacho acima, que a carretilha cantava. Soltei a fricção para não arrebentar a linha. De vez em quando eu recolhia um pouco de linha e ele rumava riacho acima outra vez. E tome linha... Eu recolhia e ele puxava. A linha ficou como uma corda de viola, porque o peixe lutava para escapar da morte certa. E
tome linha, e encolhe linha, e tome linha, e encolhe linha... Eu comecei a suar, até que depois de uns quarenta minutos, ele prancheou.

Fui trazendo-o para a areia branca da praia e logo avistei o seu lombo. Fiquei cansado, mas confesso que essa minha pescaria solitária foi muita adrenalina para mim.

A aparência do peixe era muito estranha, mas o assei e me fartei de tanto comer aquela carne saborosa, apesar de não estar temperada.

Novamente senti aquela sensação de que alguém me observava, mas naquela gruta não havia ninguém além de mim. Muito cansado e com a cabeça cheia de tantas surpresas e indagações, fui para a casa da escotilha. Forrei a cama com ramos e capim; deitei-me e dormi um sono tranquilo, como havia vários dias não acontecia.

Depois de algumas horas, levantei-me, lavei meu rosto no riacho e fui comer algumas frutas.  Sentei-me na areia e fiquei pensando: “Isso só pode ser um sonho, ou talvez eu também tenha morrido durante aquele vendaval... Será possível que na Terra existe um lugar como esse?... Será que esse robô é mesmo real?...”

Pensei também em como eu sairia dali. Procurei por uma saída, mas não encontrei nenhuma. Segui o riacho, para ver se eu saía da montanha da mesma forma como eu entrara, mas ele terminava em um paredão. Uma forte correnteza e um enorme redemoinho assinalavam que era muito perigoso eu me arriscar na travessia, mergulhando por baixo daquelas pedras pretas. Regressei à praia e tentei voltar por onde eu entrara, mas não consegui vencer a força das águas.

Resolvi, então, perguntar a RC como eu sairia daquele lugar. Fui até a escotilha e voltei ao laboratório. O robô cetroniano estava na porta do elevador, me esperando. Quando me viu, foi logo dizendo:

— Erik! Que bom que você voltou! Dormiu bem? Gostou da pescaria e da carne do peixe?  Matou  a  sua fome?...

— Olá, RC! Você hoje está elétrico, hem?

— Aprendi com um terráqueo...

— Foi coincidência você estar por aqui, ou você sabia que eu estava descendo?

— Eu vim até aqui para te esperar, Erik!

— Como você soube que eu estava vindo? Como soube que eu peguei e comi um peixe?

— Na Gruta do Descanso tem uma câmera e um sensor fotoelétrico ligados ao circuito interno de imagens que implantei no laboratório. Desde o primeiro instante em que você entrou na gruta, eu fiquei observando-o e torcendo para que você encontrasse a entrada para o laboratório Cetro.

— Hum!... Então era você que me vigiava!...

— Vigiava, não, Erik, monitorava.

— Dá na mesma...

— E fique sabendo de uma verdade, Erik, você só desceu porque eu fui com a sua cara assim que o vi; caso contrário, você não teria conseguido abrir a passagem, porque eu não teria desligado a trava eletropneumática.

— Sei.

— Desta vez não percebi nenhuma sombra de dúvida em sua entonação de voz, Erik!

— Nunca mais duvidarei de você, RC!

— O que aconteceu para você voltar tão depressa?...

— Você viu que eu estou todo molhado?

— Percebi. Por que você entrou no riacho?

— Para tentar sair da montanha. Mas nem precisa dizer que eu não consegui... E eu voltei para te perguntar exatamente isso: como eu faço para sair desta montanha?

— É muito fácil: no setor norte tem um elevador que o levará ao topo da montanha, e, no setor sul, o portão de entrada para o hangar.

— Como se chega ao setor norte?

Apontando um corredor com a mão direita, ele disse:

— Entre neste corredor e siga sempre em frente, até chegar a uma hortaliça, também iluminada por um sol artificial, entre no galpão da alimentação e...

Ele parou de falar, olhou-me, sério, e perguntou:

— Mas para que você quer sair daqui, Erik? Você disse que não tem para onde ir...

— E é verdade. Não te contei porque eu estava muito entusiasmado com toda essa minha descoberta e com tudo que você me contou. E também, porque não queria trazer mais problemas pra você, que já tem tantos com que se preocupar.

— Bobagem, Erik! Os problemas existem para serem resolvidos.

— Você é filósofo também, RC?...

— Não sou filósofo. Estou apenas repetindo uma frase que eu li na internet.

— É... Pensando bem, essa frase encerra uma grande verdade.

— Diga-me, Erik. Por que você não tem para onde ir e por que traz essa amargura estampada em seus olhos?

— Eu e minha família vivíamos felizes em uma pequena fazenda, herança do meu velho pai, até que numa tarde tudo acabou: família, felicidade, fazenda, tudo... Foi muito doloroso. Ainda estão gravadas em minhas retinas as
imagens daquela devastação. Nossa casa foi destruída por um vendaval que matou o meu filhinho de quatro anos e a minha mulher amada. Eu fiquei sozinho no mundo, sem afeto e sem teto.

— Sinto muito, meu amigo! — ele disse, com a voz triste. — Eu nunca tive uma família, mas sei que quando se perde um ente querido a dor é amarga. Portanto, não consigo mensurar a sua dor ao perder duas pessoas tão próximas.

— Obrigado, RC! Eu realmente não sei o que será da minha vida, não tenho mais ninguém e... Espera aí! Você disse que sente muito? E vejo em seu rosto e em seus olhos que você está mesmo triste! Então eu não me enganei! Você tem sentimentos!

— Sim, Erik, eu tenho sentimentos. Não sou só um amontoado de não sei o quê... Eu sou o mais moderno dos RCs. Bem, pelo menos eu era, quando saí do planeta Cetro, porque fui privilegiado com uma memória sentimental.

— Que legal, RC!

— Essa memória está ligada aos meus olhos e ouvidos; tudo que eu vejo e ouço é processado primeiramente por ela. A pele do meu rosto e os meus olhos são controlados por um programa especial que os molda conforme os impulsos sentimentais dessa memória.

— Por isso eu notei certas expressões faciais em você.

— A pele do meu rosto está um pouco endurecida porque eu não tinha com quem conversar e não tenho o hábito de conversar sozinho; porém, se você ficar no laboratório, em breve estarei sorrindo.

— Sorrir é um santo remédio contra a depressão, RC, e eu também estou precisando sorrir...

Ficamos calados por alguns instantes. Até que eu voltei a perguntar:

— E coração?

— Coração?... — ele estranhou.

— É. Você também tem coração?

— Não. Coração eu não tenho. Meus fluidos circulam em mim impulsionados por uma bomba giratória. Posso dizer que tenho um coração de ferro.

Eu sorri e brinquei:

— Isso dá até título para um livro de ficção: “O robô de coração de ferro”.

Pareceu-me que ele não entendeu a minha brincadeira.

— Erik, por que você não fica morando comigo? Espaço é o que não falta aqui. E eu, como você bem sabe, também não tenho mais ninguém, sou um robô solitário...

— Pensando bem, RC, pode ser uma ótima ideia. Ninguém sentirá a minha falta mesmo!...

 

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