8.o capítulo do livro

Gostei das cenas que vi, apesar de algumas delas serem de desolação e tristeza.

Saímos da sala de projeção e eu, com a mente fervilhando de dúvidas, perguntei:

— RC?...

— Diga, Erik.

— Se o sol amarelo, que era a fonte do ar que os cetronianos respiravam, se apagou, morreu, como é que eles sobreviveram?...

— Nós, os robôs, sob as ordens do nosso criador, construímos vários sóis artificiais, para transformar o ar venenoso em ar respirável, e os instalamos próximos aos abrigos, canalizando o ar para dentro deles. Só que esses sóis liberavam pouco ar, o suficiente apenas para manter a vida abaixo da superfície. Tudo o que ficou fora dos abrigos estava morrendo, queimado pelos raios vermelhos; também nossos rios e lagos estavam se evaporando.

— Nesse caso, por que vocês não construíram um sol artificial para iluminar todo o planeta?

— Porque não conseguimos uma fonte de energia suficientemente grande, e durável o bastante para a emissão da quantidade de luz necessária ao processo de transformação.

Novamente o silêncio. Andamos lado a lado, ele de cabeça erguida e eu cabisbaixo, pensativo. Passei a mão na barriga e perguntei:

— RC, você tem alguma comida armazenada aqui? Eu estou com fome...

— Não, não tenho nenhuma comida. Para a longa viagem entre a Terra e o planeta Cetro, todos os suprimentos alimentares foram levados na nave-mãe para o sustento dos cetronianos; e dos cetroterráqueos, é claro. Além disso, eu não preciso comer nada!...

— Sei.

— Mas tenho cápsulas de várias vitaminas e aminoácidos que eu produzi e armazenei em câmaras frias, para o caso de eles voltarem.

— Não quero comprimidos, RC, eu preciso mastigar alguma coisa consistente.

— Os comprimidos não são consistentes mas têm várias vantagens, e uma delas é que as vitaminas entram diretamente na sua corrente sanguínea.

— Prefiro morder frutas e sentir o gosto de cada uma... Lá em cima, naquele pomar, tem algumas frutas que eu não conheço. Posso comer de qualquer uma?

— Claro! São todas saudáveis e ricas em vitaminas, carboidratos, fibras, ferro... Foram os cetronianos que plantaram aquele pomar, que na verdade é um viveiro de mudas, com sementes e mudas de todas as regiões da Terra, quando ainda a estávamos explorando.

— Eles levaram mudas de nossas árvores para Cetro?

— Sim, Erik! Eles levaram milhares de mudas e sementes, de quase todas as espécies, na esperança de que estas se adaptem ao ambiente cetroniano.

— RC?...

— Pergunte, Erik.

Eu olhei de soslaio para ele e fiz outra pergunta antes da que eu já havia formulado em minha mente:

— Você consegue ler pensamentos?

— Não, mas eu sei que quando você me chama com essa frequência de voz, é porque quer perguntar alguma coisa.

— Então me responda: 6.000 cetronianos, cetroterráqueos a rodo, milhares de enormes tubos de oxigênio, suprimentos alimentares e milhares de mudas de árvores: qual é o tamanho da nave-mãe para transportar tudo isso?

— Ela tem duas vezes o diâmetro do estádio do Mineirão e possui dez planos.

— Nossa!... E essa nave gigantesca ficou o tempo todo flutuando na exosfera da Terra?

— Não! Quando decidimos ficar aqui, o Comandante Ziul aterrissou a nave-mãe.

Parei e peguei no braço do robô, para que ele também parasse.

— RC, me conduza de volta ao elevador, preciso me alimentar. Vou subir pra caverna e comer algumas frutas.

— Experimente uma que tem a casca preta e um formato oval; os cetronianos deram a ela o nome de diamante-negro.

— Sim, lembro-me de tê-la visto no pomar.

O robô se agachou, estendeu os braços e disse:

— Deite-se em meus braços e se segure. Estamos muito longe do elevador. Se formos caminhando, com esses passos de tartaruga, vamos demorar uns cinquenta minutos.

Mesmo sem entender, deitei-me em seus braços e ele saiu correndo velozmente pelo laboratório. Chegamos ao elevador em menos de cinco minutos.

Quando ele me pôs no chão eu disse, aliviado:

— Ufa!...

O robô entrou em um compartimento perto do elevador e voltou logo em seguida, com uma tralha de pesca nas mãos, e me disse:

— Na Gruta do Descanso, aquela caverna de onde você veio, se você quiser, pode pescar, o riacho está repleto de bons peixes. Leve este caniço, com a carretilha já cheia de linha 40, estes anzóis e estas iscas artificiais.

— Não vi nenhum peixe naquele riacho, RC. Além disso, agosto não é um mês próprio para se pescar.

— Eles estão lá, Erik, e não resistem a essas iscas que lhe dei.

— Por que você chamou aquela caverna de Gruta do Descanso?

— Quando os cetronianos trabalhavam aqui, grupos de cinco casais se revezavam semanalmente na Gruta do Descanso, para, como o próprio nome diz, descansarem, mas, também, para se acasalarem. Ela foi construída por eles para essas finalidades: descanso, prazer e conservação da espécie.

— Aquela luz, no alto da gruta, é um dos sóis artificiais que vocês trouxeram de Cetro?

— Isso mesmo, Erik. Ele foi colocado na Gruta do Descanso porque as plantas precisam da luz e da energia do sol para germinarem, crescerem e darem flores, frutos e sementes.

— Bom, vou subir para comer um diamante-negro e tentar pescar algum peixe. Venha comigo.

— Não posso sair daqui. Tenho ordens expressas para proteger o laboratório. Preciso vistoriar, a cada hora, o computador que controla a extração de oxigênio e hidrogênio; o que controla o supertransmissor de rádio eu vou verificar a cada doze horas; os demais computadores, e as máquinas, uma vez por dia. E por falar nisso, já estou atrasado alguns segundos...

— Caxias!...

— Obediente e responsável, eu diria.

— Está bem, RC 1.500. Fique aí, sozinho novamente, eu preciso ir.

— Muito obrigado por tudo, amigo Erik, você é um terráqueo especial. Fiquei muito feliz em conhecê-lo e gostei da sua companhia.

Dizendo isso ele me estendeu a mão direita, à espera de um cumprimento. Apertei a sua mão, que quase escondeu a minha, e disse:

— Eu é que tenho a agradecer por tudo, meu amigo. E também gostei muito de conhecê-lo.

— Volte mais vezes, para conversarmos.

— Voltarei sim. Mesmo porque eu não tenho para onde ir nem onde ficar...

— Por quê, Erik? Você não tem família?...

— Até amanhã, RC! — eu disse, sem responder à pergunta.

 

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