7.o capítulo do livro

No rosto avermelhado do robô percebi uma expressão diferente: um misto de tristeza e revolta.

Depois de alguns minutos, perguntei:

— RC?...

— Sim, Erik — disse ele, levantando a cabeça e voltando a caminhar lentamente.

— Como foi que você aprendeu a falar tão bem a nossa língua? — eu perguntei, caminhando ao seu lado.

— Ora, pensei que você fosse mais perspicaz!

— Eu sou perspicaz, mas não tenho bola de cristal — eu disse, sorrindo, tentando deixar o clima mais amigável.

Ele desanuviou o semblante, e perguntou:

— Você acha que eu fiquei confinado aqui por 54 anos, sozinho, sem fazer nada?

— É claro que eu não acho isso, RC! Eu só quero saber como você aprendeu o português, ora bolas!...

— Eu aprendi porque, além de outros inventos, construí um satélite e o coloquei em órbita da Terra — bem acima dos satélites de vocês, para não ser descoberto —, e com ele eu consigo ver e ouvir todas as estações de tevê e de rádio, efetuar ligações telefônicas, assistir partidas de futebol, ver novelas e telejornais, acessar a rede mundial da internet...

— E você só fala o português?

— Não, ora bolas!...

Eu ri, e ele continuou:

— Falo milhares de idiomas de outros planetas e armazenei todos os dialetos da Terra em minhas memórias. Entendo e falo todos os idiomas do seu planeta.

— Puxa! Então você é um robô poliglota.

— Sou. E ainda vejo tudo o que acontece, em qualquer cantinho do globo terrestre, com potentes câmeras instaladas no meu satélite.

— Verdade?...

— Eu já lhe disse que eu não fui programado para mentir, Erik!

— Desculpe-me, meu amigo, eu não quis te ofender.

RC me olhou, com um ar sorridente, e disse:

— Obrigado, Erik!

— Obrigado?... Obrigado, por quê, RC?...

— Por me chamar de amigo. Eu aprendi, com os humanos, que a amizade é muito importante para se viver em uma comunidade.

— Ter amigos é muito importante, RC. A amizade entre os seres vivos, de qualquer espécie, é essencial para que a paz perdure e a vida seja mais feliz em qualquer planeta do universo.

RC fechou a mão direita, em forma de um “o”, e a levou à boca, como se fosse um microfone, e cantou:

— “Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração...”

— RC!... — eu exclamei. — Você é um excelente cantor. Até me arrepiei, ó!... — e lhe mostrei os pelos do meu braço esquerdo.

— Você gostou mesmo, meu amigo?

— Claro que gostei, RC! Estou emocionado. Pensei estar ouvindo o Milton Nascimento!

— Gosto muito de ouvir música. Desde que coloquei o meu satélite pra funcionar, já ouvi e gravei milhares de músicas, e aprendi a imitar muitos dos cantores.

— Essa música que você cantou, “Canção da América”, foi escrita por dois mineiros: Fernando Brant e Milton Nascimento, este o intérprete.

— No planeta Cetro eu não ouvia música.

— Por que não? Em Cetro não há cantores, nem músicos?...

— Não, não, não é isso. É porque lá eu não tinha acesso a aparelhos de som, e muito menos a computadores. “Robôs não são criados e programados para se divertirem”, dizia o nosso criador. E ele era totalmente apoiado pelo Rei.

— Mas, então, você se diverte ouvindo músicas, RC?

— Se eu gosto, logo me divirto...

— Depois, sem atrapalhar suas vistorias ao laboratório, vou querer ouvir você imitando outras vozes... Vamos nos divertir muito.

— Quando quiser, Erik! Eu estou sempre afinado — disse o robô, com ar de satisfação.

— RC? Com esse seu satélite revolucionário, você não consegue se comunicar com o planeta Cetro para pedir uma nave de resgate?

— Não, Erik, o Comandante Ziul levou o único transmissor intergaláctico que havíamos trazido!

— Você tem uma inteligência artificial invejável! Por que não monta outro transmissor?

— Alguns componentes só existem em Cetro, por isso tenho que me contentar em ver imagens de lá, gravadas em minhas memórias de cetronicbites.

— Nem vou perguntar de que tamanho são elas...

— Mas, baseando-me em um modelo avançado da Terra projetei, montei e coloquei no satélite um supertransmissor de sinais de rádio, que diuturnamente envia para o espaço sideral uma mensagem em cetronês, para que os cetronianos venham me resgatar.

— Tomara que dê resultado, RC.

— Tenho a convicção de que um dia eles ouvirão minha mensagem.

— Cetronês, presumo, é a língua que os cetronianos falam...

— Isso mesmo, Erik! Em Cetro o diálogo é mais fácil do que na Terra, porque lá, além de termos apenas um governante, todos falam a mesma língua.

— É... Seria muito bom se todos os humanos falassem somente uma língua, talvez assim não houvesse tantos desentendimentos, tantas guerras...

— Eu gosto de falar o português. É uma das línguas mais difíceis que eu já aprendi, mas verdade seja dita: é a mais bonita de todas.

— Obrigado! Partindo de você, eu acredito e me sinto lisonjeado, porque eu adoro a minha língua-pátria.

— Agora, o planeta Cetro, antes dessa catástrofe cometa-solar, era um dos mais bonitos do Universo.

— Mais do que o planeta Terra?... Duvido!

— A Terra também é linda, Erik, mas Cetro era mais bonito. Além disso, ele é duas vezes maior do que ela.

— RC! Você leu, na Bíblia, a história de São Tomé?

— Sim, eu a li. Por quê?

— Eu sou um discípulo de São Tomé: “Só acredito vendo!”

— Então venha, vamos à sala de projeções para você conhecer o planeta Cetro. Você verá que eu tenho razão.

Entramos em uma enorme sala redonda, de paredes lisas e brancas, toda iluminada por uma luz amarela. O piso, também liso, era marrom, enfeitado com desenhos de círculos brancos, de mais ou menos um metro e meio de diâmetro, e dentro de cada círculo havia uma cadeira giratória.

RC ficou de pé, no centro da sala, sobre um pedestal que também tinha a forma circular. Uma portinhola se abriu no alto de sua cabeça, de onde emergiu uma antena, similar a um periscópio, com três minicâmeras na ponta. A luz amarela diminuiu de intensidade quando ele disse: “Penumbra.”

 

 

Nota: as ilustrações deste livro, incluindo a capa,

são de Edgar Franco.

 

 

O robô cetroniano projetou nas paredes-telas as imagens de seu planeta, como em um cinema 180 graus, enquanto saía de sua boca a explicação de tudo o que era exibido. Percebi que não era ele quem narrava; era a voz dele, mas sua boca tinha um movimento mecânico, não era como quando ele conversava normalmente. As imagens eram tão reais, que a impressão que eu tive era a de estar mesmo pisando em solo cetroniano.

Então dei a mão à palmatória: o planeta Cetro era muito bonito, mais bonito que a Terra. Visto do espaço, Cetro era um planeta dourado. Quando foram focalizadas as cidades cetronianas, vi a beleza da arquitetura, e também de suas ruas largas, retas e bem cuidadas, ladeadas por jardins.

Quando as imagens mostraram os campos, vi milhares de flores, de todos os tipos e cores, que cobriam boa parte das terras, e em alguns pontos, uma grama verde, alta e felpuda. Em outras áreas vi agricultores, protegidos por um imenso chapéu — que me lembraram os sombreiros mexicanos —, cultivando a terra; certamente a agricultura de subsistência.

Muitas das cidades exibidas eram constituídas apenas de prédios; e essa foi a explicação da voz que o robô emitia: “Devido à superpopulação, o Rei Cetro VI ordenou a construção de cidades inteiras, em várias regiões do planeta, formadas de prédios de até cem planos, com quatro aposentos em cada plano.”

Assistimos a muitas cenas. Vi as naves de transporte cortando o espaço aéreo de Cetro e os módulos de locomoção dentro das cidades, voando baixo. Vi o sol amarelo emitindo seus raios de luz amarela que, misturados com os raios de luz vermelha do outro sol, resultava em uma luz cor de mel, parecendo que o planeta inteiro fora pintado de ouro. Depois vi a passagem do cometa apagando completamente o brilho vital do sol amarelo.

Conheci o Rei Cetro VI, a Rainha Enila, o Príncipe Oten e a Princesinha Zanza. Vi que os cetronianos eram realmente parecidíssimos com os terráqueos, como RC dissera. Possuíam dois braços e duas pernas; porém, nas mãos e nos pés, apenas quatro dedos, sem unhas. O rosto seria perfeito, não fosse a falta do nariz e das sobrancelhas. As orelhas eram redondas e bem  menores que as nossas. E a pele era muito branca, igual à dos negros-aços da Terra.

— RC, você pode me ouvir?

— Sim, Erik, sou todo ouvidos... — ele disse, dando uma pausa na projeção e se virando para mim.

— Estou com uma pergunta martelando em minha cabeça...

— Não se faça de rogado, pergunte.

— Você saberia me dizer o porquê desta semelhança incrível entre os terráqueos e os cetronianos?

— Não posso afirmar nada, Erik, mas vou te contar um pouco da nossa história interplanetária.

— Não foi isso que eu te perguntei, RC!...

— Calma, Erik! Escute-me, e só depois tire suas conclusões.

— Tudo bem...

— Nosso planeta é bem mais velho que a Terra. Ele surgiu há bilhões de anos-cetro, e a evolução tecnológica dos cetronianos, há mais de um milhão de anos-cetro.

— Tem razão do planeta estar superpopulacionado, um bilhão de anos-cetro nascendo dois cetronianos de cada fêmea, e os idosos morrendo só depois dos quatrocentos anos de vida!...

Ele me olhou, e continuou o seu relato:

— Quando os pensadores de Cetro descobriram que o Universo era imenso, ficaram maravilhados e cheios de esperança de encontrarem outros planetas, outros seres inteligentes.

— Nós também temos essa mesma esperança.

— Então, eles projetaram e construíram a primeira nave espacial, a Cetrus-1, para explorar o espaço sideral.

— A nossa história espacial também é a mesma...

— Foram mais de cinquenta anos-cetro trabalhando na construção da nave-mãe, e de dez naves-anãs, e também na preparação da tripulação. O lançamento da Cetrus-1 foi um sucesso; porém, ela nunca mais voltou para casa.

— Não deram nenhuma notícia?...

— Existem gravações das conversas entre Cetro e a nave durante os primeiros cinco anos de sua partida, depois: silêncio total.

— Os cetronianos não enviaram outra nave para procurar a Cetrus-1?...

— Sim. Foram construídas mais naves. Uma delas, a Cetrus-6, saiu pelo cosmos, tentando localizá-la. Após alguns anos, voltou sem nenhuma notícia da Cetrus-1.

— A Cetrus-1 pode ter explodido, e todos os tripulantes morreram.

— Ninguém sabia ao certo o que poderia ter acontecido. Havia as especulações, como essa que você disse agora, até que...

— Até que Cetrus-1 voltou...

— Não, Erik, até que chegamos à Terra.

— Como assim?...

— Segundo consta em meus arquivos sobre a história da Cetrus-1, os cientistas colocaram nela, assim como nas outras naves-mães, e em todas as naves-anãs, um pequeno bloco de cetrílio, para facilitar a sua localização.

— Sei. E o que é esse cetrílio?...

— Cetrílio é uma rocha cetroniana que emite ondas eletromagnéticas distintas.

— Um imã?...

— É. Vamos dizer que o cetrílio seja igual a um imã permanente da Terra.

— Sei...

— Quando nossa nave-mãe foi se aproximando de Marte, o Comandante Ziul foi avisado de que estávamos recebendo ondas de onze cetrílios, de um lugar bem distante de onde estávamos.

— Eu havia me esquecido dessas ondas. E você também se esqueceu, RC, porque ficou de me falar sobre elas e até agora não disse nada.

— É verdade, Erik; e sobre as ondas, o Comandante disse: “Isso é impossível! Cetrílio, aqui? Só se forem os que são colocados em nossas naves, mas a única nave de Cetro neste  quadrante  do  Universo  é  esta que estou comandando!”

— E o que vocês fizeram?...

— Seguindo os pulsos das ondas, constatamos que eles estavam sendo enviados de um planeta verde-azulado, e como eu já lhe disse, foi assim que encontramos o seu maravilhoso planeta...

— Então, a nave número um de Cetro cruzou o espaço e veio parar na Terra?...

— Sim, Erik. Mais precisamente, na região onde hoje se localiza o Continente Africano.

— A Cetrus-1 foi encontrada na África?!...

— Sim.

— E todos os cetronianos morreram na colisão?

— É difícil dizer, Erik. Mais de cem mil anos-cetro se passaram. Mas as naves-anãs não se encontravam perto da nave-mãe. Isso é um forte indício de que os cetronianos podem ter saído da Cetrus-1 antes de ela cair na Terra.

— Isso, se ela caiu... Os cetronianos podem ter pousado a nave na Terra, montado, na África, o seu quartel-general, e o Comandante ter enviado as naves-anãs, com muitos tripulantes em cada uma, para que explorassem o planeta; assim como vocês fizeram, quando aqui chegaram.

— É... É uma possibilidade, Erik.

— As dez naves-anãs foram encontradas?...

— Sim, depois que localizamos a nave-mãe, seguimos as outras dez ondas eletromagnéticas e encontramos vestígios delas em várias partes do globo: Oceania, Ásia, Europa, América do Sul, América do Norte...

Eu não disse nada. Fui até a cozinha e tomei um copo d’água. Fiquei por ali, alguns minutos, pensativo. Voltei para a sala de projeções, e disse a RC, que permanecia imóvel no centro da sala:

— Já tirei as minhas conclusões, RC!

— E quais são elas?

— Cetrus-1 saiu de Cetro há cem mil anos-cetro, cruzou o espaço sideral, e pousou na Terra... Como um ano-cetro equivale a dois anos-terra; realizando uma operação matemática do primário: cem mil anos-cetro é igual a duzentos mil anos-terra.

— Operações matemáticas são o meu forte. Mas, e daí?...

— E daí?... Pensei que você fosse um robô mais perspicaz, RC?

— Sei... Perspicaz...

— É. Pensei que você processaria a mesma conclusão que eu tive.

— E a que conclusão você chegou, Erik?

— Nossos antropólogos afirmam que os primeiros homo sapiens surgiram na face da terra, em vários continentes, entre cento e cinquenta mil e duzentos mil anos-terra atrás.

— Você está pensando que...

— É muita coincidência, RC!...

— Sei...

— Eu estou pensando que os cetronianos que vieram para o planeta Terra, na Cetrus-1, são os homo sapiens da raça humana...

— Como eu já disse, Erik, não tenho como provar nada, pois eu não processo hipóteses. O que eu posso lhe afirmar é que nos estudos comparativos que fizemos, entre os cetronianos e os terráqueos, descobrimos que eles têm o
mesmo gene.

— Então... Geneticamente falando, os cetronianos podem ser mesmo os nossos ancestrais?

— Não podemos afirmar, Erik. É tudo muito vago, e... misterioso.

Fiquei atordoado, e o meu pensamento viajou longe...

— Erik, você está aí?... — perguntou RC, batendo com a ponta de um dedo na minha testa.

— Sim, eu estou aqui, e estava pensando: nós temos cinco dedos em cada membro, temos unhas, nariz, sobrancelhas...

— Reafirmo que eu não posso provar nada do que você está supondo, mas mutações, adaptações, transformações acontecem ao longo dos anos com todos os seres vivos, de acordo com o seu habitat.

Olhei para ele, ainda meio confuso, e perguntei:

— RC? Por onde os cetronianos respiram?

— Os orifícios respiratórios dos cetronianos se situam um de cada lado da cabeça, abaixo das orelhas.

Enquanto falava, ele projetou, congelou e ampliou a imagem de uma bela fêmea e mostrou-me os pequenos orifícios. Contudo, meus olhos pararam no corpo esguio, de curvas perfeitas, e nos belos seios da jovem cetroniana, que usava uma blusa verde-água, bem justinha, feita de um material transparente, similar ao polietileno.

 

 

Nota: as ilustrações deste livro, incluindo a capa,

são de Edgar Franco.

 

 

— As fêmeas de Cetro são bonitas, sim, RC, só que iguais às mulheres mineiras você não vai encontrar em nenhum planeta do Universo.

Ele me olhou e pareceu-me que sua face se iluminou com um sorriso.

Quando passaram as imagens das ruínas de uma cidade, sua voz mecânica explicou: “Essa é Cetronília, a grande cidade-mãe. Depois que o sol amarelo se apagou, ela e todas as cidades de Cetro viraram cidades fantasmas e milhares de cetronianos morreram; até que construíram abrigos subterrâneos por todo o planeta, para fugir dos raios mortíferos do sol vermelho.”

Ao serem projetadas as imagens de seu nascimento, ou melhor, de sua montagem, em um laboratório sofisticado, pareceu-me ter ouvido um soluço de RC. “Incrível! Esse robô tem sentimentos!”, eu pensei.

Pedi que interrompesse a projeção, o que ele fez imediatamente. Em seguida, iluminou a sala apenas dizendo: “Claridade.”

Ficamos alguns instantes em silêncio: o robô, depois de rever as imagens extraídas de suas memórias, talvez pensando o quanto seria bom voltar para o seu planeta de origem, reencontrar o seu criador, o Rei Cetro VI, e os seus companheiros; eu, pensando em minha esposa querida e em meu filho amado, os quais nunca mais voltariam para a nossa casa e que eu também só conseguia ver nas imagens que periodicamente passavam nas telas de minha mente.

 

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