6.o capítulo do livro

Abaixei a cabeça e fiquei mudo por alguns instantes. Ter que concordar com aquele robô era muito triste e vergonhoso, mas a raça humana, além de complicada e imprevisível, é muito cruel. E vieram à minha mente imagens das atrocidades praticadas pelo homem, que se diz “animal racional”.

Voltei à realidade quando ele me cutucou, perguntando:

— Por que você se calou de repente e ficou assim, tão tristonho? Eu o ofendi de alguma forma?

— Não, RC... É síndrome de culpa.

— Você se sente culpado de quê, Erik?

— Esqueça, RC.

— Saiba, Erik, que minha memória ativa não esquece jamais o que eu ouço ou vejo...

— Vamos mudar de assunto?

— Por quê?...

— Porque eu quero que você me conte mais sobre o que vieram fazer em nosso planeta.

— Bom, como eu estava dizendo, quando percebemos as condições favoráveis da Terra para que a nossa missão fosse coroada de êxito pairamos a nave-mãe na exosfera, ativamos o escudo de invisibilidade e descemos, em naves-anãs, para fazer o reconhecimento do
planeta e decidir onde iríamos construir o laboratório.

— Sei...

— Escolhemos essa região, conhecida atualmente pelo nome de Triângulo Mineiro, porque quando aqui chegamos, há 204 anos-terra, ela era despovoada e principalmente por ter muitos córregos, rios e por estar sobre o maior manancial de água doce da Terra.

— Que manancial?...

— É um imenso reservatório natural, de mais de um milhão de quilômetros quadrados, que recebeu o nome de Aquífero Guarani, sendo que oitocentos mil quilômetros quadrados estão localizados em território brasileiro.

— Nunca ouvi falar desse aquífero.

— Como eu já disse, foi por causa dessa grande quantidade de água que escolhemos essa região. Depois, trabalhando sem cessar, construímos o laboratório a uns mil metros abaixo da superfície, para não incomodar ninguém e também porque só aqui encontraríamos a energia de que precisávamos para alimentar nossas máquinas sem causar nenhum dano ao planeta de vocês. E, como este laboratório seria o nosso refúgio por longos anos, o batizamos com o mesmo nome do nosso planeta de origem.

— Uma justa homenagem, RC. Mas eu não captei o seu raciocínio lógico. Como vocês conseguiram, aqui embaixo, energia para ligar tantas máquinas e computadores?...

— Construímos uma usina geotérmica, utilizando o calor do magma e o vapor da água superaquecida que canalizamos.

— Quanto tempo foi gasto na construção deste complexo laboratório?

Ele pressionou o dedo no canto inferior direito da tela, desligando o computador, e, recomeçando a andar, respondeu:

— Foram 22 anos-terra. Essa grande montanha, que você viu aí em cima, é o resultado das escavações feitas.

— E durante todos esses anos ninguém descobriu este lugar, assim como eu descobri?

— Essa região era completamente desabitada, Erik. Algumas vezes, quando saíamos em nossas pequenas naves para pesquisar o planeta e era necessário desligar o escudo invisível, elas eram vistas por alguns de sua espécie, mas nunca nos descobriram de verdade. Você é o primeiro terráqueo a entrar no laboratório sem estar completamente sedado.

— Então os Ovni’s eram vocês o tempo todo, assustando e raptando seres humanos?...

— Sim... Confesso que sequestramos alguns, para estudar a sua raça, mas nunca ferimos nem matamos ninguém. Aplicávamos um sedativo para que os abduzidos dormissem o tempo todo. Depois de examinados, os levávamos de volta sem nenhum arranhão.

— É verdade que em suas pesquisas, realizadas com os seres humanos, os cetronianos engravidaram mulheres terráqueas?

— Isso jamais aconteceu, Erik!

— E nem forçaram algum homem a engravidar uma fêmea cetroniana?...

— Muito menos isso! Seria uma insensatez.

— Mas eu sempre ouvi dizer que...

— O que você ouviu, viu e leu por aí, sobre seres de outros planetas, é puro sensacionalismo de alguns repórteres que não medem as consequências das falsas notícias. Como eu já lhe disse, nossas cobaias humanas voltavam para os seus lares, sãs e salvas. Apenas lhes tirávamos um pouco de sangue.

— Sei...

— Não duvide, rapaz, não me programaram para mentir.

— Eu não disse que você está mentindo, RC!

— Mas pensou... — ele disse, parecendo estar magoado.

Para fugir do olhar penetrante de RC, olhei para todos os lados, perscrutando o laboratório, e perguntei:

— Como os cetronianos se reproduzem? Eles fazem sexo como nós, terráqueos?

— Sim! Pelas comparações que fizemos entre os corpos dos cetronianos e os dos seres humanos, os órgãos genitais e os de reprodução são similares.

— Similares?...

— É... São muito parecidos. Com a diferença de que as fêmeas de Cetro dão à luz dois filhos por gravidez, numa gestação que dura cinco meses-cetro, alguns dias a mais do que os nove meses-terra que as mães daqui carregam seus filhos no ventre, pois como eu já lhe disse um ano-cetro corresponde a dois anos-terra.

— Todas as fêmeas de Cetro dão à luz a dois filhos de cada vez?...

— Sim; raramente elas têm um aborto espontâneo, e nunca praticam esse crime hediondo.

— O aborto é o mais cruel dos assassinatos, pois a criatura não tem como se defender...

— Com o nascimento de dois novos seres a cada parto, aliado ao fato de que a expectativa de vida dos cetronianos é de quatrocentos anos-cetro, a população do planeta cresce assustadoramente a cada dia.

— E elas, são bonitas?

— As crianças?...

— Não, RC! As mulheres, as fêmeas de Cetro.

— Eu não acho.

— Também não era pra menos... Você é um amontoado de não sei o quê!

— Fique sabendo, rapaz, que eu sou revestido com a melhor liga metálica de que você já tenha ouvido falar!

— Qual liga?...

— Cetrógino-sílio-giônio.

— O que é isso?

— Deixa pra lá, Erik!

— Deixa pra lá, não, RC, quero saber, ora!

— Bem, digamos que aqui na Terra seria o equivalente a uma liga de aço-carbono-titânio, fundidos a mil graus centígrados e resfriados, em um milésimo de segundo, a mil graus centígrados abaixo de zero. Entendeu?

— Não entendi, RC, mas vamos a outra pergunta, de maior interesse para mim: o que vocês encontraram na Terra que poderia salvar o planeta Cetro?

— Quando fez 100 anos-terra que havíamos chegado aqui, depois de várias pesquisas, testes, reuniões e conferências interplanetárias com o Rei Cetro VI e nossos doutores e pensadores, chegamos finalmente a uma teoria que poderia ser a salvação do planeta Cetro.

— E qual foi essa teoria?

— Bombardearmos o sol amarelo de Cetro com um gás existente na Terra.

— Gás?... Qual gás?

— O oxigênio.

— Oxigênio?... Ah! Agora é que eu entendi! Como os cetronianos ficaram sem ar para respirar, eles decidiram vir buscar onde já existe tão pouco...

— Não, Erik, não é isso. Nós não somos predadores. Não viemos aqui destruir a Terra para salvar Cetro. O oxigênio, como você deve saber, é um dos gases que compõem o ar de seu planeta, e...

— Eu sei disso, mas sei também que se vocês retirarem o oxigênio da Terra os seres vivos morrem e a Terra também morrerá!

— Erik, em momento algum pensamos em retirar o oxigênio do ar; simplesmente porque, como você mesmo afirmou, iríamos prejudicar ainda mais a vida dos habitantes da Terra.

— E o que fizeram, então?...

— O que nós fizemos foi inventar e construir uma máquina para extrair o oxigênio da água.

— É sério?...

— É. E durante 50 anos-terra trabalhamos nesse sentido, bombeando a água do Aquífero Guarani. Demorou todos esses anos porque precisávamos de muito oxigênio e não podíamos secar esse manancial, importante para as futuras gerações da Terra.

— Tudo bem, RC, eu já entendi que vocês são de paz e que não vieram ao nosso planeta com a intenção de nos prejudicar, mas me explique só uma coisinha: o que vocês fizeram com os dois átomos de hidrogênio quando quebraram a molécula da água para extrair o oxigênio?

— Vejo que você foi um bom aluno de física e de química, Erik!

— Nem tanto, mas nunca me esqueci da Lei de conservação da matéria, de Lavoisier: “No mundo nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.”

— Bom, no início pensamos em devolver o hidrogênio para as águas do aquífero, mas um de nossos doutores descobriu que ele é um gás altamente inflamável e que poderia ser usado de forma a produzir energia não-poluente e até mesmo como combustível para nossas naves;
então passamos a armazená-lo também.

— E por que você está sozinho aqui? Aonde foram todos os cetronianos e os cetroterráqueos?

— Cetroterráqueos?...

— Acho que posso chamar assim os filhos dos cetronianos que nasceram na Terra, não é mesmo?

— Claro que sim, Erik! Eu gostei desse adjetivo. Vou armazená-lo em minha memória.

— Então, RC, você não me respondeu: por que não tem ninguém com você aqui?

— Com a nave-mãe abarrotada de tubos cheios de oxigênio, todos voltaram para o planeta Cetro, levando o RC 1.499, e deixando-me aqui, sozinho, para proteger e fazer a manutenção do laboratório e continuar extraindo e armazenando oxigênio e hidrogênio.

— Hum...

— Mas o Comandante Ziul, ao se despedir, prometeu que voltaria em breve para me levar de volta.

 

 

Nota: as ilustrações deste livro, incluindo a capa,
são de Edgar Franco.

 

 

— Sei...

— Lá vem você novamente com essa expressão de dúvida! Por que isso agora?

— Como você pode afirmar que eu estou duvidando de suas palavras?

— Pela mudança na frequência de sua voz habitual.

— Não duvidei do que você disse, apenas estava analisando o seu nome.

— Como assim? O que tem de errado com o meu nome?...

— Por que lhe deram o nome de RC 1.500?

— É simples: o R é a inicial de Ribby, o C, de Cetronic, e 1.500 é o meu número de série. Traduzindo: Robô Cetroniano número 1.500.

— É... Realmente é muito simples, mas interpretei de modo diferente. Para mim o significado do RC de seu nome é Robô Cobaia.

— Não brinque comigo, Erik! — disse RC, parando de andar e virando-se para mim.

— Não estou brincando! Os cetronianos o enganaram, eles não voltam mais à Terra!... Isso é o que eu penso.

— Por que pensa isso deles, se você não os conhece? Os cetronianos são leais e sempre cumprem o que prometem.

— Quantos anos faz que eles partiram, RC?

— Exatamente há 54 anos-terra, 3 meses, 24 dias, 6 horas, 2...

— Pode parar de se exibir. Perguntei só quantos anos. O restante do tempo deixe armazenado só para você.

Ele parou de falar e se pôs a andar em círculos, certamente processando essa minha revelação. Depois, parando de andar, disse:

— É, você tem razão, Erik, agora é que caiu a minha ficha. Eles não voltarão.

— Não voltarão. Eles te abandonaram, RC!

— O oxigênio que levaram não era para ser lançado ao ar do planeta Cetro, era para reavivar o sol amarelo, lançando-lhe bombas de oxigênio para que ele voltasse a iluminar o planeta com a vida que emana de seus raios. Se isso não surtisse efeito, eles voltariam imediatamente para levar mais oxigênio em tubos menores e distribuir a toda a população cetroniana. Só nesse caso é que voltariam, ou viriam definitivamente para o planeta Terra.

— Hum!... Então, você concorda comigo que eles te abandonaram às traças? Ou melhor, à ferrugem?

Ele me olhou, com um semblante triste e disse, em voz baixa:

— É, Erik, tenho que concordar com você, durante 54 anos-terra, 3 meses...

— RC!...

— Está bem!... Durante 54 anos-terra eu fiquei à espera de quem não mais voltará. Mas fico feliz por constatar que a nossa teoria estava correta e que o esforço de todos foi recompensado. Conseguimos salvar o planeta Cetro!

Ele calou-se e abaixou a cabeça, parecendo estar refletindo sobre a importante conclusão a que chegara.

Eu respeitei o seu silêncio.

 

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