5.o capítulo do livro

Nossos olhares se cruzaram por alguns instantes, tempo suficiente para que eu percebesse em seus olhos calmos que, além de longa, a história era muito séria.

O robô cetroniano parou em frente a uma daquelas enormes telas e encostou um de seus dedos nela. A tela se iluminou. Ele pôs o mesmo dedo sobre um ícone e o arrastou para o centro. Apareceu na tela a imagem de um planeta dourado e de outros dois astros menores: um vermelho e outro preto, posicionados um de cada lado do maior. Colocando o dedo no planeta dourado, ele disse:
 

 

Nota: as ilustrações deste livro, incluindo a capa,

são de Edgar Franco.

 

 

— Esse é o planeta Cetro, de onde eu vim. Ele está ameaçado de extinção, assim como a Terra também está sendo ameaçada, com a diferença de que não foram os cetronianos que provocaram essa situação.

— E o que aconteceu para Cetro ficar condenado à destruição, já que não foi por causa da poluição causada em nome da ciência e do progresso, como acontece aqui na Terra?

Apontando para o astro preto, ele respondeu:

— Esse sol de Cetro era amarelo. A combinação de seus raios amarelos com os raios vermelhos desse outro sol é que liberava o ar que os cetronianos respiram, pois em Cetro não há árvores como aqui na Terra.

— Cetro é um planeta sem árvores?...

— Totalmente sem árvores, Erik. Há algumas gramíneas e uma grande variedade de flores. Além disso, a quantidade de água que tem em Cetro é quatro vezes menor do que a que encontramos na Terra.

Encostei o meu dedo na tela, sobre o sol preto, e perguntei, olhando para o robô:

— Por que esse sol ficou assim, de luto?

— Há 250 anos-cetro, o que correspondem a uns 500 anos-terra, um cometa, muito parecido com o Halley, passou próximo a Cetro, e uma chuva de meteoros atingiu o sol amarelo, apagando-o por completo, deixando-o assim, preto, morto... de luto, como você disse.

Ele me olhou, e continuou:

— Um ano-cetro após a passagem do cometa, nossos doutores em ciências, em uma audiência com o nosso Rei Cetro VI, relataram: “Saudações, Majestade! Não somos portadores de boas-novas... Analisando os efeitos dos raios do sol vermelho sobre Cetro, chegamos a uma conclusão catas-trófica: em menos de mil anos-cetro, não haverá mais condições de vida em nosso planeta.”

Após esta revelação, fiquei pensando... pensando... e perguntei:

— Se os cetronianos são tão tecnologicamente avançados, a ponto de construírem naves interestelares e de criarem robôs como você, perfeitos, quase humanos, por que não tentaram reavivar o sol amarelo sem precisar
sair do planeta Cetro?

— Fizemos de tudo, Erik; porém, todas as nossas tentativas foram infrutíferas. Não conseguimos reavivar o sol amarelo.

— O que vocês fizeram, então?...

— O Rei convocou cinco de seus melhores comandantes e os enviou para o espaço sideral com suas naves-mães, cada uma com cem naves-anãs, e uma tripulação de 6.000 cetronianos, selecionados entre machos e fêmeas...

 

 

Nota: as ilustrações deste livro, incluindo a capa,

são de Edgar Franco.

 

 

— Machos e fêmeas?...

— Homens e mulheres, como vocês dizem aqui na Terra.

— Ah!...

— E para ajudar aos cetronianos, o Rei enviou também, em cada nave-mãe, dois robôs de última geração. Na que veio com destino a este quadrante do universo, conhecido por Via Láctea, vieram o RC 1.499 e este robô que vos fala...

— Com que finalidade o Rei os enviou?...

— Com a finalidade de procurar um planeta onde pudéssemos encontrar vida e onde os cetronianos pudessem viver pacificamente, ou encontrar alguma forma de salvar o nosso planeta da destruição total.

— E daí?...

— E daí que, para simplificar a história, depois de passarmos por alguns planetas e analisar cada um deles, sem resultados satisfatórios, estávamos nos preparando para aterrissar num planeta vermelho deste sistema solar...

— Marte?...

— É. Hoje eu sei que esse é o nome que vocês deram àquele planeta. Então, antes de completarmos a aterrissagem, captamos, nas telas de rastreamento e localização de objetos, ondas eletromagnéticas de uma rocha existente em Cetro. Abortamos a aterrissagem. Seguindo rumo ao ponto de origem dessas ondas, descobrimos o planeta Terra...

— Que ondas eram essas?...

— Essa é uma história milenar, Erik. Vou continuar falando sobre a nossa chegada à Terra, depois te explico o que eram essas ondas. Pode ser?...

— Tudo bem, RC 1.500. Então, continue...

— Quando descemos na Terra e nos deparamos com essa vegetação exuberante, essa grande quantidade de água e esse ar puro, entendemos que aqui estava a salvação de Cetro, ou, caso isso não fosse possível, onde os cetronianos teriam condições de dar continuidade à sua raça.

— Essa última possibilidade não daria certo, RC 1.500.

— Por que não, Erik?

— Porque os humanos são seres muito complicados. Não combinam nem com os seus próprios semelhantes.

— Eu sei. E isso é muito triste... Mas é uma minoria, Erik.

— Graças a Deus que é uma minoria, mas essa minoria é formada por pessoas cruéis, muito violentas, que roubam e matam sem piedade.

— São pessoas sem escrúpulos...

— Tem amigos que brigam por futilidades; filhos que jogam os pais em um asilo e nunca mais voltam lá; mãe que vive brigando com a filha; filho que grita com a mãe, tem coragem de espancá-la até quebrar-lhe os ossos fragilizados pelos anos; filha que mata os seus pais enquanto dormem...

— É muita crueldade.

— Tem irmão que briga com a irmã, ameaçando-a de morte; pai que mata a própria filha; irmãos que brigam entre si, por causa de pequena herança...

— Em um dos maiores livros da Terra, a Bíblia, eu li que os terráqueos também têm um Rei: o Deus que você invocou há pouco...

— Deus é o nosso Rei, um Rei que nos ama muito e só quer a nossa felicidade. Porém, existem aqueles que não têm Deus no coração, perderam a noção dos valores da vida.

— Se todos os homens seguissem, com fervor, os ensinamento desse Rei, especialmente “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, certamente nada disso aconteceria, Erik.

— É verdade...

— Nesse ponto os cetronianos são completamente diferentes dos terráqueos, porque em Cetro não há brigas, não há assassinatos, não há prisões nem policiais, não há vandalismos nem falcatruas...

— Cetro é um paraíso, então...

— Não sei lhe dizer se é um paraíso, Erik, mas em Cetro os cetronianos são calmos e solidários uns com os outros, vivem em completa harmonia.

— Como são os cetronianos?...

— Na forma corpórea, eles são muito parecidos com vocês.

— Então, por que sua pele não se parece nada com a minha, RC? — chamei-o assim porque eu já estava me acostumando com a ideia de conversar com aquele robô, e gostando da conversa.

— Minha pele foi produzida em laboratório, Erik, por isso é mais grossa que a sua.

— Até havia me esquecido de que você é um robô...

— A pele dos cetronianos é lisa e muito fina, não tem nem os pelos que os humanos desenvolveram. Por essa razão eles são muito brancos, pois não podem ficar muito tempo expostos aos raios do sol vermelho.

— RC?

— Sim, Erik.

— Você disse há pouco que o nosso ar é puro, mas em algumas regiões da Terra, principalmente nas grandes cidades, o ar já está muito poluído, quase irrespirável.

— Hoje isso realmente acontece, mas quando aqui chegamos o quadro era bem diferente. E os cientistas que vieram nessa missão, à qual cognominamos de “Salvar Cetro é nossa obrigação”, descobriram que o ar da Terra é
similar ao ar de Cetro.

— O ar que respiramos atualmente tem mais gás carbônico do que oxigênio.

— Realmente, Erik, a Terra também precisa ser salva da destruição. Mas para que isso aconteça é necessário que os governantes de todos os países tomem decisões rápidas, assim como tomou nosso Rei Cetro VI.

— Confesso que eu não tenho esperança de ver esse dia chegar, RC... Alguns de nossos governantes só pensam em lucro e poder.

— Isso é verdade, Erik, mas você não deve responsabilizar somente os governantes. Eles têm, sim, uma grande parcela de culpa, mas todos os humanos devem se conscientizar de que é preciso evitar uma catástrofe, e de que a terra que eles estão destruindo é a mesma que lhes dá a vida.

— A grande maioria dos humanos não dá à mínima para o meio-ambiente.

— É, eu já percebi isso, Erik. E também que as atitudes da raça humana são imprevisíveis...

 

Próximo Capítulo
 


Para adquirir livros de Edson Angelo Muniz, clique aqui.