2.o capítulo do livro

Deixei que o tempo passasse e que o vento, agora calmo, levasse para bem longe as lembranças tristes. Tentei me situar; porém, dava-me conta de que estava perdido. Vaguei sem destino e não fazia ideia de quantas horas, talvez dias, eu havia caminhado, nem de que rumo tomara, nem de onde eu estava.

Olhei à minha volta: não havia nenhuma casa por perto, somente um mato ralo, capim seco, poeira, pedras e uma grande montanha ao longe. Resolvi seguir rumo à montanha, na esperança de encontrar ali um olho-d’água ou um córrego para aplacar a minha sede.

Já com o sol no ocaso, cheguei ao sopé da montanha. Nem um filete de água encontrei. Fui subindo por uma trilha que serpenteava a encosta. Depois de subir uns quinhentos metros, parei. Meus olhos brilharam de felicidade quando ouvi o barulho de uma cachoeirinha. Corri para o lado de onde vinha o barulho de água corrente e fiquei maravilhado com o que vi: uma linda cascata, de uns três metros de altura, formando um lago de águas cristalinas.

Sem pensar em qualquer tipo de perigo, pulei no lago, matando a minha sede, refrescando-me daquele calor infernal e me livrando da sujeira acumulada em minhas roupas já rasgadas e em meu corpo cansado. Fiquei ali, brincando, sozinho, recordando a alegria contagiante de meu filho quando brincávamos em uma cachoeirinha, não muito distante de nossa casa.

Quando saí do lago, já era noite. Tirei a calça e a camisa, dependurando-as em um galho para secarem, e procurei um abrigo onde eu pudesse descansar e dormir. Em uma pequena gruta, ao lado da cascata, coloquei folhas e capim e me deitei sobre eles. Logo, logo, adormeci, e tive um sono agitado, com muitos pesadelos.

No outro dia, bem cedo, levantei-me, vesti-me e fui procurar algo para comer. Fiquei observando o lago, supondo que havia algum peixe, mas não vi nenhum. Notei, porém, que a água, em vez de descer a encosta, corria para dentro da montanha, por uma pequena caverna.

Avistei, na outra margem do lago, algumas bananeiras. Fui até lá e, para minha sorte, havia muitos cachos maduros. Comi algumas bananas.Eu estava faminto e aquelas frutas, para mim, foram um manjar dos deuses.

Pensei em seguir caminhando, sem rumo certo; porém uma força quase magnética me impelia a seguir o curso da água. Entrei no lago e fui nadando até onde a água sumia montanha adentro. Era um canal estreito, mas o meu espírito aventureiro foi mais forte que a razão e o medo: entrei naquele canal e deixei que as águas me levassem. Mais à frente, o canal foi ficando mais largo e a velocidade das águas aumentando, até que caí numa corredeira, que me jogou em uma praia deserta, de areias branquinhas e finas.

Fiquei boquiaberto: aquela caverna enorme, iluminada por uma grande luz amarela, parecendo um pequeno sol, era um verdadeiro oásis no coração da montanha. Às margens do riacho que ali se formara, havia, de um lado, a praia onde eu estava pisando, e do outro, uma densa floresta.

Uma sensação de que eu estava sendo vigiado, me fez voltar a cabeça e olhar, desconfiado, para todos os lados, mas não vi nenhum vivente. Caminhei pela praia e encontrei um pomar com muitas árvores frutíferas. Algumas frutas eram minhas velhas conhecidas: goiaba, laranja, manga, abacate, banana, maçã; outras, eu nunca havia visto.

Fiz um reconhecimento do local e percebi que aquele lugar, um dia, já fora habitado. Além do pomar, encontrei um jardim todo florido, com vielas calçadas de pedra, e bancos, também de pedra. Próximas ao jardim, havia seis pequenas casas, dispostas em forma de círculo, feitas com blocos de pedra e cobertas com folhas de coqueiro. Numa das casas encontrei panelas de ferro; facas, garfos e colheres de prata; pratos de louça e um fogão de oito bocas, todo em aço inox.

Na segunda casa em que eu entrei, tive mais uma surpresa: além de uma grande cama, sem colchão, bem no centro do único compartimento havia uma espécie de escotilha de mais ou menos um metro de diâmetro.

Muitas foram as indagações que me vieram à mente. O que aquela porta protegeria? Seria ela uma passagem secreta? Será que eu encontrara uma caverna onde piratas esconderam o produto de seus saques, ou algum rei guardara o seu tesouro em ouro, prata e pedras preciosas?

 

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