Artesanatos e outros serviços manuais feitos por

Edson Angelo Muniz

 

 

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        Desde pequeno que eu tinha facilidade para o desenho e a escrita de letras trabalhadas; porém, não desenvolvi aptidão para as artes plásticas nem mesmo para o artesanato. Meu pai, o Neinho, aprendeu com o seu pai o ofício de carpinteiro, e eu cresci aprendendo com ele algumas particularidades da madeira e de como trabalhá-la, bem como o uso do serrote, do martelo, da pua, do formão, da verruma, da plaina, da grosa, do sargento e de outras ferramentas utilizadas por um carpinteiro. Quando me casei, foi o meu pai quem fez o alicerce, de pedra, e o madeiramento da minha casa, e eu fui o seu ajudante para carregar as pedras e a massa de cimento, cortar e travar as vigotas, pregar os caibros e as ripas, colocar as telhas e chumbar os celotes.

         Enquanto trabalhava para o sustento de minha família, escrevia os meus livros e colaborava na edição de livros de outros autores, não me sobrava tempo para pensar em outras artes que não fossem as gráficas. Em 2011 me aposentei por tempo de serviço e, com a família já criada, em 2014 parei de trabalhar e me mudei para a cidade de São Pedro, onde moro num paraíso chamado "Quinta Muniz-Martins", ao lado de minha amada, a Nicinha, e da Juliane, do Reiner e da Princesinha Bárbara, de apenas dois meses.

         Num de meus passeios a São Pedro, para visitar a Nicinha, minha prima e namorada, ela me mostrou, guardadas em uma casinha de despejo, duas carrancas: uma grande, que ela ganhou do seu irmão Valdir, e outra, pequena, que ela ganhou de sua sobrinha, Sandra. Estas estatuetas acompanham a Nicinha há muitos anos; e estavam quebradas, faltando dentes e orelhas, e com a pintura toda descascada.

         A Nicinha me pediu para restaurar estas carrancas, e eu não pensei duas vezes: peguei um pouco de massa epox e comecei a restaurar a orelha da carranca maior naquele dia mesmo. No outro dia, fomos a São Pedro e eu peguei, em uma serraria, um pouco de serragem grossa e um pouco de serragem fina. Comprei, numa papelaria, um tubo pequeno de cola para madeira. Na volta, passando por um terreno baldio, onde eu havia visto um colchão velho abandonado, pedi para a Nicinha parar o carro e peguei um pedaço da espuma desse colchão. Com esse material eu fiz o enchimento das partes ocas da carranca grande, e com massa epox, moldei os dois dentes que lhe faltavam e a sua orelha, além de tampar os buracos da base. Na carranca pequena eu não fiz nenhum reparo neste dia. Comprei algumas latinhas de tinta e pintei os dentes, a boca e os cabelos da carrancona (veja a foto abaixo), e elas voltaram para a casinha de despejo.

 

 

         Numa outra visita a São Pedro, vi, no jardim da chácara, uma estátua de cimento, de um dos sete anões, com o nariz e um dos pés quebrados e toda desbotada. Recuperei o nariz do anão com massa epox e o seu pé com massa de cimento; e pintei algumas de suas partes. Veja como a estátua ficou, adornando a porteira de entrada, ao pé de um dos mourões que sustentam a placa com o nome da chácara.

 

 

           Em outubro de 2013, numa conversa com a Nicinha, eu lhe disse que iria mandar fazer uma placa, entalhada em madeira, com o nome da chácara onde moramos, e dar de presente para a Ju e o Reiner. Em nossos passeios por São Pedro e arredores, fizemos um orçamento que, na época, eu achei muito caro. Quando nos mudamos definitivamente para São Pedro, voltamos a pesquisar o valor da placa com outro profissional, e encontramos um preço até acessível, mas estávamos descapitalizados. Então, a Nicinha me disse: "Amor! Por que você mesmo não faz a placa de madeira para a entrada da chácara?" Eu disse a ela que eu não daria conta, porque eu nem imaginava como era feito este trabalho de artesanato, nem quais ferramentas usar, mas ela me incentivou e disse: "Faz o seguinte: entalhe uma placa menor, com o nome da Bárbara, para colocarmos na porta do quartinho dela, depois, se der certo, você entalha a placa maior..."

         E assim fizemos: fomos à marcenaria onde ganhei as serragens, e onde havíamos visto alguns móveis bonitos e uma placa entalhada. Nesta marcenaria, vendo a placa de perto, eu prestei atenção nos entalhes da madeira e perguntei para o marceneiro como eram feitos aqueles sulcos. Ele me disse que não era ele quem entalhava as placas, mas tinha quase certeza de que era usado um tipo de formão. Naquele dia eu comprei dele um pedaço de cerejeira, uma madeira bem macia, medindo 60x15x3cm, para entalhar o nome da filha da Ju e do Reiner, que nasceria no final do mês de janeiro.

         Como eu já conhecia o formão normal, reto, eu sabia que aqueles sulcos não eram feitos por esse tipo de formão. Fomos, então, a várias casas especializadas em ferramentas e acabei encontrando um formão curvado, chamado de formão goivo. Comprei três formões: dois retos, um pequeno e um médio, e um goivo. E comecei então a formatar a placa "BÁRBARA".

         Primeiramente, desenhei, em folhas de papel sulfite 75g emendadas com fita crepe, utilizando uma régua de alumínio e um lápis de carpinteiro, as sete letras, no tamanho da madeira de cerejeira.

         Lembrei-me de que meu pai usava um macete para bater no formão. Então, usando um serrote, um facão e um martelo, fiz um macete pequeno, com um pedaço de um caibro.

 

 

         Utilizando uma folha carbono, transferi para a madeira o desenho das letras, e em seguida, fui entalhando-as, alternando os formões.

         Até eu me surpreendi com o resultado, porque a placa ficou muito boa, modéstia à parte.

 

 

          A Nicinha e eu combinamos de fazer uma surpresa para a Ju e o Reiner, e dar essa placa de presente, antes do nascimento da Bárbara. Por isso, improvisei minha oficina debaixo das árvores do quintal, e ficava lá, entalhando, de manhã e à tarde, na maior tranquilidade, sem camisa, de bermuda e chinelo, ao sabor do vento, tendo sempre os animais por companhia.

 

 

          Na primeira manhã em que eu entalhava, o Reiner perguntou para a Ju: "O que será que aquele Pica-Pau tá fazendo lá debaixo das árvores?" E ela disse: "Minha mãe me disse que ele está terminando a restauração da carranca."

          E para que essa mentirinha tivesse mais credibilidade, coloquei sobre a mesa a carranca grande, já restaurada.

          No outro dia, à tarde, enquanto eu, cabisbaixo, entalhava a placa, o Reiner chegou, de surpresa, e viu o que eu estava fazendo. Ele ficou feliz e me disse que o meu trabalho estava ficando muito bom. Pedi a ele que não contasse para a Ju, para, pelos menos ela, ter a surpresa.

          Para o acabamento da placa eu havia comprado uma lata de tinta preta, para pintar o fundo, onde fiz o entalhe com o formão goivo, e uma lata de verniz, para envernizar as letras e a borda. Conversando com a Nicinha e o Reiner, ela me disse: "Pintar de preto vai ficar muito feio, amor!"; e ele me disse: "É melhor você comprar um maçarico pequeno, de cozinha, e queimar a madeira."

          No outro dia a Nicinha e eu rodamos as lojas de São Pedro à procura de um minimaçarico. O encontramos em uma loja de artigos para caça e pesca.

          Não foi fácil. Queimei os dedos, queimei a placa onde não era pra queimar, mas consegui finalizar o processo satisfatoriamente. Depois, passei uma demão de verniz marítimo, e a placa ficou assim:

 

         

          Terminei a placa no dia 24 de janeiro de 2014. Neste dia, a Nicinha e eu fomos a São Pedro, fazer compras para casa, e levamos a placa, sem que a Ju percebesse nada. Fomos à mesma papelaria onde comprei a cola para madeira, e comprei um saco para presente, colocando nele a placa, já finalizada e assinada. Quando chegamos à chácara, entregamos o embrulho de presente para a Ju, e a Nicinha disse: "Compramos um presentinho para a Bárbara." A Ju pegou o pacote e disse: "Pesado. Parece uma tábua." Ao abrir, ela ficou admirada e agradeceu. Quando a Nicinha disse a ela que a placa havia sido feito por mim, a Ju exclamou: "Ah, mas que mentira!..." Mas depois que o Reiner disse que viu, e que os barulhos de pica-pau era eu entalhando a placa, ela acabou acreditando. E disse: "Olha, se vocês tivessem me dito que haviam comprado a placa, eu acreditaria, porque ficou um trabalho de profissional. Parabéns, Edson. E muito obrigada!"

          Fixei a placa sobre a porta do quarto da Bárbara, e ficamos esperando por ela, que chegou ao mundo, toda radiante, com muita saúde, no dia 27 de janeiro.

 

 

          No outro dia, em meu ateliê sobre as árvores e com a proteção dos animais, terminei de restaurar a carranca grande, restaurei a carranquinha e pintei as duas.

 

 

           Hoje, essas carrancas estão na porta de entrada da sala de estar da casa onde moramos.

 

 

           A ideia inicial de entalhar uma placa para a entrada da chácara ainda estava fervilhando em minha cabeça, mas eu precisava ganhar mais experiência para que ela ficasse apresentável. Então, a pedido da minha amada, Nicinha, entalhei uma outra placa: "RECANTO PAI JOAQUIM".

           Do mesmo modo da placa anterior, desenhei as letras em um papel cartaz e as transferi para uma prancha de eucalipto, que fora tirada de uma prateleira na antiga casa e jogada no terreiro da chácara.

 

 

           Esta placa foi entalhada em várias etapas, alternando com outros serviços que eu preciso executar  na  chácara, incluindo a casinha para cachorro. No segundo dia, ela já estava assim:

 

 

           No terceiro dia de entalhe, com a colaboração da Nicinha, a placa ficou pronta para ser queimada com o minimaçarico; e, no dia seguinte, começamos a pintar as letras de branco, deixando-a como na foto abaixo.

 

 


           O espaço reservado à direita da placa, onde, na foto acima, aparecem o minimaçarico, dois pincéis e uma lata de tinta branca, é onde seria aplicada a imagem do Pai Joaquim (foto abaixo), que o Reiner trouxe da cidade de Pedreiras.

 

 

           O passo seguinte foi pintar todas as letras da placa e preparar o espaço onde seria aplicada esta imagem.

           Estas etapas foram realizadas no rabo do fogão a lenha, na varanda da casa, porque estava chovendo na minha oficina debaixo das árvores.

 

 

           Antes de fixar a imagem na tábua, utilizando gesso, fiz algumas mudanças na imagem, com relação às cores da camisa, da calça, do cabelo, das sobrancelhas e da barba do Pai Joaquim, que eram todos pretos e passaram a ser brancos. O lenço, que era preto e dourado, passou a ser laranja, assim como as dobras da camisa e da calça, que eram douradas e passaram a ser laranja. O cachimbo estava com um defeito no cabo, e eu o corrigi usando massa epox. O cachimbo, que era todo dourado, foi pintado de marrom, e a brasa de vermelho e preto.

 

 

           Depois de pronta, a placa foi envernizada e dependurada, presa a duas correntes, na varanda que dá vista para a Serra do Itaqueri. Finalizei esta placa no dia 24 de fevereiro de 2014.

           O detalhe, à direita da foto abaixo, é uma miniatura de um lampião a gás, que a Nicinha colocou na placa para dar um toque de beleza e originalidade.

 

 

 

           Alguns dias antes do término da placa acima, a Nicinha e eu saímos à procura de uma serraria, para adquirir uma prancha de casqueiro para, finalmente, entalhar a placa que seria colocada na entrada da chácara, ao lado da porteira. Na marcenaria onde comprei a madeira para a placa da Bárbara, o marceneiro me disse que custaria mais ou menos uns R$ 120,00 o metro. Agradecemos e fomos a uma serraria, no centro da cidade. Conversando com o senhor Aquiles, ele nos disse que só trabalhavam com madeiras já serradas,  mas que encontraríamos a costaneira (é assim que os paulistas chamam a prancha de casqueiro) na serraria do Carlinho, que fica fora da cidade de São Pedro, sentido Charqueada.

           Fomos até a serraria, onde tivemos o prazer de conhecer o Jurandir, que não só nos atendeu muito bem, nos ajudando a escolher a costaneira, de grevilha, uma madeira macia, a um preço bem mais acessível: R$ 20,00 a peça, como ainda deixou que a levássemos para pagar depois. No outro dia, voltamos à serraria e lhe pagamos o combinado; e compramos alguns sarrafos, que seriam usados para a confecção de uma casinha para cachorro.

           Abaixo, a foto da costaneira, nua e crua.

 

 

           O nome que foi escolhido para ser entalhado na placa era "CHÁCARA MUNIZ-MARTINS", uma união dos nomes das famílias da Ju e do Reiner, respectivamente. Porém, no mesmo dia em que terminamos de entalhar a placa "RECANTO PAI JOAQUIM", eu já queria desenhar as letras da placa da chácara, mas a Lu, irmã da Ju, disse para que fosse colocada a palavra "QUINTA" em vez de "CHÁCARA". Então, a Ju ligou para o Reiner, que estava viajando a trabalho, e por telefone, decidiram: seria "QUINTA MUNIZ-MARTINS".

           No dia seguinte, já com as letras da placa desenhada, transferi o desenho para a madeira e comecei a entalhar a placa. Desta vez improvisei um cavalete com duas cadeiras e fiquei na varanda da casa, pois naquele dia estava com jeito de chuva.

 

 

           Trabalhei o dia inteiro entalhando a placa, com a Nicinha ao meu lado, me ajudando, então, já no outro dia, 26 de fevereiro, agora trabalhando à sombra de uma frondosa sete-copas, a parte de entalhe da placa foi finalizada, ficando assim:

 

 

         Depois, no dia seguinte, fui queimando e pintando cada palavra, até queimar e pintar todas as letras.

 

 

 

 

         Na sexta-feira, 28 de fevereiro, já no início da noite, terminei de envernizar a frente da placa. Furei dois buracos para passar as correntes e a Nicinha e eu dependuramos a placa no alambrado, ao lado da porteira. E os animais sempre por perto...

 

 

.         No sábado, 1 de março, durante o dia todo, arrastei, com a ajuda de uma camioneta e um rolo de arame liso, três postes de eucaliptos que estavam longe da porteira, medindo cada um 3m de comprimento e uns 25cm de diâmetro. Em seguida, fiz cavas nas cabeças de dois dos postes. Furei dois buracos no chão e, com a ajuda do Fernando, filho da Nicinha, coloquei neles dois dos postes. Depois de socar bem os pés dos postes, colocando terra e pedra, com a ajuda do Reiner, coloquei o terceiro poste sobre eles, firmando-o com pedaços de correntes e pregos. Finalmente, dependuramos  a placa e ela ficou assim:

 

 

.         À primeira vista, a placa ficou um pouca baixa, mas o espaço entre a trave e a placa foi proposital, tendo em vista que enquanto eu entalhava esta placa, já pensava em entalhar, numa outra prancha que estava jogada no quintal, os brasões de armas da Família Muniz e da Família Martins.

.         Na terça-feira de carnaval terminei de envernizar a placa e envernizei também os três postes que a sustentam. Na quarta-feira de cinzas comecei a desenhar, desta vez no computador, os dois brasões para riscá-los na madeira.

 

 

         Não demorou muito tempo, eu já estava entalhando os dois brasões.

         Entalhei primeiro o brasão Martins, que contém três flores de lis.

 

 

         Quando eu entalhava o brasão Muniz, que contém cinco estrelas de sete pontas, surgiu um problema: como a prancha ficou muito tempo jogada no chão, recebendo água de chuva e raio de sol constantemente, ele rachou em vários lugares, então, as pontas das estrelas, que são bem finas, estavam quebrando quando eram entalhadas.

 

 

         Deixei então de entalhar as estrelas e fiz um grande sulco no escudo do brasão Muniz.

 

 

         Fiz uma estrela, cortando, com um arco de serra grande, uma tábua de forro que eu encontrara também no quintal da chácara. Mas como essa madeira é muito dura e cheia de nós, e eu a segurava com os dedos dos pés sobre uma cadeira para serrar, as pontas das estrelas também não aguentaram. Então, para cortar as estrelas, comprei umas tábuas de caixeta, madeira muito macia, e um miniarco de serra, e fiz um torno de madeira (foto abaixo), com dois pedaços de caibro, uma dobradiça e um parafuso com porca, que fixei no chão, na minha oficina embaixo das árvores. Esta tábua branca, presa ao torno, é a caixeta.

 

                 

         Mesmo assim, algumas pontas da primeira estrela se quebraram, mas fui pegando o jeito com a madeira, o miniarco e o torno, e consegui formatar as cinco estrelas do brasão.

         Pintei os dois brasões nas suas cores próprias, e colei, no brasão Muniz, as cinco estrelas de caixeta. Só depois é que pintei estas estrelas e envernizei a frente da placa.

 

 

 

         No dia 20 de março eu furei a placa e a prendi nas mesmas correntes da placa "QUINTA MUNIZ MARTINS", terminando todo o conjunto, que ficou assim:

 

 

         Durante todos estes dias de trabalho intenso a Nicinha esteve sempre presente, ora ajudando a entalhar ou a pintar as placas, ora ajudando a carregar as ferramentas ou as placas, ora fotografando, e sempre me trazendo água, café ou uma xícara com pinga acompanhada de um tira-gosto. Sem dizer que ela é a mentora de todas estas realizações artesanais. Obrigado, Nicinha, por tudo isso, e por você existir na minha vida. 

 

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