Crônica
de
Edson Angelo Muniz

 

Uma amizade que
nasceu da literatura

 

        

Conheci Luiz Vilela por meio de minha profissão, a de gráfico, gerente da Editora Gráfica Ituiutaba Ltda. — Egil. Em 1999, quando foi publicado o livro do 8.º Concurso de Contos Luiz Vilela, concurso promovido pela Fundação Cultural de Ituiutaba. Fui agraciado com dois privilégios: o primeiro, o de ter sido o editor do livro; e o segundo, o de ter conhecido o escritor que empresta o seu nome ao concurso e que fez a supervisão do livro.

De lá para cá, em decorrência de outros encontros de trabalho, nasceu entre nós uma sólida amizade. O tempo foi passando, e acabei por me tornar um elo entre Vilela e seu vasto mundo literário. E ele, além de bom amigo e bom papo, tornou-se meu consultor literário, meu professor e meu revisor. Alguns dos textos publicados no livro Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro, de minha autoria, lançado em 2002, passaram por seu olhar crítico, e eu lhe serei eternamente grato pelas sugestões que então me deu.

Por outro lado, posso dizer que sou professor também dele, quando a matéria é o computador e a internet; e ele tem sido um bom aluno, aprendendo alguns termos e funções do mundo da informática. Agora, de uma coisa eu tenho certeza: mesmo que eu consiga transformá-lo num expert em computador, ele jamais abrirá mão de sua máquina de escrever. Lembro-me de um dia, quando ele chegou à minha sala e eu, apavorado com a ameaça de um novo vírus no meu computador, contei isso a ele. Ele deu um risinho de satisfação e disse: "Esse problema a minha máquina nunca vai ter..." E ainda brincou: "O máximo que ela pode pegar é o vírus de alguma gripe..."

Mas, ao contrário do que muitos pensam, Luiz Vilela não é um excêntrico, ou um recluso ou qualquer coisa semelhante. É uma pessoa muito simples, humilde, companheiro, apenas um pouco reservado. Por opção, ele mora em uma casa também muito simples, onde divide o seu tempo entre escrever e cuidar de Dona Aurora, sua mãe, de 105 anos de idade, o que faz com muito amor, carinho e compreensão.

Nossos encontros de fim de tarde são chamados por Vilela de "sessões dígito-lítero-anedóticas". Isto porque, enquanto digitamos e revisamos arquivos, escaneamos fotos e textos, enviamos e recebemos e-mails, também conversamos informalmente e contamos piadas. Às vezes, as coisas mais simples são as que nos arrancam as melhores gargalhadas. Nunca me esquecerei do dia em que escaneei um texto para Vilela, usando um programa de decodificação de textos. A interpretação foi realizada, mas, em um trecho onde era citado Machado de Assis, o nome Machado foi interpretado pelo scanner como Macbuto. Quando o Vilela leu aquele nome estranho, Macbuto de Assis, e mostrou-me, caímos na risada.

E assim, de piada em piada, de caractere em caractere, eu digitei, paginei e imprimi — e Vilela leu e releu, acrescentou palavras e retirou palavras — a sua novela Bóris e Dóris. Diga-se, de passagem, que eu, um editor interiorano — modéstia à parte, Vilela já me disse que sou melhor que muitos editores da capital — fui o primeiro a ler, na íntegra, essa maravilha de história, criada pela mente privilegiada desse mestre da ficção. É uma história com apenas dois personagens, os dois conversando num hotel, mas de uma tal força que nos empurra para dentro de nós mesmos, fazendo com que busquemos respostas a muitas perguntas sobre a vida.

Não li ainda toda a obra do Vilela, mas do que eu já li, o conto "A volta do campeão" é o mais bonito de todos, uma obra-prima.

A Record, hoje a maior e melhor editora do país, publicou, em 2007, Bóris e Dóris, que já foi indicado a vários prêmios e como matéria de vestibular de várias faculdades. Em breve, a editora iniciará a reedição da obra completa do escritor, bem como a publicação de seus livros novos, entre os quais o romance Perdição, que já foi completamente digitado por mim e o Vilela está realizando a revisão para enviar à sua editora.

É o nosso conterrâneo Luiz Vilela levando o nome de Ituiutaba a outras plagas e elevando-o às alturas.

Em 2006, nós completamos 50 anos: Vilela, de literatura; eu, de idade. Tendo em vista que o computador já se transformou em um glóbulo a mais na minha corrente sanguínea, e a literatura de há muito se infiltrou no sangue de Luiz Vilela, esta dupla de amigos, unidos pela literatura, vai ainda, se Deus quiser, andar muito chão, queimar muito fosfato, e contar muitas piadas...


 

Luiz Vilela e Edson Muniz

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