Crônica de
 

 

Edson Angelo Muniz

 

 

"Dona Marzira"

Amazília Jorge Miranda
 

Falar da Dona Marzira é muito fácil, mas ao mesmo tempo é uma tarefa difícil, porque meu vocabulário não contém todos os adjetivos necessários para enaltecer as suas qualidades de mulher guerreira e determinada, e para descrever o exemplo de vida que ela foi para nós.

Amazília Jorge Miranda nasceu em 1938, na cidade de Nova Ponte, MG, e mudou-se, ainda menina, para o município de Capinópolis, onde, em 1953, com apenas 15 anos, se casou com José Abadio Domingos, também natural de Nova Ponte. Na Fazenda Sertãozinho, onde eles moravam, em um ranchinho de pau-a-pique coberto com folhas de capim, nasceu o primogênito: Hélio Abadio Miranda. Três anos mais tarde, agora na fazenda Baixada, na região do Córrego do Mosquito, nasceu a caçula, Helice, num parto difícil, quando a Dona Marzira teve uma eclampsia, e ficou um mês de cama, à beira da morte. Muito devota de Nossa Senhora Aparecida, ela pediu a sua proteção e foi atendida. Em homenagem e agradecimento à virgem santa, batizaram a menina com o nome de Helice Aparecida Domingos. Para completar a família, eles criaram um filho adotivo: João Olívio Ferreira, mais conhecido por Diquinho, um sobrinho do Senhor José Abadio, que ficara órfão de mãe aos 7 anos de idade.

Mesmo frequentando uma escola da roça, onde o Senhor José Abadio aprendeu mais do que a Dona Marzira, porque ela não queria ir à escola, eles não tiveram muito estudo. Mas esses sertanejos humildes e honestos trabalharam de sol a sol, na dura luta roceira, tirando o seu sustento da mãe-terra. Dona Marzira, mesmo franzina, preparava a boia para os peões e ainda cortava arroz com o cutelo, engajobava, batia e ensacava. E era ela mesma que sangrava os porcos gordos e os descarnava, socava o arroz com a mão-de-pilão, torrava o café, entre outras tarefas pesadas.

Depois de mais alguns anos morando na fazenda Paineira, na região do Arantes, município de Campina Verde, eles se mudaram para Ituiutaba, a fim de que seus filhos aprendessem a ler e a escrever, para melhor enfrentar o mundo. Na cidade, o casal também frequentou, por alguns meses, o MOBRAL — Movimento Brasileiro de Alfabetização. Primeiramente, moraram numa casinha simples, feita de adobe, no Bairro Maria Vilela, depois, compraram outra casa, também simples, no Bairro Progresso, onde moraram juntos por muitos anos e comemoraram, neste ano, 57 anos de casados.

Na cidade, a luta não foi menos árdua do que a da roça. Seu Zé Abadio trabalhou em várias empresas: Baduy & Cia., CAMIG, Construtora Araguaia-Minas, SEULAR, Eldorado Indústria de Plásticos e outras, como ajudante geral, servente de pedreiro, pedreiro e, pouco antes de se aposentar, como armador de estruturas para concreto. Enquanto isso, Dona Marzira trabalhava como dona de casa: cuidava dos filhos, arrumava a casa, lavava e passava as roupas de sua família, usando ferro à brasa, e pegava roupas de outras famílias para lavar e passar, para ajudar no orçamento familiar, e ainda tratava das galinhas e ajuntava lavagem para dar aos porcos que criavam.

E o tempo correu, célere...

O Diquinho se casou e foi cuidar de sua vida. Ele sempre ia visitar sua mãezinha querida. Ela ficava feliz, mas com o semblante triste porque ele não mais estava ao seu lado...

Conheci esta família em 1974 e comecei a frequentar a sua casa e a namorar com a Helice. Em 1977, no mesmo dia do casamento do Hélio com a Irene, ficamos noivos, e em 1979, Dona Marzira passou a ser minha sogra. E muito ao contrário do que se diz por aí, que “misturar sogra com genro ou nora, pode ver que ali sai choro”, nunca tivemos nenhum tipo de discórdia durante esses 31 anos que moramos praticamente na mesma casa. Dona Marzira me tratava como mais um filho seu. Ela entrou em minha vida e se tornou muito importante para mim, para as minhas filhas e para o meu neto.

Depois do casamento, o Hélio foi morar em sua própria casa, longe da mãe, mas nunca deixou de visitá-la, e quando, em 1997, Deus o chamou para o convívio dos eleitos, eu não o substituí em seu coração, mas fiquei desfrutando ainda mais dos privilégios que o meu cunhado-amigo e minha esposa amada sempre tiveram: o amor e o desvelo desta mãe-sogra querida, a quem eu considerava como minha segunda mãe e tinha por ela uma enorme admiração.

Dona Marzira, conhecida e amada por todos, sempre foi temente a Deus, e de uma religiosidade ímpar. Essa alma generosa possuía sentimentos nobres que se traduziam em amor, bondade, misericórdia e piedade. Caridosa, mesmo com a saúde debilitada, não negava um prato de comida, uma palavra de carinho, ou uma oração para quem batesse à sua porta. Quem teve o privilégio de estar ao lado de Dona Marzira sempre vai se lembrar de todas as coisas boas que ela realizou. Seu coração, já fraco, devido à idade e também à doença de chagas que ela contraiu ainda na fazenda, era um coração grande e amável, onde sempre havia um cantinho para mais um descendente ou para mais um amigo.

Dona Marzira era sempre assim, como na foto acima, alegre, sorridente, brincalhona, de bem com a vida... E ela não esmorecia diante de nenhum desafio. Poucos meses antes de sua partida, frequentou uma escola onde estava aprendendo, finalmente, a ler, a escrever, e, o mais importante para ela, a assinar o seu nome completo.

Dona Marzira cumpriu a sua missão aqui na Terra e “subiu aos céus” no dia 18 de março, com 72 anos, deixando um vazio incomensurável em muitos corações. Quando alguém é especial para nós e morre, um turbilhão de emoções nos invade, pois este alguém leva consigo um pouco de nós também. Porém, fica a certeza de que Dona Marzira está ao lado de Deus, olhando pelos seus familiares e amigos, que seguimos a nossa jornada, impulsionados pelas mãos invisíveis da saudade, esperando o dia do nosso reencontro, na casa do Pai, para a vida eterna.
 

 

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