Conto
de
Edson Angelo Muniz

 

Paixão de adolescente

 

 

Zé Dias era um artista: de dia tocava boiada e roça, de noite tocava cavaquinho. O som que ele extraía do seu cavaquinho viajava nas dobras  do  vento  e  adentrava  o meu ouvido, suavemente... Ele era um homem magro, acostumado com a lida árdua de boiadeiro e de roceiro. Suas mãos, calejadas, eram muito ágeis e tocavam o cavaquinho com maestria. Nem pareciam as mesmas mãos que laçavam uma novilha e a amarravam ao tronco do curral. Enquanto seus dedos da mão esquerda feriam as quatro cordas, fazendo-as vibrar, os dedos da mão direita não paravam de dançar sobre o braço do cavaquinho, numa sintonia perfeita. Sua voz melodiosa era macia e triste, embora ele fosse um homem de pouca conversa.

Esse matuto era casado com Joaninha, uma moreninha linda, mais nova do que ele uns vinte anos. Quando eles iam à venda, próxima de minha casa, à beira da estrada, eu ficava admirando a beleza daquela mulata de curvas perfeitas, pernas grossas, seios arfantes e tentadores, sorriso enigmático, rosto angelical, cabelos negros, encaracolados, e um andar estonteante. Zé Dias, de braço dado com sua amada, andava como um pavão, cabeça erguida, com um risinho encimado por um bigode fino, bem aparado, exibindo, todo orgulhoso, a sua bela mulher, como se fosse um troféu.

Eram felizes. Viviam, sozinhos, em uma casinha de pau-a-pique, a um quilômetro da venda, cuidavam de uma horta bem-surtida, tocavam uma roça, onde plantavam arroz, feijão e milho, criavam galinhas no terreiro e alguns porcos no chiqueiro, tudo somente para o gasto, e Zé Dias ainda trabalhava na fazenda do dono das terras, seu arrendador.

Num domingo, à tarde, saí  para caçar  rolinhas  e passei perto da casinha. Escutei a moreninha cantando alegremente. Fui me aproximando, e olhei por entre os paus roliços. Que visão que eu tive: Joaninha toda nua. Ela estava no quarto, tomando banho, em pé, dentro de uma bacia. Com uma vasilha pequena, ela pegava água de um balde e, inclinando o corpo para trás, despejava-a sobre o seu rosto. Eu seguia, com os olhos, o caminho que a água percorria: descia por entre os seios de bicos eriçados, banhava a barriga lisa, inundava o umbigo fundo, e caía, em forma de cascata, na gruta do prazer, molhando os pelos pubianos que brilhavam com os raios do sol — sol que também a namorava pelas frestas do pau a pique. Joaninha, com suavidade, se abaixava e repetia os mesmos gestos. Fiquei ali, preso pelo encantamento daquele corpo cor de canela, até que aquele ritual terminasse, mesmo percebendo que ela me olhava com o canto do olho. Até hoje tenho aquela imagem gravada em minha mente.

Naquele domingo, voltei para casa sem nem uma rolinha no embornal, mas com desejo de pousar no ninho de amor da Joaninha. A partir daquele dia, quando nos cruzávamos, ela me dirigia olhares diferentes, e sempre acompanhados de um sorriso zombeteiro, como se me dissesse: “Você gostou, né, seu taradinho!...” E a cada dia minha atração por ela aumentava. Perdi a conta de quantas vezes voltei à sua casa para vê-la, toda nua, tomando o seu banho da tarde. Pela primeira vez naqueles meus quatorze anos, senti que eu estava apaixonado.

E a paixão deixa a gente sem noção de perigo. Eu sempre arranjava alguma desculpa só para ver Joaninha: num dia ia à sua casa buscar um molho de cebola-de-cheiro para minha mãe pôr na sopa, no outro, levar pães de queijo que minha mãe acabara de assar no forno a lenha, oferecia-me para tirar água do poço — água puxada em um balde grande, amarrado a uma corda, por meio de uma carretilha — ou para buscar lenha no mato... Com isso, ficamos muito amigos. E se ela gostava da minha companhia, eu simplesmente adorava. Quando ela ia à venda, sempre acompanhada do marido, eu ia comprar balinha Chita ou guaraná Mineiro e ficava olhando-a, sem desviar os olhos, e ela me dava umas piscadinhas marotas. Eu não arredava o pé enquanto eles não saíssem da venda. Às vezes eu chegava mais perto e a cumprimentava: “Bom dia, Joaninha!”, mas o Zé Dias me olhava, com o cenho franzido, e eu me afastava.

Num domingo, como invariavelmente fazia, o peão-tocador chegou à venda, sozinho, abraçando o seu cavaquinho, e eu pensei: “Não sei se ele gosta mais de abraçar o cavaquinho ou o corpo de violão da Joaninha!” Realmente, parecia que ele idolatrava aquele pequeno instrumento, tamanho era o zelo e o carinho com que o manuseava. Ele pediu uma garrafa de pinga, bebeu uma golada, no gargalo mesmo, e começou a tocar. Logo, logo, os tocos e o banco de aroeira, à porta da venda, estavam cheios, ao contrário da garrafa de pinga ao lado de Zé Dias que, invariavelmente, ficava bêbado. E bêbado ele se transformava num homem nervoso e bruto.

Eu o escutava, sentado em uma grande pedra à porta de casa, quando vi, na curva da estrada, a silhueta de Joaninha, recortada contra o céu avermelhado pelo pôr do sol. Embora eu sentisse medo do Zé Dias, o desejo de ver Joaninha de perto me encheu de coragem e eu corri ao seu encontro. Viemos pela estrada, conversando e rindo. Chegando perto da venda, eu parei e ela continuou a caminhar, rebolando o bumbum perfeito.

Zé Dias sempre brigava com sua mulher, e às vezes até lhe batia, quando ela ia à venda para buscá-lo. Principalmente quando ele estava numa roda de amigos, tomando cachaça e cantando. E nesse dia quente, quando ele ouviu um dos seus amigos dizer: “Eh, Zé, abra o olho, tem franguinho arrastando a asa no seu terreiro!”, o tempo ficou mais quente. O artista, que fazia daquele banco o seu palco, parou de tocar e de cantar, se levantou e, sem dizer uma palavra, pegou o cavaquinho de estimação pelo braço e o bateu violentamente no portal. O instrumento, literalmente, virou cavaquinho.

Joaninha passou por mim, correndo, e voltou para sua casa. Eu fiquei paralisado, no meio da estrada, como se os meus pés tivessem criado raízes. Zé Dias, com cara de poucos amigos, e ainda com o pedaço do que sobrara do braço do cavaquinho na mão, veio em minha direção, cambaleando. Eu comecei a tremer. Ele chegou bem perto de mim, olhou bem no fundo dos meus olhos por alguns instantes — instantes que pareceram longos minutos para mim, e foi como se eu tivesse lido nos olhos dele uma advertência velada: “Cuidado, moleque!...” Naquele exato momento minha dúvida se dissipou: Zé Dias gostava mais de sua amada do que de seu instrumento de cordas. Sem dizer nada, e nem descarregar a sua raiva em mim, ele foi atrás da esposa, seguindo os rastros fundos que ela deixara nas areias da estrada.

 

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