FAMÍLIA MUNIZ
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 

JOSÉ MUNIZ DE SOUZA — "NENÊ MUNIZ"

 

        

 

        Vovô Nenê era o 3.º filho de José Ignácio Muniz "Vovô Juca" e de Ambrosina Cândida de Assis "Vovó Bosa". Nasceu em 03-01-1900 e faleceu em 18-01-1988, em Ituiutaba, MG.

        Ele casou-se, aos 23 anos de idade, com Helena Teixeira de Freitas "Vovó Lena", filha de João Antônio Teixeira e Rita Delfina de Freitas. Vovó Lena nasceu em 08-02-1903 e faleceu em 29-03-1986, em Ituiutaba.

        O casamento se deu em 04-05-1923, na casa de Miguel de Souza Lima, em Ituiutaba.

 

       Nenê Muniz, como era carinhosamente chamado por todos, viveu 88 anos, sempre fazendo o bem e conquistando inúmeras amizades, pois todos aqueles que com ele se relacionavam, tornavam-se seus amigos, em virtude de sua maneira simples, cativante, sempre humilde e, sobretudo, porque ele era muito prestativo. Viveu sempre para o lar, para a esposa, filhos e netos, dando-lhes segura orientação com muita sabedoria, honestidade e pulso firme.

        O casal teve os seguintes filhos:

        † Purcina Muniz de Menezes, nasceu em 17/02/1924 — faleceu em 01/07/2009

        † Geraldo Muniz Teixeira, nasceu em 14/12/1926 — faleceu em 22/04/1995

        † Gumercina Muniz Teixeira (Tia Nêga), nasceu em 02/12/1928 — faleceu em 12/10/1992

        † José Muniz Teixeira (Tio Nêgo), nasceu em 01/03/1930 faleceu em 11/04/2005

           Doracina Muniz de Lima, nasceu em 13/04/1932

        Dorcina Muniz de Oliveira, nasceu em 24/02/1934 faleceu em 14/12/2008

        † Gercina Muniz Teixeira, nasceu em 1936 — faleceu em 1938

        † Dalcina Muniz de Morais (Tia Nenê), nasceu em 27/09/1938 faleceu em 29/06/2009

        Divino José Muniz (Solteiro), nasceu em 14/11/1940 — faleceu em 02/04/2012

          Joana Batista Muniz, nasceu em 24/06/1943

          Sebastião Inácio Muniz, nasceu em 09/12/1945

          Maria Aparecida Muniz, nasceu em 05/06/1955 (filha de criação)

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        Depoimento de sua primeira filha, Purcina Muniz de Menezes:

       
"O papai foi um homem muito bom, carinhoso com a família toda, trabalhador. Lembro-me que eu e o compadre Geraldo sempre o ajudávamos a plantar e a capinar as roças. E era tão bom nós todos juntos, com muita união e felicidade, graças a Deus. Tenho muita saudade daquela nossa vida na fazenda Santa Bárbara, à beira do rio da Prata. Papai era muito calmo, agora, a mamãe era mais brava que ele. Um dia, quando o vovô Teixeira estava lá em casa, ela me mandou lavar o coador. Eu fui pra bica d'água e passei pó de café na cara e fiquei brincando com os meninos. A mamãe me chamava e eu respondia: 'Agora mesmo eu vou, mãe!', mas continuava a brincar e não levava o coador. Passado um bom tempo eu cheguei na cozinha e a corda já estava no jeito. Ela pisou no meu pescoço e me deu uma surra que se o papai não acudisse, ela tinha me matado. Mas, fora estes momentos, ela foi uma mãe muito boa que soube criar os filhos. Nesta época nós tínhamos muitos porcos no chiqueiro e havia uma cobra sucuri que estava pegando os porcos lá em casa. Um dia o papai saiu cedo e foi lá na beira do rio da Prata procurar uma de suas porcas que tinha sumido. Chegando lá encontrou foi a sucuri com aquela enorme barriga, quase estourando. Ele gritou pra mim: 'Purcina, trás a espingarda e a foice, depressa.' Eu saí correndo com a espingarda e a foice na mão, quase caindo e entreguei pra ele. Ele matou esta cobra, que de tão grande que era não agüentamos carregá-la. E a mamãe ficou me chamando desesperada, com medo que eu me perdesse ou acontecesse alguma coisa ruim comigo."

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         Depoimento de sua filha Dorcina Muniz de Oliveira:

       
"Nenê Muniz foi um excelente pai pra mim e meus irmãos. Ele era muito calmo, e raras foram as vezes que bateu nos filhos para educá-los.
        Lembro-me de duas vezes: quando eu estava com quatro anos, minha irmã mais velha, a Purcina, saiu pra ir a casa da Vovó Bosa e eu fiquei chorando, querendo ir também. Meu pai me chamou duas vezes pra dentro e eu continuei chorando, com birra. Então, ele pegou um talo de folha de mamona e me deu três lambadas.
        Outra vez foi quando ele e meus irmãos estavam moendo cana, e, de repente, não me lembro o motivo, meu pai saiu correndo atrás do Nêgo, meu irmão, e bateu tanto nele que foi preciso a mamãe entrar no meio pra apaziguar, porque o papai estava muito nervoso".

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          Depoimento de seu filho Divino José Muniz:

       
"Papai era muito brincalhão, vivia sempre alegre e sorridente. Ele gostava de beber uma pinguinha, caçar, jogar truco e fumar um cigarro de palha, e ele mordia sempre a ponta do cigarro, era com se fosse uma marca registrada.
        Sinto saudades do velho Nenê Muniz".

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          Depoimento de seu filho Sebastião Inácio Muniz:

       
"Meu pai foi um homem bastante vivido. Viveu seus 88 anos sempre fazendo o bem e eu tenho muito orgulho de ter sido o seu último filho, porque ele já estava com 45 anos quando eu nasci.
        Neste tempo, que eu tive a oportunidade de viver ao lado dele, fui bastante agraciado, pois ele me ensinou muito. Inicialmente, na fazenda onde a gente vivia, eu, quando criança, sempre tive ele como um herói. Quando ele chegava em casa era muito carinhoso com todos nós, e, como lembrou bem a minha irmã, Dorcina, ele não batia nos filhos e nem nas criações.
        Nós tínhamos bastante gado e muitos cachorros, porque o papai era caçador mesmo e gostava de caçar sempre acompanhado por eles. A maior felicidade pra ele era quando ouvia o toque dos seus cães de caça atrás de algum bicho, e ele pegava a espingarda e já saía correndo. Alguns companheiros comentavam que o Nenê Muniz, às vezes, corria na frente dos perdigueiros e chegava no local onde o bicho se escondera primeiro do que eles, e a caça vinha mesmo pra casa. Lembro-me de muitas vezes em que ele chegava com um bicho morto, e a gente ia tirar o couro, tirar a carne e aquilo era uma felicidade. Na época não havia a lei de preservação da fauna e da flora, a caça era liberada e a fartura era certa.
        Tínhamos vacas leiteiras (leite, coalhada, queijo, etc.), porcos (carne, banha e linguiça), galinhas (ovos e carne), os bichos que o papai sempre caçava (veado, capivara, anta, queixada), os peixes (piracanjuba, piapara, curimbatá, jaú, etc.) que a mamãe pescava no Rio da Prata, que passava a um quilômetro de nossa casa, a colheita farta de arroz, milho e feijão (tínhamos uma tulha com capacidade para 32 sacas de arroz e uma outra para armazenar o feijão), o mandiocal (mandioca, farinha, polvilho), o engenho (melado, açúcar mascavo e branco, rapadura e pinga da boa, é claro), e 'um pomar onde as aves cantavam', com várias qualidades de frutas.
        Infelizmente, quando eu já contava 13 anos de idade, fomos obrigados a mudar pra cidade de Ituiutaba e o papai nos acompanhou. Ele sempre nos deu apoio para que estudássemos: comprava os livros e colocava em nossas mãos, se a gente não estudou o necessário a culpa é só nossa. Papai era muito bondoso e trabalhador e, apesar de vivermos uma vida simples e humilde, nunca passamos falta alguma. Sua casa era sempre cheia de filhos, netos, bisnetos, sobrinhos e muitos amigos, principalmente quando tinha uma mesa de truco, jogo que o papai gostava muito e foi um dos melhores jogadores. Meu pai só ensinou o que era bom e certo pra todos os filhos, para que pudéssemos seguir sempre o bom caminho."

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         Depoimento de seu genro Zé Duca:

       
"Eu e o compadre Nenê Muniz fomos companheiros muitos anos. Eu tinha ele como um pai, não era como um sogro, porque foi com ele que eu fui acabar de criar, foi com ele que eu aprendi a trabalhar direito na roça. Toda vida nós fomos companheiros de caçada, de baile e pra jogar truque. Qualquer caçoada que ia fazer nós tínhamos aquela confiança um com o outro, graças a Deus. Toda vida ele foi muito bom, sempre humilde e de muito amor no coração, então eu tenho saudade de tudo aquilo que passei junto com o compadre Nenê. Ele foi muito boa pessoa, um bom pai de família e a comadre Helena pra mim foi como uma mãe. Todo mundo reclama de sogra e de sogro, eu só tenho é que gavar a ele e a ela.
        Se eu fosse contar as histórias das caçadas que fizemos juntos, ficaria uma semana contando e não chegaria ao fim. Mas, vou contar uma que acho a mais engraçada: Eu e o Marcílio saímos pra caçar lá na cabeceira do Marimbondo e o Nenê Muniz, mais o Zé Mariquinha, tinham ido num baile lá no Antonio Mudo. Quando chegamos lá, demos com a batida de uma onça e resolvemos acompanhar pra ver se achávamos a pintada. Quando dobramos nos ôio d'água que tinha ali, o compadre Nenê e o Zé Mariquinha nos alcançou, tinham desistido do baile pra ir na caçada. Fomos os quatro na batida da onça até passar o córrego da Santa Rosa. Lá a chuva nos pegou dentro de uma croa e os cachorros acuaram a onça e ela virou pra trás beirando uma cerca e veio e subiu num pau na beira da Santa Rosa e ficou lá no alto. Ali nós atiramos nela, mas, em vez de atirar um de cada vez, atiramos todos juntos. A onça caiu desse pau, mas caiu viva. O Zé Mariquinha saiu enrabado com esse bicho e eu saí pra acompanhar quando o Marcílio disse: 'Espera, espera que ela volta cá!' Eu falei: 'Ela num vorta é nada, vai acuar no chão.' Nisso ela saiu numa capoeirinha do outro lado e acuou no chão. O Zé Mariquinha disparou um tiro e quebrou a perna duma cachorra, o outro tiro saiu pra riba e ele ficou lá agarrado numa touceira de pindaíba, e gritava: 'Acode! Acode!' Eu cheguei, dei um tiro nesse bicho que ele ficou estirado, mas agarrou um cachorro. O compadre Nenê chegou e deu um tiro de carabina no sovaco dela e ela ficou mordendo do mesmo jeito. Aí que o Marcílio chegou e deu um tiro na nuca da onça e acabou de matar. E a chuva caia pra valer."

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         Depoimento de seu genro Gerson Alves de Lima:

       
"Meu padrinho Nenê foi um homem e tanto mesmo. O que eu puder falar a favor dele eu falo e quem falar mal dele perto de mim está comprando uma briga, porque eu não aceito mesmo. Ele foi um homem correto, de palavra. O que ele falasse tava falado mesmo. E eu queria bem a ele. Pra falar a verdade queria tão bem quanto a meu pai e o respeitava muito também. Se eu tivesse junto do meu padrinho eu tava com a vida feita e parece que ele gostava de mim também. Certo dia nós estávamos limpando arroz — o padrinho Nenê limpando pra ele e eu limpando pra mim —. De repente um veado sai lá na beira do rio da Prata, sendo tocado pelos cachorros, entre a divisa do Seu Nenê e do Zé Jerômo. O padrinho largou a enxada e saiu correndo e gritando, quebrou a croa e sumiu. Eu continuei a capinar e já tinha esquecido daquilo, pensei que ele tinha ido embora. Mas ele voltou pra roça e chegou bem devagar por trás de mim e perguntou: 'Ei, Gerson, o veado num passô aí não?' Eu levei tanto susto que fiquei tremendo e quase que ainda sentei a enxada nele."

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         Depoimento de seu genro Orípedes Muniz de Souza:

        "Seu Nenê Muniz era um grande caçador e trazia sempre de prontidão seus apetrechos de caça. Na época em que eu estava namorando com a sua filha Joana, eu e a Maria (irmã de criação da Joana) estávamos catando gabiroba à beira da estrada quando, de repente, vi um veado dos grandes deitado debaixo de uma coivara. Chamei a Maria e voltamos em silêncio pra chamar o caçador Nenê Muniz. Imediatamente ele passou a mão na sua espingarda de ouvido e saímos em direção ao local onde estava o veado.
        Eu ainda disse para trocarmos pelo menos a espoleta, mas Seu Nenê retrucou: — 'Não precisa, essa aí num tarda não!'
        Chegando no local, o veado, ainda deitado, olhou em nossa direção. Seu Nenê deixou que eu atirasse. Levei a espingarda ao ombro, mirei e atirei. Ao explodir a espoleta: 'pá', o veado saiu correndo e só instantes depois que a carga de chumbo foi sair: 'pei'.
        Meu sogro ficou chateado e balançando a cabeça, saiu resmungando: 'Ah! Pois é. Nóis pudia ter descarregado a espingarda, né. Carregar de novo, né. Trocar a espoleta, né. Agora o veado foi embora'."

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    Vou narrar aqui dois dos muitos "causos" de caçador que o vovô Nenê Muniz contava para seus netos e bisnetos.

        Primeiro: "Certa vez apareceu na redondeza de uma fazenda uma onça que estava matando bezerros e novilhas. Um dia de manhã, o fazendeiro foi olhar um pasto onde estavam algumas cabeças de gado e encontrou a carcaça de um dos bezerros que a tal onça havia abatido. Ele voltou em casa, pegou sua cartucheira, matula e um polvarinho — utensílio onde se leva pólvora para a caça, feito do couro de uma onça que ele próprio havia matado — e voltou para o pasto onde ficaria de tocaia, esperando que a onça assassina voltasse para comer os restos deixados.
       
Há alguns dias o pasto tinha sido queimado e o capim brotou viçoso. O fazendeiro escolheu para ficar tocaiado uma moita de cipó que ficava de frente para o bezerro morto. Subiu no cipoal e ficou esperando. Não passou muito tempo ele ouviu o pisado da onça. Só que ela não veio pela sua frente como ele esperava, ela apareceu nas suas costas. Na pressa de virar e atirar na onça, aconteceu o inesperado: o cipó, que estava com suas raízes fracas por ter sido queimadas junto com o pasto, arrebentou, e o caçador estatelou no chão, perto da onça.
        Com todo este estardalhaço, a onça saiu em disparada, correndo de susto e o caçador, saiu correndo de medo. Ele corria sem olhar para trás e por isso, não viu que a onça estava correndo na direção contrária à dele. Achando que ela estava correndo para pegá-lo, ele borrou nas calças de tanto medo.
        De repente o caçador tropeçou em um toco e caiu com a cara no chão. O polvarinho, parecendo ganhar vida, deu uma volta no ar e bateu em cheio na cara do caçador. Quando, com o canto do olho, ele viu aquele couro de onça em cima dele, exclamou:
        — Come onça, pelo menos você vai comer um homem de coragem."

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        Segundo: "Eu, o Marcílio, o Pedro Baiano, o Zé do Pedro e o Guilherme fomos caçar queixada — mamífero quadrúpede que quando acuado, bate forte os queixos, causando um barulho enorme —, na Fazenda Aguada Grande, na cabeceira do Córrego Danta. Chegando no local, soltamos os perdigueiros e não demorou muito pra acuarem os bichos, antes do meio-dia.
        Na correria dos queixadas e dos cachorros, passamos por cima de uma casa de 'mongongos', e estes ficaram alvoroçados. Pedro Baiano, na ânsia de atirar em um dos queixadas, veio correndo e passou também por sobre os 'mongongos' que ferveram em cima dele. Pedro Baiano enlouqueceu. Esqueceu os queixadas, largou a cartucheira, perdeu o chapéu e saiu dali em disparada, gritando feito doido.

        Depois que os 'mongongos' se acalmaram, Pedro Baiano voltou pra buscar seus pertences. Pegou a cartucheira e apanhou o chapéu pra pôr na cabeça. Pra azar seu havia um 'mongongo' sob o chapéu. O bicho saiu voando e pousou em sua testa, aplicando-lhe uma violenta ferroada. Com o susto e a dor, Pedro Baiano deu um tapa na testa, esmagando o inseto, mas já era tarde. Sua testa começou a inchar, formando um enorme calombo.
Passado este episódio, do qual rimos a valer da infeliz sorte do Pedro Baiano, voltamos novamente nossas atenções aos queixadas e ainda matamos três dos grandes naquele dia."

 

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