FAMÍLIA MUNIZ
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 

JOSÉ IGNÁCIO MUNIZ  "VOVÔ JUCA"

            Filho de Ignácio José Muniz e de Purcina Maria de Jesus, nasceu em 01-05-1875 e faleceu em 06-01-1926.

            Vovô Juca casou-se com Ambrosina Cândida de Assis "Vovó Bosa", filha de José de Souza Lima "Zeca Souza" e Maria Cândida de Assis. O casamento se deu em 09-09-1893, na Fazenda Santa Bárbara, no Distrito de São José do Tijuco (hoje município de Ituiutaba, MG), que na época pertencia ao município de Prata, MG.

 

O casal teve os seguintes filhos:

 

 

† Laudimiro José Muniz, nasceu em 10/10/1894 — faleceu em 16/03/1926

† Jerônimo José Muniz, nasceu em 03/12/1898 — faleceu em 1940

José Muniz de Souza (Nenê Muniz), nasceu em 03/01/1900 — faleceu em 18/01/1988

† Cândida Severino Muniz (Tia Candota), nasceu em 06/12/1901 — faleceu em 08/04/1982

† Elvira Cândida Muniz, nasceu em 09/04/1903 — faleceu em 06/09/1989

† Pacífico José Muniz, nasceu em 16/09/1904 — faleceu em 01/06/1991

† Blandina Cândida Muniz (Tia Bulanda), nasceu em 02/03/1907 — faleceu em 19/08/1989

† Maria Abadia da Cruz, nasceu em 05/01/1909 — faleceu em 18/10/1983

† Ignácio José Muniz, nasceu em 16/02/1910 — faleceu em 1917

† Antônio Nicácio Muniz (Totonho Muniz), nasceu em 11/10/1912 — faleceu em 25/10/1994

† Marcílio Severino Muniz, nasceu em 09/08/1914 — faleceu em 21/01/1991

† João Muniz de Souza, nasceu em 25/11/1915 — faleceu em 14/09/1971

Guilherme Severino Muniz, nasceu em 27/06/1920

Ambrosina Cândida Muniz (Tia Fiíca), nasceu em 23/03/1922
 

* * * * *

         Vou narrar aqui uma história que os mais antigos contam e se emocionam.

        Vovô Juca era um homem muito sério, sistemático, mas de bom coração. Certa vez acolheu em sua casa seu compadre Chiquinho Rezende, que era protético, para que ele montasse ali o seu consultório dentário e atendesse as pessoas da região.

        O tempo foi passando e o Chiquinho, apesar de casado, começou a se interessar pela Maria Abadia, uma das filhas do Vovô Juca, e dizia sempre ao seu amigo Cecílio, velho de uns 70 anos, que iria roubá-la para morar com ela.

         A Tia Maria sabia das intenções do Chiquinho mas não contou a ninguém, apenas evitava conversar com ele e sempre o rejeitou, mas não adiantava, ele estava completamente transtornado por aquela idéia. Numa noite, ela estava na casa da Vovó Lena, quando este homem chegou, juntamente com o Cecílio, com a desculpa de jogar truco com o Vovô Nenê Muniz e o Vovô Teixeira (pai da Vovó Lena). O Cecílio foi ao encontro da Tia Maria Abadia, que estava lavando o coador de café no rego-d'água, e lhe disse que ela ficasse preparada porque naquela noite eles voltariam para roubá-la.

        Maria deu o banho na Tia Purcina, primeira filha da Vovó Lena, que estava com dois anos, e deitou-se mais cedo, não saindo à sala. Terminando o truco, eles se despediram mas não foram embora, ficaram rondando a casa até de madrugada. A Vovó Lena dizia que chegou a ver os dois pelas frestas da parede de pau a pique.

        Cecílio, velho muito fuxiqueiro, contou ao Vovô Juca a intenção do seu compadre em relação a sua filha Maria Abadia. Vovô Juca procurando o Chiquinho disse-lhe para ir embora de sua casa e que iria cortá-lo no chicote se o encontrasse novamente por ali.

        Foi assim que no dia 6 de janeiro de 1926, andando a cavalo na fazenda Marimbondo, Vovô Juca, acompanhado do seu irmão João Severino Muniz, ambos armados de revólver, encontrou com o Chiquinho na estrada, que trazia sobre a sela uma carabina 44. Junto com o Chiquinho estava o Amerquim — velho humilde e muito simples que morava naquela redondeza e era amigo de todos —. Segundo contou depois este velho, o Chiquinho chegou a comentar com ele para seguirem por outro caminho evitando assim o confronto direto com seu compadre Juca.

        Meu tio-avô João Severino também contou que tentou evitar o encontro, pedindo ao Vovô Juca que fossem pela outra estrada. Não teve jeito. Vovô Juca foi ao encontro do Chiquinho, dizendo:

        — "Esta carabina é pra me matar, compadre?"

        — "Não, compadre Juca, é para o que der e vier." – respondeu Chiquinho.

        — "Então, compadre, eu disse que ao te encontrar te cortaria no chicote. Hoje chegou o dia".

        Nesta hora João Severino tentou agarrar seu irmão pelas costas para evitar o ataque e o Sr. Amerquim também jogou seu cavalo sobre o de Chiquinho. Nada disto adiantou. Ao levantar o braço direito para desferir a chicotada, ouviu-se um disparo e o Vovô Juca foi atingido pela bala da carabina do Chiquinho, que lhe perfurou a axila direita e saiu pelas costas. A bala, por ironia, cortou a guasca do chicote e depois perfurou a aba do chapéu do meu tio-avô João Severino (há quem diga que foram duas balas, não se sabe ao certo).

       O Sr. Amerquim correu para socorrer Vovô Juca enquanto João Severino tentou agarrar Chiquinho, que saiu em disparada.

         Enquanto o Amerquim tentava ajudá-lo, Vovô Juca balbuciou as seguintes palavras: "Estou morrendo, Amerquim".

        Vovô Juca foi levado para a Fazenda Marimbondo, de propriedade do Sr. João de Freitas. Quando todos ficaram sabendo do acontecido, foram visitá-lo. José Garcia de Oliveira — pai do Tio Eurípedes Garcia de Oliveira — também esteve lá, e, conversando com o Vovô Juca, que já estava muito fraco devido à perda de sangue, disse-lhe:

        — "Ô, compadre Juca, como é que você faz uma coisa dessa! se você queria fazer alguma coisa com o Chiquinho, por que não atirou nele, se você estava com o revólver na cintura?"

        Vovô Juca respondeu:

        — "Não compadre, eu não queria matar, eu só queria era bater nele com o rebenque para lhe dar uma lição".

        Vovô Juca ainda resistiu algumas horas, prazo suficiente para a Vovó Bosa, sua querida esposa, vir e ainda conversar com ele.

        Outra ironia do destino foi que três dias antes deste fatal encontro, eles haviam inaugurado o Cemitério do "Pau-Terra", na Fazenda Santa Bárbara, e o Vovô Juca dizia para o velho Amerquim, em tom de brincadeira: "Vamos inaugurar o cemitério com você, Amerquim". E foi justamente ao contrário, o Vovô Juca é que foi o primeiro a ser sepultado ali, ao pé do grande cruzeiro.

        Depois desta tragédia, Tia Maria Abadia atentou contra sua própria vida, tomando veneno. Graças a Deus e aos cuidados imediatos dos familiares, ela se recuperou. Quando estava acamada ela disse que os dois sujeitos estiveram no seu quarto para levá-la. Isto não se sabe se foi verdade ou apenas delírio da Tia Maria.

        Chiquinho Rezende foi preso e inocentado, alegando legítima defesa. Após muitos anos minha mãe o viu em Ituiutaba, Minas Gerais, andando pela rua, barbudo, cabisbaixo, como que a pedir perdão pelo crime cometido.

 

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