FAMÍLIA MUNIZ
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz
 


AMBROSINA — SAMBROSA — "VOVÓ BOSA"
 

   

* * * * *

            Depoimento de Edson Angelo Muniz:

         "Tenho lembranças de minha bisavó materna, AMBROSINA CÂNDIDA DE ASSIS, a partir do ano de 1969, quando ela já estava na flor da idade de seus 91 anos e eu com apenas 13. Nesta época fui passar minhas férias escolares na Fazenda "Barreiro do Valadão", na casa da Tia Nêga e do Tio Antenor.

            O povo da região do Barreiro, Flor de Minas, Santa Bárbara, Patrimônio de São Jerônimo (hoje Gurinhatã, MG) conheciam-na por Dona Sambrosa, mas todos da família a chamavam carinhosamente de Vovó Bosa. Ela era bondosa, carinhosa e muito alegre, vivia sorrindo de tudo e para todos. Era um sorriso franco, bonito, bem aberto.

            Vovó Bosa casou-se, aos 14 anos, com José Ignácio Muniz "Vovô Juca". No dia do seu casamento ela desapareceu, de repente, e foram encontrá-la brincando de boneca no paiol, sozinha, ainda vestida de noiva. Seu véu de noiva estava todo sujo e cheio de carrapicho. Ela foi mãe de 14 filhos, fora alguns abortos, e ainda ajudou a criar mais quatro: Tio Felício, Pedro Baiano, Tia Lázara e Oripinho.

            Em Gurinhatã, Minas Gerais, todos se lembram com carinho da Dona Sambrosa, mãe do ilustre vereador Guilherme Severino Muniz.

            Minha convivência com a Vovó Bosa foi muito pouca, infelizmente, se limitando ao:

            — "Bença, Vó Bosa."

            — "Deus te abençoe, meu filho."

         Mas, os mais velhos têm muito a contar sobre esta que foi uma pessoa querida e admirada por todos.

 

* * * * *

             Depoimento de sua filha Ambrosina Cândida Muniz "Tia Fiíca":

 

           "Minha mãe sempre foi muito severa, quando a situação exigia, mas foi muito companheira de todos, principalmente dos seus filhos, e era muito sorridente e brincalhona. No dia em que meu irmão Guilherme completou 18 anos, ele estava agachado perto do rego-d'água e do monjolo, e minha mãe veio chegando por trás dele, bem devagar, sem fazer barulho, com o chicote na mão, e de surpresa deu duas lambadas no Guilherme, que pulou assustado e exclamou:

            — 'O que que é isso, mãe!'

            E ela respondeu:

            — 'Ora, Guilherme, hoje é o seu aniversário e este é o meu presente!´

            E completou, sorrindo:

            — ´Venha cá, me dê um forte abraço, meu filho, aceite os meus parabéns e que Deus te abençoe!' "

 

 

* * * * *

            A Onice Garcia Muniz "Nicinha", filha da Tia Fiíca, se lembra bem do modo gostoso de rir de sua Avó e nunca esqueceu o dia que ela viu, lá na Fazenda Barreiro do Valadão, um pato em cima da pata. Na inocência dos seus quatro aninhos, gritou para a Vovó Bosa: "Olha lá, Vó, o tamanho da tripa do pato!" Vovó Bosa desatou a rir, daquele jeito só dela, balançando-se toda, mas fez de conta que não viu e nem ouviu nada, para não ter que dar maiores explicações...


* * * * *

            Depoimento de sua neta Blandina Muniz de Medeiros "Dina":

           
"Dona Ambrosina Cândida de Assis foi um exemplo de mulher como esposa, mãe, sogra, avó, bisavó e tataravó. Era de família humilde e teve vários filhos, e ela ficou muito conhecida na região de Ituiutaba e do Triângulo Mineiro. Em sua humilde morada era bem recebido quem chegava. Ela era naturalista, conservadora, conselheira, amiga e muito respeitada e, apesar de ser analfabeta, era considerada a mais sábia daquela região. Todos acatavam suas orientações e conselhos. O seu chazinho caseiro tinha o poder da cura, parecia milagroso até. Seu senso de humor surpreendia a todos e tinha um carinho especial por cada pessoa. Tinha muito amor e dedicação pela sua família e verdadeira paixão pela sua roca de fiar. Adorava os trabalhos manuais (artesanais), tinha grande fascinação pelos animais e gostava muito de cultivar hortaliças onde colhia quase todos os tipos de verduras e legumes para o sustento da família. O que ela preservava muito era sua saúde, por isso era uma pessoa com ótima audição, visão e de grande lucidez. Apesar de ter ficado viúva ainda jovem, continuou a jornada em seu lar com muita habilidade e dignidade. Em 1974 ela partiu, com 96 anos de idade, após ter cumprido sua missão determinada por Deus, deixando aqui seus descendentes, este grande exemplo a ser seguido por cada um de nós e uma imensa saudade nos corações daqueles que tanto a amam."

* * * * *

            Outra neta da Vovó Bosa, a Celina (Blandina Jucelina Muniz Faria), me contou que ela sempre lhe dizia: "Celina, você é a neta mais linda que eu tenho". Celina ficava toda exibida com esta declaração da sua querida avó, até que um dia descobriu que a Vovó Bosa dizia a mesma coisa pra todas as suas irmãs e primas. Como era carinhosa a Vovó Bosa. Pra ela não havia preferência. Todas as netas, netos e bisnetos eram lindos e amava a todos sem distinção.
 

* * * * *

            Depoimento de Wagner Targa Júnior, trineto da Vovó Bosa:

            "Quando minha mãe era criança (12 anos), estava brincando com a Prima Nicinha na Fazenda Barreiro, debaixo de umas árvores frutíferas... A Vovó Bosa tinha um bom coração, mas também era um pouco implicante e rígida... As primas brincavam distraidamente perto da Vovó Bosa e, segundo minha mãe, nesse dia, estavam desprovidas de malícia, pois ela e a Nicinha já haviam pregado bons sustos na Vovó. Quando passaram por detrás da Vovó, ela desatou a gritar no maior berreiro, e tentou andar depressa, meio que mancando e puxando sua bengala. Todos foram acudir a Vovó Bosa, que disse que a neta Nicinha e a bisneta Ivone tentaram roubar sua bengala para que ela caísse. Mas as meninas explicaram que ela estava equivocada, pois desta vez não fizeram nada... Bom, até aí tudo bem, mas a Vovó não se deu por satisfeita, foi para sua cama com a bengala na mão e sentou-se sobre as pernas, como era de costume... Minha Mãe e a Nicinha começaram a transitar em volta da cama da Vovó e isso foi lhe irritando, pois ela estava comendo o mingau que  tanto gostava e isso a estava desconcentrando... De repente a Vovó saltou da cama, com mingau e tudo, tentando dar umas bengaladas nas duas, mas seu mingau caiu dentro de seu pinico, cheio de urina... Esse acidente lhe deixou ainda mais irritada, as meninas saíram correndo pelo terreiro e começaram a rir sem parar, riram até a barriga doer..."

* * * * *

            Minha irmã, Ednair Ângela Muniz, também contou-me que certo dia estava jogando truco na casa do Tio João Grosso, onde a Vovó Bosa morava. O seu parceiro era o Pedro Baiano. A Vovó Bosa observava o jogo, assentada em cima das pernas, como de costume, cardando algodão. "Parecia até que ela estava cardando o próprio cabelo, de tão brancos que eram o algodão e o cabelo". De repente um de seus adversários exclama: "Truco na mandioca!" *. Minha irmã não pensou duas vezes. Na primeira oportunidade em que ela foi "pé do baralho", gritou: "Truco na batata". Todos começaram a rir e ela ficou sem entender o porquê. Vovó Bosa então, ria a gosto, sacudindo o corpo todo, um sorriso que a Ednair nunca esqueceu. Depois é que explicaram pra mana o motivo de tantas gargalhadas.

* * * * *

            O Senhor Codadi da Silveira, de saudosa memória, tinha em sua casa, na parede da sala, uma fotografia da Vovó Bosa que ele não emprestava para ninguém, e quando lhe perguntavam quem era a velhinha da foto, ele dizia sempre com muito orgulho e carinho: "É a minha santinha". Codadi da Silveira foi locutor da Rádio Difusora AM, de Ituiutaba, Minas Gerais, por muitos e muitos anos. O Vovô Nenê Muniz era um dos mais assíduos ouvintes do programa do Codadi, todos os dias de manhã, e o locutor sempre oferecia músicas para o Vovô e para a Vovó Lena.

* * * * *

             Depoimento de Dona Lucinda, esposa do João Rosado:
 

            "Dona Sambrosa acabou em meus braços. Foi em um fim de semana em que todos na fazenda se preparavam para sair rumo ao Canal de São Simão, numa pescaria no rio Paranaíba. Eu fui pra casa do Tio João Grosso para tomar conta dela. Sempre muito alegre e brincalhona, Vovó Bosa me disse: — 'Lucinda, faz um cigarro pra mim'. Eu enrolei o cigarro de palha, com o fumo forte que ela gostava. Vovó Bosa fumou tranquilamente e depois pediu pra sua filha Maria Abadia costurar uma camisola, pra ela vestir naquele dia. Quando sua filha saiu do quarto ela me disse em tom de segredo: — 'Lucinda, eu já tomei meu banho, mas não quero vestir aquela camisola, as roupas que eu quero vestir hoje são estas que estão aqui'. E me indicou quais. Achei estranho a conversa dela, mas eu não disse nada, e ela continuou: — 'Olha, Lucinda, hoje eu não quero remédio, não quero nada, o que eu quero mesmo é que as minhas filhas vão cuidar de suas vidas, de sua saúde, e você vai dizer isto a elas'. Eu perguntei: — 'Por que eu Vó Bosa? Eu gosto muito da senhora e de toda a família, mas quem sou eu pra fazer o que me pede?' Ela então perguntou: — 'Lucinda, você vai aguentar me ver morrer?' — Fiquei sem resposta, e ela continuou: — 'Cuide de tudo, não deixe que ninguém se desespere'. Dizendo estas palavras, acabou em meus braços, sem emitir nem um ai".

            Neste mesmo instante, o Senhor João Vicente, esposo da Dona Lucinda, que estava trabalhando na fazenda do Lourival, distante da Fazenda Barreiro do Valadão uns três quilômetros, ouviu claramente alguém "soprar" em seu ouvido a seguinte frase: "Dona Sambrosa morreu!" João Vicente guardou suas ferramentas de carpinteiro no mesmo instante e disse ao seu companheiro que iria embora pois a boa velhinha havia morrido. Chegando à casa do Tio João Grosso, ele constatou ser verdade o acontecido.

 

VOLTAR