FAMÍLIA MUNIZ

Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 

Sebastião Inácio Muniz

 

 

Relato autobiográfico

 

Eu, Sebastião Inácio Muniz, nasci em 9 de dezembro de 1945, num local denominado Fazenda Santa Bárbara, que, na época, pertencia ao município de Ituiutaba, MG; porém, hoje, faz parte do município de Gurinhatã, MG. Sou o filho mais novo de José Muniz de Souza e Helena Teixeira de Freitas, família que, no dia do meu nascimento, era composta de doze pessoas: meus pais, três irmãos homens, cinco irmãs mulheres, ainda solteiras, meu avô materno João Teixeira e eu. Digo isso porque minha irmã mais velha, Purcina, a primogênita da família, já havia casado, dera à luz três filhos mais velhos do que eu, e morava em outra fazenda.

Na minha vida de criança, de zero a oito anos, eu só brincava e esperava o alimento no prato: se não fosse servido pela minha dedicada mãe, que, na fonte de seu seio, amamentou-me por quase quatro anos, era servido por uma de minhas queridas irmãs. Depois dos dois anos de idade, minha mãe ainda me servia, à noitinha, leite de vaca. Eu usava de uma tática: quando o copo estava quase vazio dizia, manhoso: “Mãe, o açúcar quer mais leite” E ela, carinhosamente, colocava mais leite no copo. Outra vez, eu dizia: “Mãe, o leite quer mais açúcar.” Assim fazia até me fartar. Imagina que vida boa!...

Após os oito anos, já comecei a auxiliar em algum trabalho mais leve, como, por exemplo, levar almoço e água para os que trabalhavam na roça. Após os nove anos, comecei a exercer funções mais trabalhosas, como guiar o cavalo ou a égua que puxava a carpideira. O pior é que quando a carpideira ficava mais pesada, o animal mordia as laterais, e até quem estava lá! Tive de inventar um bastão, preso ao cabresto, e o segurava bem firme, para não ser mordido. Aos dez anos, passei a ser “candieiro” de juntas de bois que tracionavam carro de boi ou toras de madeira, principalmente para um moço chamado Lazaro Padeiro. Num dia, eu ia à frente das três ou quatro juntas de bois, guiando por onde deveriam passar, e, em um momento de distração, eles se desviaram um pouco, e o Sr. Lázaro, lá de trás, gritou comigo: “Ô, Tião, os bois estão se desviando...” Devido à chamada de atenção, eu fiquei um pouco nervoso, então, nesta hora eu blasfemei e gritei também: “Vem, ‘Desgraçado”, e vai ‘Fedaputa’!” Os nomes dos bois eram outros, bem diferentes, mas eu não me lembro deles agora; porém, acho que tinha um que se chamava Sete Ouro.

Nesta época, eu já era alfabetizado. Primeiramente, estudei numa escola da Fazenda “Gueiroba”, para tanto, eu ficava na casa da minha irmã, Purcina. Estudei também em outra escola, na Fazenda Buriti Grande, e, depois, na escola da Fazenda Santa Bárbara, onde a professora era a Terezinha Angela de Souza.

Aos treze anos, mudei para a cidade de Ituiutaba, morando novamente na casa da Purcina. De imediato, comecei a trabalhar no Posto Guimarães, de propriedade do Sr. Alarico Moura Guimarães. Como frentista, atendia os carros nas bombas de gasolina amarela e azul, querosene e diesel. Ai, que saudade daquele tempo! Era centavos o livro...

Em 1962, com dezessete anos de idade, fui trabalhar como cobrador de ônibus, em uma empresa denominada Rápido Triângulo, e fazia a linha de Ituiutaba à Mateira, GO (atual Paranaiguara). Neste mesmo ano cobrei também nos ônibus do meu cunhado, Neinho, em duas de suas linhas: Ituiutaba-São Lourenço e Ituiutaba-Campo Alegre. Neinho era casado com a minha irmã, Dorcina.

Aos dezoito anos, em 1964, servi o Exército Brasileiro no Tiro de Guerra de Ituiutaba. Nesta época, mais para o final do ano, me envolvi com uma jovem, da qual não quero aqui citar o nome. Afastamo-nos por algum tempo, porque ela teve de viajar com seus patrões. Quando voltou, ela me disse que estava grávida, e que o filho era meu. Então, sem experiência no assunto, eu a rejeitei e, sem pensar, ainda lhe disse: “Esta gravidez você pode ter arrumado durante a viagem!”

Pouco tempo depois eu também viajei, para o norte, junto com um amigo, chamado Edivaldo. Fomos para o Amazonas, passamos por Belém do Pará, onde embarcamos no navio “Lauro Sodré”, e nele navegamos, Rio Amazonas acima, por cinco dias e cinco noites. Durante a viagem aconteceram várias coisas, pois estávamos embarcados de segunda classe, dormindo em redes e comendo prato feito. Desembarcamos em Manaus na qualidade de estudantes. Ficamos hospedados, por conta do Estado, por mais de um mês, aguardando transporte. Nesse tempo, visitamos vários locais turísticos, como, por exemplo, o Teatro Amazonas, conhecido também por Teatro da Paz.

Enfim, saíram as passagens, mas só para Belém, em um avião do tipo “catalina”, daqueles que pousam na água e também no aeroporto. Chovia muito durante o trajeto da viagem, por isso, o avião, que de tão antigo até gotejava dentro, ia margeando o rio, porque, em caso de pane, a água ali estava...

Saltamos em terra na cidade de Belém. Como já tínhamos recomendações das autoridades do Estado do Amazonas para que as autoridades do Pará nos reencaminhassem o restante da viagem, ficamos hospedados no quartel da Polícia Militar do Pará. Éramos tratados como aspirantes e fazíamos parte do círculo dos oficiais: de sargento para baixo, todos faziam continência para nós, e saíamos e entrávamos no quartel à hora que quiséssemos. E assim ficamos por mais de noventa dias, até que começaram atritos entre os comandos da PM e da Aeronáutica devido ao longo tempo de nossa permanência naquele quartel. Como nós também já estávamos enjoados de ficar ali, à toa, resolvemos viajar, por nossa conta e risco, de carona, de ônibus, de avião...

Quando chegamos a Ituiutaba, logo eu fiquei sabendo que meu primo, Juraci, havia espalhado a notícia de que conversara comigo, em Uberaba, MG, um mês atrás. Eu o procurei, e conversamos. Ele afirmou que havia conversado comigo, sim, e que, inclusive, eu havia mandado notícias para a minha mãe, dizendo estar tudo bem comigo. Eu nunca disse que ele mentia, mas na época em que afirmou ter me encontrado em Uberaba eu estava em Belém, a dois mil quilômetros de distância. Tentei repetir, algumas vezes, a façanha de estar em dois lugares ao mesmo tempo, mas parece que não consegui, pois não tive notícias de mim em outro lugar. Certamente não encontrei alguém conhecido no outro lado, como desta vez, em Uberaba...

Voltando novamente a Ituiutaba, fiquei sabendo que minha ex-namorada já estava com a gravidez bem adiantada, mas eu não a procurei.

Comecei, então, a trabalhar no Expresso São João Ltda., inicialmente como cobrador, e a linha em que eu mais trabalhei foi de Ituiutaba a Quirinópolis, GO. Era muito divertido! Eu, naquela idade, com boa saúde, mantinha duas namoradas em Ituiutaba, uma em Capinópolis, MG, uma em Ipiaçu, MG, uma em Gouvelândia, GO, e duas em Quirinópolis. Sem contar as que eu sempre conseguia durante as viagens, dentro do ônibus.

Alguns meses depois, aquela jovem grávida deu à luz. Eu não assumi a criança, pois, por não saber fazer a contagem do tempo de gravidez, tinha dúvida se eu era realmente o pai; mas eu a vi, uma vez: era uma linda garotinha. Mais tarde, minha mãe ficou sabendo e me disse que era para eu assumir a filha que ela ajudaria a criá-la. Então, procurei pela jovem mãe, mas ela disse que a menina havia morrido. Desta vez eu acreditei nela, e fui embora, triste e arrependido, mas era tarde. Eu não soube nem mesmo o nome que a garotinha recebeu. Depois, fiquei com uma dúvida martelando minha cabeça: “Talvez ela tenha doado a menina, e não quis me falar.” Assim pensando, algum tempo depois, fiz várias tentativas para tentar encontrá-la; porém, todos os familiares dela sumiram, sem deixar vestígios. Se aquela menina sobreviveu, tem hoje cinquenta e três anos de idade...

Trabalhei como cobrador, no Expresso São João Ltda., durante uns três anos, depois fui transferido, ou promovido, para o escritório, onde permaneci até 1971. No final do ano 1972 fui procurar trabalho em São Simão, GO, onde estava iniciando a construção de uma usina hidroelétrica da CEMIG. Nesta época eu já estava envolvido com outra jovem, que tinha apenas dezessete anos.

Logo após eu arrumar trabalho na BETER Construtora Ltda., empresa de São Paulo, que estava construindo uma ponte para substituir a antiga, que seria inundada, esta jovem, Terezinha, veio morar comigo em Mateira. Vivemos nesta cidade por três anos, e, em 1974, nasceu nossa primeira filha, à qual demos o nome de Loredana. Então, fui transferido para Congonhas, MG: “Ferrovia do Aço” era o nome da obra; e minha mulher e filha ficaram em Ituiutaba. No início de 1976, quando voltei para buscar minha família, minha esposa já dera à luz a nossa segunda filha: Stfana. Um mês depois do parto, nos casamos, no Cartório de Ituiutaba, e levei as três para morarem comigo em Congonhas, onde vivemos pouco mais de um ano. Lá eu conheci algumas pessoas que trabalhavam em outra empresa de São Paulo, a SADE – Sul Americana de Engenharia S.A., e mudei de empresa. A SADE me levou para trabalhar e morar em Santos, SP, com minha família, onde trabalhei por mais de três anos. Em Santos nossa família cresceu: em 1979 nasceu meu filho homem, o Cristian.

Todo local que ia trabalhar, eu levava minha família: moramos em Santos até o final de 1979; voltamos para Ituiutaba; moramos alguns meses em Perdilândia, Distrito de Santa Vitória, MG. Desta feita mais parecia férias: era só caça e pesca. Em abril de 1980, voltamos para Ituiutaba, e eu fui trabalhar na Minas-Goiás Transportes, onde fiquei de maio de 1980 a 6 de janeiro de 1981, quando fui convidado a trabalhar novamente na SADE, desta vez em Sinop, MT, onde permanecemos por mais ou menos um ano. No fim do ano de 1981 fui transferido para o Rio de Janeiro, RJ, quando comprei o carro Maverik, uma joia rara, que até hoje, quando não está rodando, fica bem guardado em minha garagem-cofre. Desta vez ficamos no Rio de Janeiro até o dia 1.o de março de 1982.

Voltamos outra vez para Ituiutaba, onde comprei uma casa, financiada pela APETRIM, quando contei com o apoio incondicional do amigo Lazinho. Trabalhei na CONSTRUTIL de 1.o de junho de 1982 a 16 de janeiro de 1983, quando fui novamente convidado a trabalhar na SADE, onde fiquei de 17 de janeiro a 27 de setembro de 1983.

Voltei para Ituiutaba e trabalhei na empresa Oswaldo Faganello, na área da Nestlé, de 21 de novembro de 1983 a 15 de maio de 1984. Então, fui convidado a voltar a trabalhar na CONSTRUTIL, desta vez, em uma obra na cidade de Betim, MG. Trabalhei ali de 16 de maio a 23 de novembro de 1984, e retornei para Ituiutaba, quando trabalhei no Escritório Brasil, de Contabilidade, de 2 de maio de 1985 a 9 de outubro de 1987, ao lado do proprietário, meu amigo Lindolfo Marques. Em novembro de 1985, nasceu a nossa filha caçula: Elusca Helena.

Em 1988 nos mudamos para Uberlândia, MG, e, em março deste ano, comecei a trabalhar na ABC Construtora, empresa do Grupo ALGAR. Nesta empresa, fui transferido para várias cidades: a primeira foi Guairá, SP, onde ficamos por uns noventa dias; depois, Juiz de Fora, MG, onde moramos por um ano; depois, Salvador, BA, onde ficamos por um ano e meio mais ou menos; e então, voltamos para Uberlândia.

Trabalhei na ABC Construtora até o dia 22 de janeiro de 1996. Durante o meu período nesta empresa de Uberlândia, comprei casa e terrenos nesta cidade, e vendi a casa de Ituiutaba, pois, como eram financiadas, não podiam ficar ambas em meu nome.

Trabalhei, temporariamente, por noventa dias, em uma empresa chamada ATRA, de 2 de setembro a 4 de novembro de 1996. Trabalhei na Granja Rassi, a 25 quilômetros de Uberlândia, sentido Ituiutaba. Eu ia e voltava todos os dias, durante o período de 18 de novembro de 1996 a 17 de agosto de 1998. Depois, trabalhei na DRESTE Construtora Ltda., de 14 de agosto de 2000 a 26 de julho de 2002. Neste período, fiquei uns tempos em obras na cidade de Frutal, MG, e na Fazenda da Souza Cruz, no município de Prata, MG.

Em 1998 eu já estava aposentado, então, fiquei uns três anos trabalhando por conta própria: uma vez com Festas Agropecuárias, outra, com Sacolão de Verduras. Em 1.o de abril de 2005 voltei a trabalhar, desta vez na PAPELCAF, onde fiquei até 7 de março de 2006. Em abril deste ano, trabalhei novamente por conta própria, até o dia 2 de dezembro de 2008, quando voltei a trabalhar na empresa DRESTE, onde continuo até hoje.

Como você pode ver, neste meu relato, minha vida foi só trabalho, e até hoje faço isso, porque eu gosto de trabalhar. Meu tempo de contribuição com o INSS está próximo de completar cinquenta anos, e eu pretendo trabalhar por, no mínimo, mais oito anos.

Até os dias atuais sou casado com a mesma mulher: Terezinha de Souza Franco Muniz, e temos uma linda família: quatro filhos, sendo três mulheres e um homem, dez netos, sendo seis mulheres e quatro homens; todos sadios, graças ao bondoso e eterno Pai Celestial. Sou Mórmon, de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
 

Uberlândia, 7 de março de 2018.

 

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Assentados: Sebastião Inácio Muniz e Terezinha

Em pé: Elusca Helena, Cristian, Stfana e Loredana

 

 

Sebastião Inácio Muniz ao lado de seus netos.

E/D:

Atrás: Loran Lucas, Sebastião, Stéfany e Layssa.

À frente: Cristian Filho, Shélyta, Myrella, Rebeca, Helamã, Mayra e Lorenzo.


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