FAMÍLIA MUNIZ
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 


Prefácio
 

 

          Em 1989, lecionando na Escola Estadual Governador Israel Pinheiro de Ituiutaba, na 3.ª série do 2.º Grau, do período noturno, o melhor aluno da sala, em Língua Portuguesa, era um rapaz já meio maduro, casado, que fazia quinze anos que não frequentava a escola. No entanto, parecia que a interrupção tão demorada não fazia a mínima diferença em seu entusiasmo e em seu aprendizado, tal era o seu afã em aprender. Chamava-se Edson Angelo Muniz. Pois não é que virou escritor!? E que escritor!!

        Edson escolheu, ou foi escolhido pelo dom, um gênero de extrema dificuldade: a Genealogia. Dificuldade para o escritor e sobretudo para o leitor. Pelo menos era assim que eu pensava. Honrou-me com o convite para prefaciar o livro. Aceitei, por se tratar de um ex-aluno que sempre prezei, mas, confesso, sem nenhuma empolgação, pois me via obrigado a ler um baita calhamaço que, imaginava, era pura monotonia e chateação. Que engano! Comecei a lê-lo, do começo, do capítulo Um Pouco de Minha Vida. E já então me vi emocionado, amarrado às frases e à história do Edson. Mas a história do Edson é também a minha história, a sua história, a história de todo mundo. Por isso, é fabulosa. Por isso não permite que tiremos os olhos dela enquanto não a terminamos. Por isso, faz brotar uma tremenda saudade no peito, a saudade da infância, da adolescência, enfim, a saudade de nossa vida. Há uma identificação com todos. Há uma identificação com o universal. É a história da vida. É como o primeiro capítulo do Evangelho de São Mateus. É como o começo de um livro fabuloso — Negras Raízes, de Alex Haley — que registra a história dos negros e sua migração para os Estados Unidos e sua vida lá. Edson se fez um griot de primeira qualidade. Perguntará ele: será, mesmo?! Como, se a linguagem é simples, se a história é simples?! E eu digo: é por isso mesmo. A simplicidade é um valor extraordinário. O escritor simples é, por isso mesmo, extraordinário.

        Depois veio o capítulo Casos e Causos.

        Para quem tem raízes na roça, tendo lá nascido e sido criado, este capítulo é aquela sessão, à noitinha, em que um tio ou avô, vinha passar uma temporada na fazenda dos pais, e deliciava a todos com os casos que embeveciam e faziam sonhar a noite inteira, especialmente se, dentre eles, tinha história de capeta e outras assombrações.

        Edson Angelo Muniz é mestre neste gênero. O seu livro é uma revivescência daqueles tempos, daquelas histórias, daquelas vidas que já foram, mas ficaram na lembrança, na personalidade, no caráter, na vida de seus descendentes. Edson é o continuador, é a ponte entre um passado bem próximo e nós — o presente —, fazendo-nos viver momentos deliciosos de nossas raízes.

        Histórias sobre o jogo do truco retratam o seu lado bom, isto é, é um jogo que faz amigos, que consolida amizades. O mutirão era e, em alguns casos, felizmente ainda é, um espetáculo de solidariedade: trabalho e festa, partilha e alegria. Os casos das falhas da memória me fizeram gargalhar como há tempos não ria.

        Aí vem o lado histórico, científico, genealógico, da obra: as famílias, os aniversariantes, mês a mês, o álbum fotográfico; e, por último, muito da história de Ituiutaba. Trata-se de um precioso estudo, com detalhes, o registro de fatos e de pessoas, só aqui encontrados. É o resgate de nossa história. Santo Agostinho dizia que só se ama aquilo que se conhece. Tal máxima vale especialmente para pessoas, fatos, história. Conhecer a nossa história é nos instrumentarmos para melhor amá-la e, sobretudo, para diagnosticar nossa verdadeira vocação e nossos dons, a fim de melhor construirmos uma cidade mais humana e mais feliz.

        Edson Angelo Muniz revela-se um brilhante escritor, um paciente pesquisador e um ardoroso amante da vida. O seu livro é um tributo à vida, pois é o registro de sua história, através do registro genealógico de mais de mil famílias, que compõem os habitantes de uma boa parcela dos habitantes de Ituiutaba e da região.

        Livros como este, resultado de um trabalho de pesquisa séria, de décadas de estudos, precisam ter o apoio de todos, mas, sobretudo, precisam ser lidos e revividos.

        Ituiutaba, 16 de julho de 2002.

        Hélis  Ferreira  da  Silva
       
Professor de Português e Literatura Brasileira

 

Edson Angelo Muniz e Hélis Ferreira da Silva
 

(Foto tirada em 2013, na Biblioteca Municipal Senador Camilo Chaves, em Ituiutaba, MG)

 

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