SÃO JOSÉ DO TIJUCO

VILLA  PLATINA

ITUIUTABA

 

 


PADRE VITÓRIO ZANIN
 

 

Pe. Vitório nasceu em Piracicaba, SP aos 25 de novembro de 1914 . Entrou como aspirante em Rio Claro - SP aos 2 de junho de 1927. Iniciou o noviciado aos 14 de setembro de 1932 e professou aos 15 de setembro de 1933. Fez a profissão perpétua aos 26 de novembro de 1936. Foi mandado à Itália, juntamente com os colegas de classe para realizar os estudos de filosofia. Voltou ao Brasil para estudar teologia. Foi ordenado em Ribeirão Preto em 1940. Primeiramente foi diretor do seminário de Rio Claro até 1945; depois, pároco em Santa Cruz, do Rio de Janeiro por três anos. Passou os últimos três anos de vida por várias comunidades: Parada Inglesa (São Paulo, SP), Ribeirão Preto, SP,  Barretos, SP e Ituiutaba, MG. Foi professor, responsável por seminário e vigário. Calmo, sossegado, muito agradável. Sempre benquisto dentro e fora da Congregação. Simples e tranquilo nunca foi personalidade de destaque. Contudo, trabalhou muito. Sua morte foi serena como sua vida. Sofreu um mal súbito quando se levantou na manhã de 18 de setembro de 1951, e morreu poucas horas depois com edema pulmonar. Com apenas 37 anos foi o primeiro estigmatino brasileiro a passar para a eternidade. Está sepultado em Piracicaba, no jazigo da família.

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Fonte: http://falecidosdesetembro.blogspot.com.br

 

 

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IM  PERPETUAM  MEMORIAM

 

Escorço histórico de Ituiutaba como Paróquia


            Engastada qual pérola preciosa, neste recanto de Minas que é o Triângulo Mineiro, Ituiutaba, cidade industrial e progressista, celebra feericamente, circundada de glória, seu cinquentenário de fundação. São dez lustros de um passado penoso mas irrefreável. Não olvidaram os ascendentes, da lapidar expressão de S. Paulo Apóstolo quando afirma "virtus in infirmitate perficitur", isto é, conquista-se a virtude assim como a heroicidade, enfrentando, combatendo, pelejando, desde que essa luta vise a posse de um bem maior e racional. Ituiutaba, nos seus antepassados, debateu-se para o desbravamento das terras então incultas e inóspitas. Haja vista essas indefinidas distâncias que assoberbam o caminheiro, porquanto o triangulino não se deixa vencer; distâncias que a razão abrange pelas maiores medidas, como 7, 12, 14, 26, 39 léguas que o mineiro triangulino percorre para comunicar-se com seus comércios vizinhos. Isto que se dá entre um município e outro, hoje felizmente muito abreviado pelos múltiplos meios de comunicação, dá-se também dentro do próprio município de extensão tão grande quanto é grande e extensa a paróquia. É desta paróquia que pretendo falar, cujo governo espiritual pertence ao pároco, que por isso mesmo deve ser legitimamente jurisdicionado.

É só entabular conversa com nossos paroquianos, quando religiosa e conscienciosamente procuram a igreja-mãe. Aí veem eles a fim de desempenharem-se de seus deveres e direitos religiosos, quer seja para os batizados, casamentos, comunhões, ou mesmo para rezar. Nessas afáveis conversas descobre-se que a distância, assim como a pobreza, não é um fator destrutivo da Fé católica, pelo contrário, só pode robustecer, pois já o disse S. Paulo, a virtude se fortalece na dificuldade.

Senhor vigário, — ouço de frequente repetir — acabei de chegar agorinha...  a  condução  atrasou... — Mas por favor, de onde vem, meu velho? — Da Cachoeira, Sr. Vigário, ou então: do Ipiaçu, do Buracão; o que significa: 13, 16, 20 léguas de distância. Fé admirável! Pois sim, Sr. Vigário, viemos fazer a nossa comunhão, nossa desobrigação de Páscoa. Vê-se então uma família inteira, pais, filhos, moças, moços, que não desdenham em deixar por um ou dois dias a casa na solidão da mata, suas rezes ao cuidado do vizinho, para confirmar, dentro da religião bem vivida, a prática de uma existência íntegra, honesta, virtuosa, que progrediu da infância para a mocidade, da juventude para a virilidade, até amadurecer na união indissolúvel e pacífica de esposos e pais exemplares. Essa mesma fé e honestidade quase sempre encontra o Padre, quando é ele, como pastor e sacerdote, que visita essas ovelhas tão dispersas no extensíssimo território da paróquia, numa área de 9.123 quilômetros quadrados. Dentro dessa área tão grande mourejam as 53 mil almas na sua quase totalidade católica. A pequena porção restante, dividida em seitas, tateando aqui e acolá à luz bruxuleante de uma fé incerta, não percebeu ainda o arrebol luminoso, o lado em que nasce o sol.

A maioria católica se manifesta praticante da religião, apesar que o conhecimento da mesma doutrina da igreja não alcance um grau tão elevado como fora de mister. Essa cultura da doutrina deixa a desejar. Contudo, cada lar católico bem formado é uma escola de religião, existindo, portanto, na paróquia, perto de dez mil núcleos de ensino religioso, desde que a educação vem do ambiente familiar. Esse ensino prossegue, ritmicamente, nas escolas e estabelecimentos de ensino, assecundando a tradição cristã e os desejos das famílias. Contudo, dos nove estabelecimentos, dois aberram por uma orientação anticristã, e dois não o adotam em suas aulas. Os demais, assim como todas as escolas rurais, integram-se pelo dever primordial e base de toda a educação, adotando o ensino religioso.

As famílias reunidas num mesmo local começam por formar os arraiais, bairros e vilas, e quando unidas pela mesma Fé, constroem a casa de Deus, onde querem prestar-lhe um culto público e digno da majestade divina. Daí as igrejas paroquiais e capelas. Existem pois na paróquia:  uma  igreja  Matriz  titular: S. José; duas igrejas comuns: Matriz e Abadia; três capelas curadoras: a de N. S. da Abadia, S. Pedro, em Capinópolis, e São Jerônimo, em Gurinhatã; cinco capelas comuns públicas: Abadia, Capinópolis, Gurinhatã, Hospital de S. José e Escola de Sta. Teresa; seis capelas particulares: S. Lourenço, S. João (na Grama), N. S. Aparecida (no Ipiaçu), Fazenda do Conceição Barbosa, N. S. do Rosário (no Córrego da Lagoa) e no Arantes. Essas capelas são, pelo Vigário, mais vezes visitadas por ano, cada qual celebrando a festa religiosa de seu padroeiro, presidida pelo Padre, com novenas, missas e procissões.

Sob o alto e poderoso patrocínio de S. José, padroeiro da paróquia e orago da Igreja Matriz, e com a intercessão certa de N. S. da Abadia, cuja festa é celebrada aos 15 de agosto, no dia da Assunção, trabalha nesta paróquia a Congregação dos Padres Estigmatinos. A Congregação empenha atualmente na paróquia seis dos seus membros, sendo, cinco, sacerdotes, que dirigem também o Ginásio de S. José. É de se notar a sempre crescente espiritualidade a par do progresso geral da cidade.

Quando Ituiutaba alcançou foros de cidade, já possuía templo católico, construído pelo Pe. Antonio Dias de Gouveia, aqui chegado aos 1820, em frente a um magote de sertanistas, garimpeiros talvez. De 1828, esse arraial das margens do Tijuco, aos poucos foi se estabelecendo, até 1848. Foi então que começou a existir como paróquia, ficando submissa a Goiás. Teve por vigário o Pe. José Gomes Lima. Mas continuou recebendo uma assistência incompleta até 1883, quando da chegada do Cônego Angelo Tardio Bruno. Esse sacerdote, de provada memória, no seu longo exercício paroquial de 34 anos, isto é, até 1917, remodelou o templo, organizou o arquivo, e visitou, só Deus o sabe como, toda a paróquia.

Com a criação da  Diocese de Uberaba, em 1907, sendo o primeiro bispo D. Eduardo e Silva, Ituiutaba ficou pertencendo a esta nova diocese do Triângulo Mineiro. De outubro de 1917 a fevereiro de 1926, o Pe. Augusto Monteiro, por nove anos contínuos, prosseguiu no mesmo apostolado de seu antecessor. De 1926 a junho de 1931, ficou vigário o Pe. José Magalhães, por espaço de sete anos. De junho de 1931 a junho de 1932, veio o Pe.  Cristóvam Porfírio. De junho do ano de 1932 a fevereiro de 1935, tomou posse o Pe. Antonio Cerbela. Foi o último dos padres seculares, pois em fevereiro de 1932, sob o governo diocesano de D. Luis Maria Sant'Ana, a paróquia passou "in perpetuum et jure pleno" à Congregação Religiosa dos Padres Estigmatinos, tendo tido por vigários o Pe. José Tondim, o Pe. Fortunato Moreli, o Pe. João Avi, e o subscrito Pe. Vitório Zanin, que vem guiando os passos já bem acelerados, firmes e resolutos dessa entidade que amadureceu para a vida e que deseja colher os frutos de seu trabalho.

Assim que desapareceu em cinzas a velha igreja de madeira, na fatal ocorrência de 1.º de novembro de 1938, os católicos, sempre crescentes e arrojados, mostraram o ardor de sua fé, na bravura com que levantaram a Deus essa obra arquitetônica civil-religiosa-monumental dentro das leis do útil e do belo; essa Igreja Matriz que é, como se exprimiu alguém, um dos templos mais majestosos de Minas. Nisto devemos com muita justiça salientar o nome do Pe. Fortunato Moreli, que ideou e começou a obra, juntamente com o nome do Pe. João Avi, que incansavelmente continuou seguindo o mesmo plano, e deixando nesta cidade a lembrança de seu trabalho. Disse precisamente com justiça porquanto também do lado econômico, cuja registração foi pontualmente e escrupulosamente exarada em atas no que se refere às obras da igreja. De 1938 a 1945, houve uma despesa, só em material, de C$r 167.236,50. E de 1945 a 1951, de C$r 245.940,00. Em mão-de-obra, durante os 13 anos, a despesa foi de C$r 250.000,00. Total despendido na igreja: 663.880,00 cruzeiros. Essa cifra, digamos, representa apenas a metade do que vale a obra, sendo a outra metade arrecadada entre os donativos e ofertas através do trabalho e zelo dos mencionados padres. Quanto à fábrica da igreja, isto é, de toda a paróquia, foi efetuada, respectivamente, discriminando entre Igreja Matriz, Gurinhatã, Capinópolis, Abadia, Grama e Cúria Diocesana, até o presente 1951, uma receita de 667.125,00; sendo as despesas 606.289,00.

Admira-se Ituiutaba com o desenvolvimento de seu comércio, com o crescimento de sua indústria, com sua pecuária invejável em bovinos, milhares de suínos, e com suas quedas de água, suas rendas municipais, seus produtos agrícolas... Eu cá, no meu modo de ver, sem desprezar o que existe de bom, acho coisas melhores, mais nobres, mais elevadas, e são essas: de mil novecentos e trinta e dois, ano em que a Congregação tomou posse da paróquia, até hoje, nesses dezesseis anos, se a cidade cresceu em população, indústria e comércio do grau 3.º ao 15.º, subiu também espiritualmente do 0.º, como atestam ainda atualmente, ao 45.º grau. Logo a ascensão é de quatro vezes mais alta. E como prova, aí estão as 45.000 comunhões anuais, fator este preponderante na vida de uma paróquia, pois é nisto que se distingue, antes de mais nada, a altura de sua posição moral, isto é: comunhões e porcentagem de assistentes à missa dominical. Oxalá se conserve esse nível de catolicidade, constituindo-se entre as mais florentes do Triângulo Mineiro.

São celebradas na paróquia, anualmente, duas mil missas pela intenção dos fiéis; quinhentas destas são celebradas fora dos templos; são santificados anualmente duas mil e duzentas crianças pelo sacramento do batismo; santificados sacramentalmente pelo matrimônio quatrocentos casamentos. As primeiras comunhões elevam-se anualmente a mais de trezentas, com muita distinção das escolas e capelas rurais, onde se ensina com empenho o catecismo; zona essa visitada pelo padre ao menos umas cem vezes ao ano. Os enfermos são visitados e sacramentados, sendo raros os que se extinguem sem os confortos da religião; foram registradas setenta extrema-unções no ano passado e sessenta encomendações de falecidos.

Quanto ao campo florido das Associações Religiosas, em que germinam as flores eucarísticas, são quatro: o Apostolado da Oração, a Confraria do SS. Rosário, a Pia União das Filhas de Maria, para as mulheres; a Congregação Mariana, para os moços; havendo mais a Cruzada Eucarística, para as crianças; e a Conferência de S. Vicente, para os homens, esta tão benemérita na sociedade pelo incalculável bem material e moral a ela proporcionado em socorro à pobreza local e de maneira bem disciplinada. Socorrem-se, diariamente, por distribuição semanal, 50 famílias indigentes, excluindo o dispensário do natal dos pobres e a beneficência do Hospital de S. José. Esse jardim todo, onde as flores mimosas da virtude desabrocham vivas e perfumadas, em obras sumidas pela humilde caridade, esse jardim primoroso da igreja de Deus é continuamente regado com prodigalidade pela Ação Católica.

Para aureolar essa coroa preciosa da igreja, aí está, já carregada de frutos opimos, a frondosa árvore que é o Instituto das Irmãs Missionárias de S. Carlos. Desempenham sua atividade na Escola de Sta. Teresa desde 1939, dando à Pátria e à Igreja donzelas instruídas e integralmente armadas, futuras mães de famílias e donas de casa que se respeitam pela integridade dos costumes e responsabilidade  de sua condição social.

[...] * "In perpetuam memoriam", este breve mas real resumo do movimento paroquial, e saúdo os meus diletos paroquianos em meu próprio nome, em nome dos revmos. padres que ao meu lado labutam, em nome dos revmos. vigários que serviram Ituiutaba, desejando a todo o povo da paróquia, Paz, Felicidade, união na Fé, prosperidade, e como remate, o Reino Glorioso dos Céus.

 

Pe. Vitório Zanin da Congregação dos Padres Estigmatinos

Vigário

 

Ituiutaba, setembro de 1951.

 

* Não foi possível transcrever na íntegra esta linha por estar o original danificado.

 

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Fonte: Arquivos da Diocese de Ituiutaba — Livro Tombo da Matriz de São José N.º 3.
 

 

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Página atualizada em 13 de junho de 2012.

 

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