FAMÍLIA ANGELO
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 


JOÃO ANGELO DE OLIVEIRA
 

 

 

 


A Saga de Neinho

 

 

        João Angelo de Oliveira, Neinho — ou Neinho Padeiro, como outros o chamavam —, meu pai, nasceu em 1931, na Fazenda Café, no município de Ituiutaba. Ele era o filho do meio dos cinco filhos de Francisco Gonçalves Angelo, o Vovô Nenê Padeiro, e de Perciliana Maria de Oliveira, a Vovó Nêga.
        Desde pequeno Neinho já mostrava o quanto era inteligente. Com três aninhos, ele estava brincando perto do Vovô João Teixeira, pai da Vovó Lena, que estava ali ajudando o Nenê Padeiro na construção de um carro de boi, e encontrou, no chão, um macete de carpinteiro, que pertencia ao João Teixeira. O macete estava sem o cabo e o Neinho, curioso, enfiou um dedo no buraco onde ficava o cabo e ficou com o dedo entalado. O Vovô Teixeira ficou olhando para ver o que o menino iria fazer. Neinho puxou o macete com a outra mão, mas não conseguiu desentalar o dedo. Então, ele se sentou no chão e colocou os dois pezinhos no macete, puxando com as duas mãos, conseguindo, desta vez, livrar o dedo preso. Vovô Teixeira sorriu, e pensou: "Esse menino é inteligente, e vai ser um bom carapina."
        E Neinho, bem depressa aprendeu, com seu pai, as habilidades de carpinteiro. Aos nove anos, nos mutirões de fiandeiras da região da Fazenda Santa Bárbara, ele consertava as rodas de fiar: trocava as correias de transmissão, o cordel e o pedal, arrumava a bolandeira — a roda propriamente dita —, as virgens — braços paralelos onde se fixa a bolandeira —, o carretel e o fuso, e executava outros reparos.
        Daí a fazer carros de bois foi um pulo. Enquanto o seu pai fazia os carros grandes, os que eram puxados por bois, Neinho ia aprendendo a fazer carros pequenos, numa réplica perfeita, que eram puxados por cabritos e carneiros. E assim, desde a tenra idade, ele foi fazendo o seu pé-de-meia. Tudo isso, sem esquecer a escola. Ele estudou na roça, até completar o quarto ano primário. Alguns amigos do Vovô lhe diziam: “Seu Nenê, o menino Neinho é muito inteligente. Mande ele pra um colégio, na cidade, que ele vira um Dotô, sô!” Mas o Vovô Nenê Padeiro não teve condições financeiras para dar esse “luxo” ao seu filho, nem teve coragem de deixar que ele fosse embora com um paulista, cheio da nota, que queria levá-lo para São Paulo “para estudar e ser um engenheiro afamado”.

        O Senhor Alfredo Camargo Muniz, o Professor Alfredinho, que fora contratado pelo Vovô Nenê para ensinar seus filhos e outros moradores da região, numa sala de aula que funcionava na casa do Vovô, na Fazenda Santa Bárbara, chegou para o Vovô e disse: “Seu Nenê, o seu filho Neinho já aprendeu tudo, eu não tenho mais nada para ensinar a ele.”
        Meu pai se tornara um grande matemático: fazia contas para toda a família e para os vizinhos, desde uma simples continha de somar, subtrair, multiplicar ou dividir até um complicado cálculo de área de terras. A gleba podia ter qualquer formato que, em pouco tempo, os cálculos estavam prontos e corretos.
        Na juventude, Neinho engordou o seu pé-de-meia ora trabalhando para os fazendeiros da região, ajudando o Vovô na construção de casas e currais, ora fazendo carros de cabritos sob encomenda, ora construindo “abanadeiras de arroz” — que ele mesmo inventara, aproveitando tábuas de caixotes que vinham protegendo as latas de querosene. E comprou uma sanfona oito baixos, uma máquina fotográfica Kodak e uma motocicleta Zundap, toda preta. Quando ele chegava aos pagodes, acelerando o seu "motor" — como ele mesmo o chamava —, e usando uma japona de couro, também preta, as moçoilas suspiravam e sussurravam: “O Neinho está chegando! O Neinho está chegando!...”
        Dizem que ele era tão invocado com o seu motor, o único da região, que quando ia conversar com alguma garota, e o assunto tava meio difícil, o meu pai dizia: "Oh! Quando eu estou em cima do meu Zundap: bruuuuuuummm!...", e fazia movimentos com a mão direita, como se estive acelerando sua motocicleta.

 


        Na foto acima meu pai já estava com vinte anos. Ele aprendeu a tocar pé-de-bode com o meu avô Nenê Padeiro, depois comprou o acordeom que aparece nesta foto, e que aprendeu a tocar sozinho. Deles herdei o dom de tocar violão e viola, cantar e de ser apaixonado pela música sertaneja raiz.
        Minha mãe me disse um dia: “Quando seu pai abria a sua sanfona de oito baixos, ninguém ficava parado, pois ele era um excelente tocador, assim como seu avô Nenê Padeiro. Onde eles tocavam, o baile se estendia até o nascer do Sol.”
        Meu pai contava que certa vez, ao tocar em um pagode, a Dorcina, minha mãe, moça bonita, filha do Nenê Muniz, e minha Tia Lazica, irmã do meu pai, ficaram com muita raiva dele porque, quando elas dançavam com um rapaz bem-apessoado e bom dançador, o toque era bem curtinho; porém, quando elas saíam para dançar com um rapaz feio, ou com um que não dançava nada, só pisava nos calos, ou, pior, com um bêbado, então ele tocava... tocava... Tocava sem parar. E ficava rindo do desespero delas, que passavam por ele fechando os punhos, torcendo a boca e rangendo os dentes.
        Os dias foram passando, os bailes se sucedendo e o Neinho foi se enamorando pela Dorcina, até que um dia, enchendo-se de coragem, foi falar em casamento. Contam os mais antigos que o meu avô materno, Nenê Muniz, não queria que aquela união se concretizasse.
        Neinho chegou à casa da Dorcina, na Fazenda Santa Bárbara, às margens do Rio da Prata, montado em seu "motor" e acompanhado por seu pai. Na sala, ele disse aos pais da moça:
        — Seu Nenê, Dona Helena, eu estou gostando de sua filha, a Dorcina, e eu quero seu consentimento para namorar, noivar e me casar com ela.
        — Você não tem condições de tratar de uma família, Neinho, só vive nos pagodes... Nunca plantou uma roça... — disse o Vovô Nenê Muniz.
        — Mas eu sou carpinteiro profissional, Seu Nenê, e tenho uma sanfona, um "motor", uma Kodak, algumas economias... Não fumo, não bebo, não jogo, tenho muita saúde e sou um rapaz honesto e trabalhador. Os pagodes são apenas para me divertir. Minhas intenções em relação a sua filha são as melhores possíveis. E ela vai ter uma vida de rainha, casando comigo...
        O João Teixeira, avô materno da Dorcina, que também estava na sala, filosofou:
        — Quando o peido é muito grande é sinal de pouca bosta!...
        Porém, sem dar bola para as palavras do Vovô João Teixeira e lutando contra o impedimento que o seu futuro sogro fez ao namoro-noivado-casamento, meu pai seguiu em frente em seu intento: namorou, noivou e se casou com Dorcina Muniz de Oliveira, minha mãe, que sempre o amou... Foi uma cerimônia simples, celebrada pelo Padre João Avi, na Igreja Matriz de São José, em Ituiutaba, no ano de 1953. Ao saírem da igreja, Dorcina disse ao seu esposo:
        — Neinho, vamos passar no Foto Studio, ali na Rua 20 com a Avenida 13, e tirar uma fotografia, como lembrança do nosso casamento?

        Meu pai, muito sério, não quis saber de foto. Quando entraram no táxi, ordenou ao motorista:
        — Seu Zé, toca direto pra Pensão Severino, na Vila Platina.
        Toda vez que folheávamos o livro "Família Muniz", também de minha autoria, eu via nos olhinhos de minha mãe uma pontinha de tristeza porque, dentre todas as filhas do Nenê Muniz só ela não tem a foto de casamento estampada nas páginas do livro. Mas isso não impediu que meus pais fossem felizes, até que a morte os separasse...

        O início da vida a dois foi muito difícil para eles. Meu pai construiu uma pequena casa, na Vila Natal. Enquanto minha mãe cuidava da casa, ele, pedalando sua bicicleta, saía para trabalhar de carpinteiro, ajudando a fazer o madeiramento de muitas casas e barracões de Ituiutaba. Alguns deles ainda resistem ao tempo, como, por exemplo, o imponente prédio do inesquecível Cine Capitólio, na Rua 20. Às vezes, meu pai nem ia almoçar e isso o levou a fumar... “Eu fumava para matar a fome!”, ele me confessou certa vez. Mal sabia que estava era se matando...
        Em 1954, em Ituiutaba, nasceu a primogênita: Ednair Ângela Muniz.
        Em 1956, na mesma cidade, veio ao mundo o segundo filho: Edson Angelo Muniz — eu.
        Em 1958, meu pai e minha mãe voltaram para a Fazenda Santa Bárbara, e fomos morar na casa do Tio Guilherme, irmão do Vovô Nenê Muniz, local onde nasceu o terceiro filho: Edilson José Muniz. Nesse mesmo ano, à margem esquerda do Rio da Prata, meu pai construiu um ranchinho beira-chão, onde moramos por alguns meses. Nesse local ele construiu a "balsa de baixo", toda de madeira. À direita da foto abaixo vemos a figura de um homem que não é outro senão o Neinho, em cima de sua obra-prima...

 

 

        Depois que terminou de construir essa balsa, meu pai foi contratado pelo Senhor Afábio, fazendeiro abastado, dono de terras no Campo Alegre, para construir outra balsa, no mesmo rio. Para tanto, nos mudamos um pouco mais para cima, perto da "Ponte do Meio", onde papai ergueu a nossa casa, feita com casqueiros de aroeira. Na parte da frente, ele montou uma venda, onde vendia de tudo. Para navegar nas águas claras do rio, fez essa canoa que aparece na foto ao lado, sobre a qual Neinho empunha um varejão.

 

 

        Em 1958, com a chamada “Enchente de São José”, a ponte do meio, toda de madeira, foi por água abaixo — assim como todas as pontes sobre o Rio da Prata e Rio Tijuco. Meu pai, usando mais uma vez as suas habilidades de carpinteiro e de engenheiro sem diploma, concluiu a "Balsa de Cima". Esta balsa servia para que animais, pessoas, carros, ônibus e caminhões — estes últimos, às vezes, transportando sacas de arroz para Ituiutaba, a então "Capital brasileira do arroz" — pudessem atravessar o caudaloso Rio da Prata.
        Em 1960, às margens desse que foi o rio de nossas vidas, nasceu a caçulinha da família, Ednazir Angela Muniz.

 

 

       

        Na foto ao lado vemos a balsa de cima — e as três canoas de ferro, adquiridas pelo Senhor Afábio —, e, sobre ela, a Ednair, o Edilson, eu e o Joanir — um amigo de nossa família que trabalhava na balsa, junto com meu pai.
        Depois, como sempre acontece com a maioria dos sertanejos, Neinho se mudou com a família para a cidade de Ituiutaba, onde, “para não deixar faltar nada pros filhinhos”, nem no plano material nem no educacional, trabalhou muito: foi dono de armazém — na esquina da Avenida 25 com a Rua 10 —, mas vendeu o estabelecimento; comprou caminhão, vendeu caminhão; comprou perua, vendeu perua; comprou um ônibus Chevrolet "Marta Rocha"; comprou um ônibus cara-chata, da marca FNM — “Fenemê”, ele nos dizia —; foi motorista de caminhão e de ônibus; foi mecânico; construiu uma draga de sucção para extrair areia do Córrego São Vicente e do Rio Tijuco; montou uma carvoeira, onde ele mesmo, com a ajuda de seu filho, Edilson, erguia, enchia e esvaziava os fornos (na foto abaixo, da esquerda para a direita, vemos o Neinho, o Galego e o Edilson); foi feirante; dono de horta e, por último, dono de um bar, na Vila Natal, em Ituiutaba, onde Neinho trabalhou até morrer.

 

 

        Não sei bem explicar porquê, mas todo empreendimento que meu pai iniciava, não ia pra frente; dava, sim, e graças a Deus, para o sustento da família, e para o Velho Neinho isso era o bastante, mas os seus negócios não prosperavam.
        Em 1966, Neinho voltou a trabalhar de motorista de ônibus, na Empresa Rápido Triângulo, no itinerário Ituiutaba-Cachoeira Dourada de Minas, onde ele pernoitava para voltar na manhã seguinte.
        Nessa época, nos mudamos para Cachoeira Dourada, onde vi, pela primeira e única vez, o meu pai tocar um pé-de-bode. Era noite de lua cheia. Eu já estava deitado quando ouvi o som de uma sanfona, bem pertinho. Levantei-me e perguntei para a minha mãe:
        — Mãe, quem está tocando sanfona?...
        E ela, com um sorriso dos mais lindos, disse-me:
        — Vá lá fora, meu filho, na rua, pra você ver quem é o sanfoneiro...
        Saí correndo, descalço, e vi meu pai, na calçada, rodeado por várias pessoas que, atentamente, o escutavam tocar a música “Luar do sertão” (Catulo da Paixão Cearense)... Eu fiquei embevecido, mas não entendia por que nunca havia visto meu pai tocar sanfona antes daquela noite. Só alguns anos mais tarde é que vim a saber, por minha mãe, que ela e meu pai haviam feito um pacto antes de se casarem: “Eu não toco mais sanfona, Dorcina, mas, em compensação, você não dança mais com homem nenhum...”, dissera meu pai. Dito e feito... Mesmo depois da morte do meu pai, minha mãe não dançava com outros homens — a não ser com seus filhos e seus irmãos.
        Estávamos bem instalados em Cachoeira Dourada, cidade pequena, mas hospitaleira. No entanto, meu pai nunca se habituou a receber ordens. Pediu demissão e comprou, da mesma empresa onde trabalhara, o ônibus Chevrolet, com o número 44 pintado em sua lataria. E foi com ele que o Neinho se transformou em um dos desbravadores das linhas de transporte de passageiros em Ituiutaba e região. Então, voltamos a morar em minha cidade natal.
        Em 1967, Neinho iniciou suas linhas de ônibus rumo às fazendas Campo Alegre e Santos Fortes, no município de Gurinhatã, MG, onde pernoitava, para retornar a Ituiutaba no outro dia, com a jardineira lotada de passageiros. Depois, abriu a linha para as Fazendas São Lourenço e Santa Rita, com ponto final na Fazenda Campeira, do Senhor João Quirino Silveira e Dona Olívia Vilela Silveira, no município de Prata, MG.
        Em 1970, Neinho começou outra linha, de Ituiutaba até a Fazenda Douradinho, também no município de Prata, ali pernoitando e, no outro dia, seguia da Fazenda Douradinho até a cidade de Prata, voltando à tarde para a mesma fazenda. O ponto final e o ponto de apoio de meu pai, era na Fazenda Lagoinha, região do Douradinho, de propriedade do Senhor Agnaldo Vilela Junqueira e Dona Alice Vilela dos Reis Junqueira, avós do Dr. Cláudio Caly Vilela Junqueira, oftalmologista em Ituiutaba, que naquela época, menino ainda, quando estava de férias, ia para a fazenda de seus avós na jardineira do Neinho.
        Diga-se, de passagem, que eu, quando de minhas férias escolares, fazia as vezes de cobrador na jardineira, e adorava viajar com meu pai. Numa dessas viagens, com ponto final na Fazenda Campeira, eu fui com ele. Eu devia ter uns quinze anos. Quando chegamos, fomos recebidos, com muita alegria, pelo senhor João Quirino. Entramos em sua casa e eu fiquei conhecendo sua esposa e uma de suas filhas, uma “moreninha linda”. Na sala, conversamos muito, somente os homens, e ouvimos o fazendeiro contar histórias da fazenda e de sua vida. Depois, passamos para a cozinha e jantamos. Meu pai e o senhor João Quirino tiveram mais um dedinho de prosa, agora com a presença das mulheres. Eu só ouvia. Bebemos leite morno com farinha de milho, adoçado com açúcar mascavo. E chegou a hora de dormir. Qual não foi o meu espanto quando o senhor João Quirino chama pela menina e lhe pede: “Filha, traz a bacia e a toalha para o Seu Neinho e seu filho lavarem os pés antes de deitar!” A menina, graciosa e humildemente, trouxe uma bacia com água morna para meu pai e outra para mim, e uma toalha tão branca que até fiquei com vergonha de enxugar meus pés encardidos nela. Essa cena nunca se apagou de minha memória. Não voltei mais à Fazenda Campeira com o meu pai, e nunca mais vi aquela menina meiga e graciosa. Em setembro de 2009, voltei à Fazenda Campeira, onde morava o Gilmar Quirino, neto do Senhor João Quirino.
        Muitas eram as dificuldades da empresa de transportes do Neinho, mas ele não esmorecia. Nas estradas de terra, enfrentava atoleiros, serras íngremes, pontilhões em péssimo estado de conservação; às vezes, precisava abrir passagens com um enxadão, outras vezes enfrentava problemas mecânicos nas jardineiras, os quais ele mesmo consertava, mas sempre chegava ao seu destino, transportando seus passageiros com muita segurança, respeito e amabilidade. Na cidade, enfrentava a burocracia, pois os fiscais da prefeitura diziam que o seu ônibus era muito velho e não oferecia condições de transportar ninguém com segurança e coisa e tal, e, por isso, o impediam de estacionar o 44 na rodoviária — que naquela época se localizava na Avenida 25, entre as ruas 24 e 26 —, que também era velha e ultrapassada. Justo ele que tinha dado condições de viagem, a custo baixo, a muitas pessoas que só vinham à cidade a pé, a cavalo ou em cima de latões de leite; justo ele que desbravara sertões com as suas jardineiras velhas.
        Em suas jardineiras, Neinho transportava de tudo: galinhas, porcos, cabritos, latões de leite, cachos de banana, grades com ovos — grades projetadas e construídas por ele também, de madeira e arame —, e toda sorte de mercadorias que os seus passageiros quisessem e pudessem trazer na viagem. Todos tinham muito respeito e admiração pelo “Seu Neinho”.
        Os “ônibus do Neinho”, como eram conhecidos, já tiveram muitos nomes: “Viação Santos Fortes”, “Viação FransPerc” (este em homenagem aos meus avós paternos: Francisco e Perciliana — Família 005), “Viação Santa Rita”, “Viação Douradinho” e, por último, “Viação Satélite Andradina”.

 

Ônibus que o meu pai, carinhosamente, chamava de "O 44"

       

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        Existem várias histórias em torno dos Ônibus do Neinho, umas verídicas, outras inventadas. Duas delas, verídicas, foram publicada no meu livro Família Angelo - Tronco do Triângulo Mineiro: uma relatada pelo Tomezinho e outra relatada por Albéres Augustinho Ribeiro; e uma, inventada por meus colegas da gráfica Egil, vou relatar abaixo:

        "Num domingo ensolarado, o Ônibus 44, choferado pelo Seu Neinho, saiu da rodoviária de Ituiutaba, às 15 horas, e seguiu rumo à Fazenda Douradinho. Subindo pela Rua 24, ainda no cascalho, ganhou a velha estrada do São Vicente.
        Ao passar perto da serra do corpo-seco, o Seu Neinho avistou um senhor, já de idade, que caminhava lentamente pela estrada, seguindo na mesma direção, arqueado pelo peso de um saco que levava às costas. Ele parou o 44 perto do homem, abriu a porta e lhe disse:
        — Vamos, Seu Zé, suba aqui?
        O velho, sem descer o saco das costas, se vira para o sorridente motorista e responde:
        — Hoje não, Seu Neinho, eu tô com muita pressa..."

 

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        E foi assim que meu pai, o Neinho, sem pressa, sem magoar ninguém, sem desonestidade, sem ganância, escreveu nas páginas do livro da vida a sua história, uma história permeada de muito amor, de muita garra e de muita luta, com o objetivo de sustentar e assegurar um futuro melhor para a Dorcina, sua Rainha, e para seus filhos amados.
        O velho Ônibus 44 “morreu”, enferrujado, em um dos bairros de Ituiutaba. O velho Neinho morreu, nesta mesma cidade, aos 65 anos de idade, trabalhando, vitimado pelo cigarro: enfisema pulmonar. Mas suas histórias, que se entrelaçam, não morrerão jamais.

 

 

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* Leia histórias sobre o corpo-seco no livro Miryam ou flor de manacá, de Ednair Ângela Muniz — a filha primogênita do Neinho —, e no livro O corpo-seco, de Luciano Vilela Teodoro.

** Esta crônica foi publicada pela primeira vez no "Caderno Especial — Personagens Históricos", da Revista Projeção N.º 17, de 2008, editada pelo Jornalista Flávio Eurípedes de Oliveira; e, depois, no meu livro Família Angelo - Tronco do Triângulo Mineiro, lançado em julho de 2015.

 

 

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