SÃO  JOSÉ  DO  TIJUCO

VILLA  PLATINA

ITUIUTABA

 


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IGREJA MATRIZ DE SÃO JOSÉ

(atual Catedral de São José)

 

        A história de Ituiutaba está entrelaçada à história da Igreja Matriz de São José.

        Em 1820 foi iniciada a construção de uma rústica igreja, num patrimônio adrede, doado para esse fim. Em breve tempo, no lugar denominado Córrego Sujo, surgiu uma modesta capela denominada "São José do Tijuco", cujo fundador foi o Pe. Antonio Dias de Gouveia

        Em 1839, estava concluída a segunda Capela de São José. E foi à sua volta que o povoado começou a se expandir. As palhoças eram construídas desordenadamente, aqui e ali, desde as margens do Córrego Sujo, até atingir o alto do espigão onde foi construída a capela. De momento para outro, houve a transferência do vilarejo para a margem direita do Córrego Pirapitinga, por ser a água deste córrego mais limpa e melhor para a serventia. As primeiras casas foram levantadas com esteios de aroeira e cobertas de telhas comuns.

       

        O território para patrimônio da igreja foi doado por dois fiéis: o senhor Joaquim Antônio de Morais e José da Silva Ramos, de terrenos com uma légua e meia de Leste para Oeste e Sul a Norte, nas fazendas que se denominaram do Carmo e de São Lourenço.
        Em 27 de abril de 1854 (Lei n.º 668) foi instalada a Vila do Prata do Imperador e a região de São José do Tijuco passou a fazer parte da nova Vila.

 

Segunda Igreja de São José do Tijuco (1842-1862)
(Foto: Arquivo do Foto Studio Maia - Rua 20)

 


       A Freguesia de São José do Tijuco foi elevada à categoria de Paróquia Eclesiástica em 1860. Sua superfície era de 10.250Km2, tendo, na época, 5.800 casas habitadas, com uma média de 5.000 habitantes.

       Em 1862, foi concluída a edificação da Matriz de São José, coberta de telhas, com José Martins Ferreira e José Flausino Ribeiro à testa  do povo. O primeiro Capelão foi o Pe. Francisco de Salles Souza Fleury; o segundo, Pe. Seraphim José da Silva, e o terceiro, o Pe. Fortunato Alves Pedrosa de Rezende.  

       A Paróquia de São José do Tijuco foi criada por Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo, em 7 de novembro de 1866 (no livro N.º 1 do Tombo da Igreja Matriz de São José, consta o ano de 1967), tendo sido o primeiro Vigário o Pe. Fortunato Alves Pedrosa de Rezende. O segundo Vigário foi o Pe. Manoel Esteves Belanzoela Lyra. O terceiro foi o Pe. Tristão Carneiro de Mendonça.

        Em 1883, chegou ao povoado o Cônego Ângelo Tardio Bruno. Neste ano, o senhor Manoel Vilela de Andrade era o tesoureiro da Paróquia, o senhor Antonio Pedro Guimarães era o procurador e o senhor José Antonio Januzzi era o zelador da igreja (mais tarde, José Januzzi aparece como escrivão interino). Pe. Ângelo veio de Nápoles (Itália) e foi ele quem fez o traçado das ruas de ltuiutaba. Cônego Angelo foi Juiz de Paz, ergueu a Capela da Abadia e fundou um colégio do qual foi diretor. Ele foi o quarto Vigário da Paróquia de São José, e permaneceu no cargo de 1883 a 1919.

 

— 25/12/1927 —
Procissão após a 1.ª Missa do Padre Orlando Chaves na Igreja Matriz de São José.
(Foto extraída da Revista "Páginas da Semana" - Especial 91 anos de Ituiutaba)

 

 


— 24/01/1929 — Largo da Matriz - Igreja Matriz de São José
Nesta foto podemos ver à esquerda (rua 20 esq. com avenida 7), o casarão de Manoel Vilela de Andrade (Neco Vilela),

— conhecido pelos mais novos como "Casarão dos Carvalho" por ter sido adquirido pela Paróquia de São José

do Coronel Adelino de Oliveira Carvalho —, que foi construído durante a geada de 1870, onde seria instalado o

Colégio Santa Teresa, em 1939.

A foto, sob a objetiva de Horácio Paula Siqueira, registrou o casamento de

Conceição Franco Barbosa e Alice Chaves. Ele, filho de Vicente Martins Franco e Jacinta Barbosa Franco.
Ela, filha de Pedro Rodrigues Chaves e Maria do Carmo Amaral Chaves (Lilia)
(Foto: Arquivo do Foto Studio Maia - Rua 20)

 

 

Igreja Matriz de São José, Largo da Matriz e o antigo cruzeiro — 1929
(Foto: Arquivo do Foto Studio Maia)

 

       Texto extraído do Livro Tombo da Matriz de São José N.º 3: "Dia 31 de outubro - 9.15 (21.15) da noite, primeiro sinal de incêndio, que em poucos minutos propagou-se e destruiu a Matriz e o seu patrimônio de Imagens Sagradas Paramentos com quase todas as ....................... e objetos de culto. O Santíssimo, o Tabernáculo de metal, os castiçais de metal, cálices, custódias, tecas, etc., etc., tudo pereceu e fundiu no meio da fornalha que continuou a arder por vários dias (foi constatado que o braseiro, embaixo dos destroços, continuou a bruxolear e fumegar até o décimo primeiro dia). Quais foram as causas? Eis a pergunta que muitas vezes soou e soa ainda aos nossos ouvidos sem que até o presente se possa dar uma resposta. Só Deus sabe. O prejuízo foi avaliado em 200 contos, e somente em estátuas (imagens), castiçais, alfaias, bancos, móveis, etc., que teriam servido ......... na nova Matriz, perdemos 60 contos. Um harmonium novíssimo, marca Fubi, de sonoridade extraordinária, e que tinha chegado alguns dias antes, foi completamente incinerado. Foram salvas as imagens que se achavam na Capelinha nova de Nossa Senhora (a Imaculada, São Vicente de Paulo, Santa Luzia e Menino Jesus com a cruz), alguns personagens do presépio, que se achavam na torre do relógio, e um gavetão de casulas, que um corajoso arrancou às chamas na Sacristia, na mesma hora em que desabava fragorosamente o telhado da mesma (registremos aqui o nome do Sr. Amadeu Marchiori). Imediatamente depois do incêndio houve uma reunião preliminar na casa do Sr. Coronel Adelino, em preparação da grande reunião popular do Teatro Santo Antonio, em que foi proclamada por unanimidade a Comissão das Obras, assim formada: Pe. Fortunato Morelli, Pe. João Rodrigues Crepaldi, Cel. Adelino de Oliveira Carvalho, Dr. Pio Pontes, Dr. Durval Godinho, Dr. Petrônio Chaves, Dr. Alcides Gomes Junqueira, Cel. Aureliano Martins de Andrade, Sr. Dermeval Tavares Martins e D. Emerenciana Franco de ....... Em seguida, em sessão particular, foi eleita entre os membros da Comissão Executiva, os seguintes: Presidente: Pe. Fortunato Morelli; Vice-Presidente: Cel. Adelino de Oliveira Carvalho; I.º Secretário: Pe. João Rodrigues Crepaldi; II.º Secretário: Dr. Petrônio Rodrigues Chaves; e Tesoureiro: Dr. Alcides Gomes Junqueira."

 


        Em novembro de 1938 o Jornal de Ituyutaba, sob a direção de Cícero de Freitas Barros, trás em sua primeira página a manchete:
 

"Violentíssimo incêndio destruiu completamente a Igreja Matriz:


        A velha e formosa Igreja Matriz de Ituiutaba, foi inteiramente destruída por um furioso incêndio, cuja causa apesar de não apurada é, geralmente, atribuída a um curto-circuito que teria se verificado nas suas instalações elétricas internas.
        Precisamente às 21h e 15min irrompeu na Matriz violentíssimo incêndio que se alastrou com incrível rapidez e furor por todas as suas dependências, destruindo, em poucos instantes, todo aquele magnífico templo de Deus.
        O incêndio foi violento e rapidíssimo, sendo impossível qualquer tentativa de salvação, motivo porque a Igreja ficou completamente destruída sendo os prejuízos totais calculados em duzentos contos de réis.
        As torres da Matriz resistiram galhardamente ao pavoroso incêndio. Uma foi duramente castigada pelo fogo, havendo desabado os dois sinos que se conservam perfeitos e a outra, lá está, inteiramente isenta de quaisquer sinais do medonho e lamentável incêndio.
        Tal a rapidez do incêndio, apenas 3 (três) imagens foram salvas: Nossa Senhora da Conceição, Santa Luzia e o Menino Jesus. O confessionário também foi salvo. foram destruídas 18 imagens.
        A população de Ituiutaba, ao ter conhecimento do incêndio, afluiu em massa à Praça da Matriz, onde, tomada de pavor e susto, assistiu ao desenrolar da pungente cena. A massa presente foi calculada em 2000 pessoas".

 

(Foto extraída da Revista Páginas da Semana - Especial 91 anos de Ituiutaba)

 

 

        Ainda na mesma edição do Jornal de Ituyutaba — N.º 135 — Ítalo Bermase Gentil, redator do Jornal, escreve o editorial:
 

O incêndio da Matriz e o dever dos católicos ituiutabanos


        A cidade, compungida de dor, trás ainda bem vivas na retina da sua memória, as fases do tremendo incêndio que destruiu a nossa velha Igreja Matriz.
        Foi um espetáculo misto do belo e do horrível...
        Em 10 minutos, toda uma obra que exigiu anos e anos para se erigir, ruia-se devorada pela impiedade das chamas. E a população de Ituiutaba, tomada de pavor e susto, ante a inutilidade de qualquer esforço salvador, assistia impassível ao tenebroso espetáculo da destruição!...
        A secular Matriz, sentinela avançada das nossas tradições de fé cristã, significa para nós, o que representa a mística irresistível dos sheiks nas deliciosas lendas orientais... Cada qual de nós temos naquela casa do meigo Galileu, a evocação de um sonho bom...
        Noite encantadora aquela! As estrelinhas lá no firmamento, tinham um brilho e um explendor descomunais... Regozijavam-se... A noite do luar bonito e das inspiradas divagações poéticas...
        ...E cá na terra, o coração católico, aflito, gemia e chorava ante o pesadelo que lhe arrebatou o seu sonho de arte, glória e fé...
        A velha Matriz de São José do Tijuco, Vila Platina e Ituiutaba, nasceu como nascem as Igrejas no Brasil: 'do poderoso instinto que leva o homem a procurar em Deus, o caminho do bem e da fé...' À maneira duma mãe zelosa, ensinando ao filhinho querido desde os vacilantes passos iniciais, assim o sonho dos saudosos sacerdotes Padre Antonio Gouvea e Cônego Ângelo, traduziu-se numa esplendente realidade porque soube cumprir a sua missão de fé e de virtude.
        O fogo prosseguia na sua fúria inapelável e ciclópica. As chamas da destruição subiam aos céus, para lá no alto, negras de horror, misteriosamente desfazerem-se... As duas torres, imponentes, altivas e orgulhosas de fé, assistiam ao compungente drama à espera da vez do seu holocausto cruel... E, do interior de uma delas, ouvia-se, intervaladamente, o lento badalar de um relógio: 22 horas! Não quis o destino bulir com o fantasma que registrava os segundos e minutos de terror... Não! O perdão é o prêmio para os justos!
        O fogo mutilou, sem abater, uma torre. Mas a outra, a torre do relógio, lá está, ciosa da sua inviolabilidade a dizer orgulhosamente: — Maior do que um incêndio é a fé católica ituiutabana!
        Se o saudoso Padre Ângelo, o sacerdote do bem e da virtude, aquele que muito amou os ituiutabanos, viesse à terra, traria na paternidade de seus conselhos, essa advertência justa, sublime e gloriosa: — É um dever, é um sagrado imperativo da fé católica, que todos cooperem na edificação da nossa futura catedral!
        Felizmente, nesta hora tão adversa para os católicos temos à frente da nossa Diocese essa figura virtuosa de sacerdote que é o Padre Fortunato Morelli.
        A alma católica da nossa terra é por demais generosa e nobre. Não tardará pois, o dia em que responderá ao capricho do destino, com uma sublime demonstração de fé, erigindo a magnífica Catedral de Ituiutaba."

 

        A triste cena do incêndio da Igreja Matriz de São José foi reconstruída pelas hábeis mãos do artista plástico Antonio Carlos. Veja abaixo uma foto do quadro que ganhou o 1.º lugar no Salão de Artes da ALAMI — Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.

 

 


       

1939 - Ruínas da Igreja Matriz de São José

 

        No incêndio foram destruídos quase todos os móveis da Matriz, os bancos, um "Armonium" novo, as imagens sagradas e paramentos, o Santíssimo, o tabernáculo de metal, os castiçais de metal, custódias, tecas etc., etc., tudo pereceu e fundiu no meio da fornalha que continuou a fumegar até o décimo primeiro dia.
        Registramos aqui a coragem do Sr. Amadeu Marchiori que arrancou das chamas um gavetão de casulas que estava na sacristia na mesma hora em que desabava o teto em chamas.
        Sobre o incêndio e a nova Igreja Matriz, Pe. Vitório Zanin escreveu: "Assim que desapareceu em cinzas a velha igreja de madeira na fatal ocorrência do dia 1.º de novembro de 1938, os católicos sempre crescentes e arrojados, mostraram o ardor de sua fé, na bravura com que levantaram a Deus essa obra arquitetônica civil-religiosa-monumental, dentro das leis do útil e do belo; essa Igreja Matriz que é, como se exprimiu alguém: um dos templos mais majestosos de Minas. Nisto devemos com muita justiça salientar o nome do Pe. Fortunato Morelli que ideou e começou a obra, juntamente com o nome do Pe. João Avi que incansavelmente continuou seguindo o mesmo plano, e deixando nesta cidade a lembrança de seu trabalho".
        Em 1939 foi Fundado o Aeroporto Tito Teixeira e neste mesmo ano, a primeira pedra da atual Catedral de São José foi lançada no dia do Padroeiro da cidade, 19 de março, e no dia seguinte uma turma de 15 homens, dirigida pelo mestre de obras Sr. Guilherme Bertolozzi, começaram as escavações. A construção demorou de 1939 a 1959.
        Na nova igreja, moldada em estilo românico moderno, toda feita de cimento armado, ainda existem as imagens de São José e São Pedro que foram salvas pelo Padre Fortunato Morelli, quando da demolição da ruína, em 1939, e foram restauradas.

 

 

Catedral de São José — 2008

 

 

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