SÃO  JOSÉ  DO  TIJUCO

VILLA  PLATINA

ITUIUTABA


 


PERSONAGENS DO FOLCLORE DE ITUIUTABA E REGIÃO
 

 

               O folclore brasileiro é muito vasto, e cada região tem os seus personagens, e é provável que nem todos estejam catalogados.

            Nesta página, vamos destacar alguns personagens folclóricos que foram passados de geração a geração, na região de Ituiutaba, e que foram registrados em livros.

            O primeiro personagem desta página é o CONDU XERERÊ ou CONDÃO-SERERÊ.

 


BEIRAS DA MEMÓRIA
 

Autora: Alciene Ribeiro


            Não concordei e não concordo em dividir o tempo do Nenê, com a miudalha da vida. Enciumei e assumo em rasgo de coragem. De hora para outra elegeram ele herói, dono de mágicas e mistérios. Este particular, sabido desde os princípios de nós, só eu hei de gerir. Invadiram o privativo de mim, protesto e ninguém da fé.
            Parece que aquela disputa com o Camarão rendeu prestígio ao mano além dos limites dos pertences de ser exclusivos de dois. E eu obrigado a assistir calado a esse novo exercício de carisma, a menos que me concedam a palavra, — por favor.
            As horas gastas com os cheira-cueiros não têm preço, enquanto roubadas ao nosso estar juntos. Por mim não alimentava a fantasia da doida velha, mas Neném me ouviu? Ele se divertiu à larga, açulando o medo dos pequenos e até eu, não me cuidasse acabava crente, tal a certeza que ele punha nos acréscimos das doideiras.
            Hora dessa o monstrengo escala o despenhadeiro da encosta norte, lá onde nem alpinista graduado se aventura, e caça menino de popa gorda para o ensopado com cebolinha verde. Arre, que mal gosto!
            Nosso plano rodou na correnteza. Arapuca projetada no papel, tudo nos conformes de álgebra e equação, o abono de máquina de calcular; maquete de pau de fósforo, bambu colhido e aparado grande, pequeno e médio, que fim dou na trenheira toda?
            Menino pequeno é bobo mesmo. Vê lá se armadilha de bambu segura o bicho do porte de caminhão e ainda com pilão no cocuruto cheio de criança. Os braços compridos e magricelas, escapando pelas brechas, — zás! — Em dois tempos o engenho ia por terra.
            Mas gostei da gente enfiado naquilo até o queixo, como filme do King Kong ou Tubarão. Arrepiei de medo e excitação do perigo comichando a carne, quase de verdade.
            Henricão também aderiu, divertido, gozador. Lua cheia, megafone a punho, fingiu o grunhido rouco:
            — Eu sou o Condu Xererê! Eu sou o Condu Xererê! — a fala cantante, ritmada.
            O exagero de lençol nos varais da Vila, dia claro, assinou embaixo do pânico que varou aquela madrugada. Mijou-se em branco, rosa, verde e listadinho. Em espuma, mola, crina e capim. E haja água, sabão, detergente e escova. Haja orelha para puxão.
            Isso posto, nem pensar no desmascarar dos planos de tocaiar tamanduá, paca ou macaco em vez do troço, invenção graduada de verdade verdadeira, vista e ouvida. Um pânico só tremeria a Vila desde as estribeiras, tropel de menino em debandada.
            — O trem é da cor de terra, eu vi, mistura a vista, se camufla na caçada.
            — E a velha, não corre perigo? — Neném, acha de lenha na mão.
            — Eu, Inhozinho? Benza Xogun o vosso incômodo, mas veia de bunda murcha não cobiça o gosto, só popa tenrinha, carne virgem — ri, as gengivas murchas, cuspe azedo.
            — Já viu ele?
            — Cruz credo — benze-se. — Não cobiço tornar. Tem cara de pessoa-gente, orelha pontuda, gigante assim, para mais tamanho do que o rancho aqui da veia — sentencia com mórbido prazer, acreditando-se.
            Do seu elenco, o Condu Xererê é o personagem mais temido. A doida velha cultiva outros, alguns inofensivos, em casos ao cair da tarde, toco de fumo no canto da boca, menino boquiaberto em volta. É quando se emproa em importâncias perdidas no caminho e usufrui de atenções riscadas há muito de sua história de vida. A agenda da doida não registra mais nada digno de nota, daí o apego aos casos, ouvidos ou inventados, mais reais à carência, elo entre ela e o resto, seu todo, os rostos ansiosos dos garotos.
            — O bicho-homem se assemelha em malvadeza ao monstro do vosso horror. Se ele castra menino para a engorda, que nem porco capado no chiqueiro a mode ficar no ponto de despopa para o molho, o homem, pessoa-gente, fura olho de avezinha a mode o canto entoar mais cantado.
            — O uirapuru, não é, velha?
            — A veia já vos contou essa lenda, pois não?
            — O quê que vai ser hoje, velha?
            — Aqui uma pausa, o rosto impenetrável se alisa de rugas, ciente da própria majestade. O poder de decisão, Senhora Dona Rainha, empresta algo de nobreza ao porte. A velha se empertiga no tamborete e ouve clarins ao longe. Assim no trono, dilata ao máximo o tempo de mando absoluto, saboreando a sensação de reinar. Desvio da mente ou aspiração natural de todo vivente sadio? Ela, a louca, acusando a maldade do homem são, ou a assembleia de menores, bebendo com pupilas dilatadas cada gesto, contração de velhice nos beiços chupados?
            Nem ela e nem os bobocas, o doido aqui sou eu, Zinho, Querendo traduzir razão na loucura que virou a Vila, a doideira de tudo o que aconteceu. Me ensandece ainda mais a dúvida se é sonho, pesadelo preso nos meus contornos, ou se isso está existindo também por fora de mim.
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Nota:     Capítulo extraído do livro Nos beirais da memória, de Alciene Ribeiro Leite, romance — Editora da UFMG, BH, 1989 (Premiado no   

                Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte) — Belo Horizonte, MG, 1988.


 


CONDÃO-SERERÊ
 

Autora: Ednair Ângela Muniz


            "Era uma vez... Um menino muito custoso. Teimava com a mãe, com o pai, com a avó, com o padrinho, mas teimava muito mesmo..."
            — Igual a Miryam, né, Vó? — interrompia Jessé, implicando.
            — É, igual a muitos de vocês — e prosseguia:
            "Esse menino só acreditava no que via. Ele era desconfiado, e muito especulador! Tudo ele queria saber! Vivia especulando a mãe, o pai, que às vezes perdiam a paciência com tantas perguntas. Como eu disse, ele era muito teimoso. E gostava de andar de noite, sozinho. A mãe lhe repreendia:

            — Menino, não anda de noite, que o Condão-Sererê te pega, hein?
            — Ara, eu não acredito em Condão-Sererê! — respondia o sabe-tudo, com um muxoxo e um sacudir de ombros.
            — Menino, menino, não anda de noite, que o Condão-Sererê te pega, eu já lhe disse — repetia-lhe o pai, sempre que ele teimava e saía à noite.
            E nada! O menino sempre teimava.
            Um dia, sabe, ele foi visitar a avó, da qual ele gostava demais. E a avó lhe disse:

            — Netinho, não venha aqui de noite, meu bem. O Condão-Sererê te pega uma hora. Por que você não obedece a gente?
            — Ara, vó, eu não acredito em Condão-Sererê. Eu nunca vi! A senhora já viu? Que jeito é esse bicho? Ninguém soube me dizer, até hoje.
            — Eu também não acreditava, netinho. E quando eu era criança, eu também teimava com os mais velhos. Até que uma noite... Nem te conto, viu!
            — Conta, conta, vó! A senhora viu o bicho? — O menino perguntou, ansioso, com os olhos arregalados.
            — Sim, eu vi. Eu vinha pra casa, à noite. As portas estavam fechadas, pois o pessoal  tinha  muito  medo  do Condão-Sererê. Só eu não tinha medo. Aí, de repente, eu ouvi um barulhão: POF... POF... POF... POF... (eram os passos do bicho). Meu coração disparou e eu me escondi por detrás de uns pés de bananeira — uf, foi a minha sorte! — e eu vi aquele bichão enorme! Parecia uma montanha, de tão grande. As pernas dele eram desse tamanho; um rabo curto, uma tromba enorme, parecendo uma cobra sucuri. Era com essa tromba que ele enrolava os meninos e jogava na cacunda. Nas costas dele, tinha um pilão enorme. Era lá dentro que ele jogava as crianças, para levar até seu esconderijo e comê-las. Ai, que bicho grande e feio! Ele passou por mim... POF... POF... POF... POF... O chão estremecia. Eu fiquei grudada no chão por um bom tempo. Depois, pernas pra que te quero, saí na carreira pra casa. Nunca mais saí à noite. Dei sorte. Até hoje tremo só de pensar, credo! — Dizia a avó, se benzendo.
            — Ara! Vó!... Não foi a imaginação da senhora, não? Olha, eu não acredito em Condão-Sererê, viu?  Bença,  eu  já vou embora.
            — Deus te abençoe, meu netinho. Você não quer mesmo dormir aqui, né? Então, vá com Deus!
            O menino saiu. As casas do lugarejo estavam todas fechadas. E ele ia caminhando despreocupadamente, corajoso como ele só, quando, de repente... Pof... Pof... Pof... Pof... O Condão-Sererê! A terra estremeceu. E o coração de nosso pequeno herói quase lhe salta pela boca. As pernas tremeram, não deu tempo de fugir... E a tromba enorme enlaçou-o e jogou-o no pilão.
            — Ai, e agora, o que eu faço, meu Deus? — pensava o garoto.
            Porque o nosso herói era muito corajoso e tinha idéias. De repente, ele sorriu:
            — Há, já sei! Vou chamar o Condão-Sererê para passar na casa de meu padrinho, aí, ele me salva.
            — Condão-Sererê...! Vamos passar na casa de meu padrinho, pra eu tomar bença dele! — o menino teve de gritar, colocando as mãos em concha diante da boca, para ser ouvido pelo bicho, tão grande ele era.
            — Hum... hum... hum! Podemos ir! — foi a resposta do Condão-Sererê.
            Pof... Pof...
            Chegando à casa do padrinho, o garoto bateu palmas, e cantou (é, naquela época, o povo gostava de se comunicar cantando, sabem?).
            — Ó, padrinho de minh'alma, Condão-Sererê, vem aqui pra me valer, Condão-Sererê, que o bicho vai me comer, Condão-Sererê, e o que eu hei de fazer, Condão-Sererê...!
            O padrinho respondeu, cantando:
            — Ó afilhado de minh'alma, Condão-Sererê, quantas vezes eu lhe dizia, Condão-Sererê, que não andasse de noite, Condão-Sererê, pois agora vai com ele, Condão-Sererê...!
            — Hum... hum... hum! Podemos ir! — sorriu o bicho.
            — Ai, Jesus! O que eu faço agora? — matutou o garoto. — Ha, já sei!
            Condão-Sererê! Vamos passar na casa de minha mãe, pra eu tomar bença dela!
            — Hum... hum... hum! Podemos ir.
            Pof... Pof... Pof...
            Chegando à casa dos pais, o garoto bateu palmas e cantou:
            — Ó mainha de minh'alma, Condão-Sererê, vem aqui pra me valer, Condão-Sererê, que o bicho vai me comer, Condão-Sererê, e o que eu hei de fazer, Condão-Sererê!...
            A mãe do menino desatou a chorar.
            — Ai, meu Deus! Tanto eu disse pro meu filho não andar de noite e de nada adiantou! Como ele é teimoso! Eu não dou conta de enfrentar esse bicho! E tem meus outros filhos, que precisam de mim...
            E, chorando, ela cantou de volta:
            — Ó filhinho de minh'alma, Condão-Sererê, tantas vezes eu lhe dizia, Condão-Sererê, que não andasse de noite, Condão-Sererê, pois agora vai com ele, Condão-Sererê!...
            — Hum... hum... hum! Podemos ir! — sorriu o bicho.
            Nesse momento, o pequeno "sabe-tudo" quis apavorar. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele pensou: “agora estou mesmo perdido! Se minha mãe, que é minha mãe, não veio me valer, quem virá em meu socorro? Mas eu não vou chorar! — e limpou as lágrimas que teimavam em lhe descer rosto abaixo com as costas da mão — eu vou pensar e achar uma saída”.
            Vejam como era forte e corajoso nosso rapazinho!
            De repente, ele teve mais uma idéia:
            — Já sei, a minha mestra-de-escola!  (a professora).  Ela  vive  lendo, garanto que ela sabe o que fazer com o Condão-Sererê! Ela deve ter lido em um de seus livros! É isso mesmo!
            — Ô, Condão-Sererê! Vamos passar na casa de minha mestra-de-escola, pra eu tomar bença dela!
            — Hum... hum... hum! Podemos ir!
            Pof... Pof... Pof... Pof...
            Lá chegando, o garoto cantou:
            — Ó minha mestra-de-escola, Condão-Sererê, vem aqui pra me valer, Condão-Sererê, que o bicho vai me comer, Condão-Sererê, e o que eu hei de fazer, Condão-Sererê!...
            Naquele lugarejo de gente simples, a escola servia de moradia para a professora. Era uma construção grande, com um enorme salão, onde funcionava a sala de aula. Ao ouvir o canto do garoto, a mestra (professora, naquela época, era MESTRA), resmungou:
            — Ai, ai... Só podia mesmo ser o Joãozinho. Teimoso como ele só! O que eu posso fazer? Vejamos.
            E a mestra apanhou um de seus livros, onde falava sobre o Condão-Sererê, folheou-o, folheou-o e... “Eureka"!
            Cantou de volta para o menino:
            — Ó aluno de minh’alma, Condão-Sererê, eu já sei o que fazer, Condão-Sererê, chama o bicho aqui pra dentro, Condão-Sererê, pra tomar chá de canela, Condão-Sererê!...
            É, pois no livro estava escrito qual a fraqueza, qual o calcanhar de Aquiles do Condão-Sererê: ele era doido por chá de canela e por chá de folhas de laranja.
            Sabendo do ponto fraco do inimigo, é fácil vencê-lo, não é mesmo? Então...
            Ah, o menino deu pulos de alegria, lá em cima da cacunda do bicho.
            — Iupii! Hurra! Eu sabia que a mestra era grande! Eu sabia!
           E colocando novamente as mãos em concha sobre os lábios, gritou perto da enorme orelha, do enorme bicho-papão:
            — Ô Condão-Sererê! A mestra tá convidando você pra entrar e tomar CHÁ DE CANELA (ele falou mais alto CHÁ DE CANELA, claro que pra motivar mais, né?).
            E o Condão-Sererê, abanando o rabicho e sacudindo as grandes orelhas de satisfação:
            — Hum... hum... hum! Podemos ir!
            Quando o bicho-papão entrou na escola... ai, ai, ai! Foi um Deus nos acuda. Arrebentou porta e paredes, tão grande ele era. A mestra, que conhecia o Condão-Sererê apenas através dos livros, ao vê-lo, recuou apavorada, pois ele era mesmo monstruoso.
            Tremente, ela gritou para o garoto:
            — Joãozinhooo... Fala pro Condão-Sererê ir lá fora, buscar aquele tacho grande de cobre, buscar lenha, buscar água e buscar também as folhas de canela, para eu fazer o chá!
            E Joãozinho repetiu o pedido, gritando perto da orelha esquerda do bicho, com as mãos em concha na boca:
            — Ô Condão-Serereêê... a mestra tá dizendo pra você ir lá fora, buscar o tacho, a lenha, a água e as folhas de canela, pra ela fazer o chá!
            E o Condão-Sererê, todo serelepe, abanando o rabicho:
            — Hum... hum... hum! Podemos ir!
            Pof... Pof... Pof... Pof...
            Lá foi ele (e o garoto, dentro do pilão na cacunda do bicho), e logo levou todo o material solicitado pela mestra, a qual foi logo colocando a lenha na grande fornalha existente na escola para fazer o lanche dos aprendizes.
            Logo, logo, a fogueira cresceu, a água começou a ferver e imensas brasas avermelhadas se formaram dos grandes tições de lenha.
            Quando o braseiro estava crepitando, bonito que só fogueira de São João, a mestra colocou um enorme ferro para esquentar nas brasas. Ferro parecido com aqueles de marcar boi. Só que este era pontudo, pontudo... Era um grande espeto de ferro, sabem?
            E quando a ponta do espeto estava também em brasas, a mestra comandou:
            — Ô Joãozinho! Diz pro Condão-Sererê vir assoprar o chá que já está pronto!
            E o Joãozinho repetiu, sempre usando as mãos como conchas:
            — Ô Condão-Sererê! A mestra está dizendo pra você assoprar o chá, pois já está pronto!
            — Hum... hum... hum! Podemos ir! — respondeu o bicho papão, babão, bocó, todo satisfeito, já todo assanhado pelo cheiro gostoso do chá de canela que se espalhara no ar.
            E lá foi o Condão-Sererê... Com a tromba, ele deu a primeira assoprada.
            Voaram várias folhas de Bacuri que serviam de telhado. E a mestra também voou para longe, se estatelando no chão de terra batida:
            — Uff!
            Para assoprar o chá o bicho necessitava curvar-se, quase agachar-se, pois o tacho fora retirado da fornalha, por ele mesmo, sob o comando da mestra, e colocado sobre o chão. A mestra levantou-se, apanhou o espeto de ferro em brasas e pé ante pé, foi chegando por detrás do bicho, que estava vidrado no chá de canela, assoprando, assoprando:
            — Fium... Fium...
            Eis que senão quando...
            Tichiiiiiiiiiiiiii...
            A mestra enfiou o espeto de ferro em brasas... bem... Vocês sabem onde, né?
            O bicho deu um grito ensurdecedor, pulou tão desesperadamente, que Joãozinho caiu lá de cima da cacunda dele, de dentro do pilão, no chão:
            Pof!
            Foi um tombo feio! Mas ele nem sentiu, e rápido correu para junto da mestra.
            O bicho saiu em desabalada carreira noite adentro, com aquele ferro... (vocês sabem onde), e sumiu!
            Mas ele está por aí... Esperando o próximo garoto que não obedece aos mais velhos e que gosta de andar sozinho à noite, para pegar e comer. Um garoto (ou garota), que sacuda os ombros, dê um muxoxo e diga:
            — Ara!... Eu não acredito em Condão-Sererê! Eu nunca vi um!
            E cuidado, hein, meninos! Pois ele não gosta mais de chá de canela.
            E talvez não existam mais mestras como antigamente."
            Assim terminava Vó Nêga a estória mil vezes repetida, mil vezes ouvida por olhos arregalados e acompanhada de risos e palmas quando Joãozinho caía das costas do bicho, no chão da escola. “Como era inteligente e corajosa essa mestra!”, pensava Miryam, “eu quero ser igual a ela”.

 

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Nota:    Capítulo extraído do livro Miryam ou Flor de Manacá, de Ednair Ângela Muniz, editado pela Prefeitura de Ituiutaba, Egil, 1999,

                impresso sob a responsabilidade gráfica de Edson Angelo Muniz.

 

 


CORPO-SECO
 

Autora: Ednair Ângela Muniz

 

            Nas proximidades de Serrana, rodeando-a como uma guirlanda de flores, ou como um colar de pérolas, existiam muitos montes, outeiros, quase montanhas.
            Serrana ficava incrustada em um lindo vale — vale do rio Nativa — todo verdejante na primavera.
            Em um desses montes, a oeste de Serrana, os mais velhos diziam existir um Corpo-Seco. Muitos afirmavam já tê-lo visto. Pele e ossos. Fiapos de cabelos envelhecidos... Uma múmia. Credo! E diziam ser também praga de mãe, — que ele morreria seco — uma estória parecida com a do "Come Cru".
            E contavam ainda que um outro garoto comilão, o qual, escondido, comia a mistura dos caldeirões de comida enviados para os trabalhadores rurais, secou uma das mãos — a que enfiava no caldeirão para apanhar a carne, ou o tomate — praga de mãe.
            “Cruz-Credo com praga de mãe”, pensava Miryam, “é tiro-e-queda!”
            Contam assim a história do Corpo-Seco:
            “Era uma vez, um rapaz de uns trinta anos, carrancudo, mal-humorado e grosso. Não respeitava ninguém, a não ser ele mesmo (se é que se pode chamar egoísmo de respeito próprio).
            Morava na roça, em um ranchinho beira-chão muito limpo e asseado por sua mãe, uma bondosa senhora de cabelos grisalhos, alta e magra, de rosto sofrido e enrugado antes do tempo.
            Esse rapaz gostava muito de bailes. Um dia, ele chegou de um baile, mais ou menos às nove horas da manhã.
            Chegou meio embriagado, amarrou o cavalo na estaca em frente à porta da sala, entrou arrastando as esporas e se dirigiu para o catre.
            A mãe, solícita, perguntou-lhe se ele gostaria de comer alguma coisa. Não houve resposta.
            O rapaz estirou-se no catre, e dormiu quase que imediatamente.
            As horas se passaram... O sol quente, de arrebentar mamona... E o cavalo arreado, resfolegando... A bondosa senhora, não querendo acordar o filho, foi lá fora, desarreou o cavalo, deu--lhe água e o soltou.
            Lá pelas tantas da tarde, o moço acorda. Vai à bica d’água, lava o rosto, bochecha uma água na boca e se dirige à porta da sala para novamente montar e sair.
            Surpresa e ira!
            — Ô, merda, sô... Quem soltou o Alazão?
            — Foi eu, filho... respondeu a mãe — o sol estava tão quente, o cavalo suado... Fiquei com dó! E ocê durmia tão sussegadinho, que num quis acordá. Fiz mal?
            — Claro que fez, sô! Vem cá, eu vou montar é na sinhora memo... Anda! — assim falou, assim fez: obrigando a velha a se colocar de cócoras no chão, montou na mãe e calcou-lhe as esporas nos flancos.
            — Êia... É pra aprendê a não mexê onde não deve, e nem metê a culher em doce alheio. Ara, sô! — dizia o malvado.
            Os olhos da bondosa senhora encheram-se de lágrimas. De humilhação, de vergonha... e de brio na cara! E ela respondeu ao filho:
            — Ah, fio, tanto eu te ensinei e nada ocê aprendeu! Mas Deus é Pai, e é Pai-Eterno! Não mereço tanto sofrimento, e nem ocê, mais é preciso um castigo forte, procê aprendê. Seu corpo vai secar em vida, viu! Ocê vai ver seu próprio corpo sumindo, sumindo, ficando enegrecido feito paia de mio em cima da fornaia da cozinha, defumando churiço de porco... Ocê vai ver! Vai ser uma alma penada, até se arrependê de tudo o que fez com sua mãe, que tem os seios murchinho, de tanto te dar de mamar. E que tem os olhos secos, de tantas noites sem dormir, para cuidá de sua saúde fraca, e, às veis, só para velá seu sono... Ah, fio... Isso ocê vai vê!
            O moço “apeou” das costas da mãe, com os olhos muito abertos... Um olhar estranho... Fitou a mãe, cobriu o rosto com as mãos e saiu em desabalada carreira. Ele foi direto para a Serra da Cigana, perto dali".
            Desse dia em diante, se ouvia o choro da velhinha no rancho à beira-chão, e alguns gritos à noite, principalmente quando a lua era cheia.
            E contam os mais velhos que a família levava comida em caldeirões, colocava perto de uma latada de cipó existente na Serrinha, e que a comida desaparecia.
            E que o Corpo-Seco, realmente é seco. E que a Serra da Cigana é mal-assombrada. De noite, vê-se luz lá e se escutam gritos. E que se alguém muito corajoso, procurar essa latada de cipó onde o Corpo-Seco fica embaixo, perde o rumo. não acha a latada de cipó e nem o caminho de volta.
            “Cruz-credo com praga de mãe”, pensava Miryam, “é tiro-e-queda!”

 

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Nota:     Capítulo extraído do livro Miryam ou Flor de Manacá, de Ednair Ângela Muniz, editado pela Prefeitura de Ituiutaba, Egil, 1999,

                impresso sob a responsabilidade gráfica de Edson Angelo Muniz.

 

 


O CORPO-SECO
 

Autor: Luciano Vilela Teodoro

 

[...]

Bruno diz a Márcio:

— Preciso dar um jeito na velha — se referindo à mãe.

Márcio:

— O que ela aprontou?

Bruno:

— Quer trazer de volta o grande mentecapto aos negócios. — Ele se referia a Joca.

Márcio:

— Isso não pode acontecer de jeito! — diz Márcio, pensando: “Preciso defender meu banco particular.”

Bernardão:

— Dê umas palmadas na velha.

Bruno:

— Não seria má ideia, mas tenho vontade de fazer algo pior ainda.

Bebiam e comiam pantagruelicamente todas as pingas e torresmos do bar. Baco ficaria com inveja deles. Bruno sai do bar, bêbado como um gambá, se despede e vai para a fazenda.

Na fazenda, Dona Elvira estava pensando em Joca, se lembra de quando ele entrara no colégio Wild, uma escola de inglês, e os colegas, no segundo dia de aulas, depois de verem as tentativas frustradas de Joca de proferir a frase the books on the table, caçoavam dele, chamando-o de Joker repetidas vezes. Ela se lembra de que ele chegou em casa chorando, também, ele era uma criança ainda, e perguntando:

— Mamãe, você me acha bobo!

Dona Elvira respondeu:

— De jeito nenhum. Você é puro, isso sim.

Joca diz:

— Mas meus colegas de inglês acham.

A mãe se lembra do que havia dito:

— Os cães ladram e a caravana passa.

Nisso, ouve galopes de um cavalo chegando. Já era tarde da noite, ela olha para o relógio, em baixo de uma mesa onde havia um enorme troféu, uma taça de alumínio maciço que seu Bento havia ganhado por um boi campeão em Bellezebu e, dependurado na parede em um simples prego estava o chicote de pinto de boi, o pênis é fino, comprido, e curtido em sebo animal dá um excelente chicote. A mãe ouve a porta abrir. Bruno entra sem falar nada e vai para o quarto cochilar um pouco.

A mãe sai de fora para tomar uma brisa noturna e vê que o filho deixara o cavalo arreado, e pensa:

“Não posso deixar um pobre cavalo com esse pesado arreio a noite toda, ele já muito fez durante o dia todo.”

Bruno se levanta da cama para tomar água, passa pela sala e não vê a mãe, procura a mulher por toda casa e pensa:

“Deve estar lá fora.”

Sai e pega a mãe desarreando o cavalo. Bruno diz:

— Sua velha inútil, ele estava arreado para ficar fácil amanhã cedo para eu sair.

Dona Elvira entra na sala com o filho furioso e bêbado — Bruno se tornava um monstro quando bebia.

A mãe diz:

— Só quis aliviar o sofrimento do animal.

Bruno:

— Sofrimento você vai ver agora.

Pega o chicote e chicoteia a mãe repetidas vezes. A mãe não deu um grito. Não se dando por satisfeito, Bruno pegou o pesado troféu e golpeou uma vez apenas na cabeça de Dona Elvira. Pegou ela nos braços, pôs no Ford e partiu na direção de Tijuco. Chegando lá, foi à casa de Dr. Júlio, o médico. Bruno desce do carro e toca a campainha de Dr. Júlio. Era madrugada. Dr. Júlio o recebe vestindo um hobby. Olha para Bruno meio sonolento ainda e pergunta:

— O que quer tão cedo?

Bruno:

— Aconteceu uma fatalidade, mamãe caiu do alto da escadaria, foi rolando até o chão e bateu a cabeça.

Dr. Júlio:

— Isso pode ser grave, leve-a imediatamente ao hospital.

Lá chegando, puseram Dona Elvira deitada. Dr. Júlio, examinando, diz:

— A coisa é séria, sua mãe está desacordada de uma maneira muito grave, vamos levá-la para a U.T.I.

Bruno:

— Eu quero que faça o melhor, dinheiro não me falta.

Bruno confiava muito e sabia que ela não resistiria.

— Faremos o melhor possível — respondeu o Dr. Júlio.

Mais tarde Dr. Júlio se aproxima de Bruno e dá a notícia:

— Sua mãe está em coma, pode despertar daqui a um dia, um mês, um ano, dez anos, ninguém sabe quando isso pode acontecer, mas o pior de tudo é que por causa do traumatismo sofrido ela tem um coágulo que pode levá-la à morte se não for operada, mas terá de vir médico para a cirurgia de outras cidades, infelizmente em Tijuco não há recursos.

Bruno:

— Pode trazer o melhor do mundo que eu pago.

Dona Elvira ficou dois dias em coma, e os médicos ainda não tinham encontrado possibilidades operatórias, pois uma operação naquelas condições em que o coágulo se encontrava era de altíssimo risco. Resolveram medicá-la com alguns remédios e dar o devido tempo, para só assim fazer a cirurgia.

À tarde, Bruno está sozinho no quarto suíte com Dona Elvira que estava adormecida.

Bruno olha para a mãe sem a menor compaixão e diz:

— O serviço está bem feito, por mim pode ficar cem anos de solidão nesta cama.

Dito isso, dona Elvira abre os olhos e diz com a voz fraca, entre dentes, mas dando para Bruno escutar:

— Bruno, eu sou sua mãe, e a terra também é,  e  ela  não  tragará  seu  corpo  jamais!  Te  deixo  como  herança  um corpo-seco.

Bruno:

— Do que está falando? Virou cigana também?

Ela não durou nem mais um segundo, morreu como morrem as crianças que nunca pesaram sobre a terra.

— Que a terra não lhe pese, Dona Elvira! — Palavras ditas pelo padre, no enterro.

Só Joca  e  Maria  foram  ao  enterro,  Bruno  estava  na  fazenda,  acamado,  “sofrendo  de  melancolia  profunda”, mandara dizer.

Joca disse:

— Só temos um ao outro agora, Maria.

Maria:

— Deus sabe o que faz, não é o que mamãe sempre dizia?

Vocês devem estar se perguntando:

"E as marcas de chicote, Dr. Júlio não pode ter acreditado numa estória dessas!"

Não acreditou mesmo e pediu que o Delegado investigasse Bruno.

Sabem o que o Delegado disse:

— Ora, Bruno é um exemplo de cidadão, doou o dinheiro de 66 bois para reformarmos nossa cadeia, que hoje é a maior do Pentágono, ele não faria isso com a própria mãe, vai procurar o que fazer, Doutor, ao invés de ficar caçando chifre em cabeça de égua!

Um dia, Bruno estava contando seu gado, feliz da vida por ter tirado todos da jogada e olha para uma rês toda coberta de chagas e sente vontade de matá-la, só por não estar fazendo altura ao seu rebanho. O tempo estava chuvoso. Bruno se lembra da maldição de sua mãe e também daquela cigana que lhe disse uma coisa da qual nem se lembrava mais. Ele pensa:

“Que importância tem minha mãe e uma cigana, agora que sou rico e poderoso?”

Quando ele se aproxima da serra vê uma raposa desaparecendo no cerrado, vê também tucanos voando na direção do cerradão, que era uma vegetação fechada na tentativa de se abrigarem da tempestade que estava se formando. Ele, sem perceber, deixou seu canivete cair do cavalo e desce para apanhar o mesmo. Nisso o temporal já havia tomado conta de tudo. Quando ele segura o cavalo com uma de suas mãos na rédea e o canivete em outra das mãos, um raio, vindo não se sabe de qual direção, deixa Bruno e o cavalo fulminados no chão.

Apesar de os empregados da fazenda não gostarem nem um pouco do patrão, começam a ficar preocupados com ele e saem a sua procura. Um dos empregados o encontra e vai chamar os outros. Quando veem Bruno, todos ficaram surpresos pois o corpo do cavalo parecia um carvão totalmente carbonizado, e o de Bruno dava a impressão de que a pele estava colada aos ossos, e seu corpo não estava carbonizado e sim ressecado.

À tarde, foi feito o velório. Maria chorava muito e rezava, e Joca estava com olhos de menino desamparado. Também estavam ali Bernardão e Márcio. Márcio estava com o olhar distante como que não acreditando no ocorrido. Para Márcio, Bruno merecia viver mais e não só isso, ele tinha a postura dos fortes, daqueles que se parecem imortais. Bernardão, com seu olhar bovino, ficava imaginando se Bruno não havia deixado nada de herança para ele, mas para sua surpresa, nem testamento ele deixou. Talvez pensando em ser eterno ou simplesmente por não se preocupar com ninguém a não ser consigo mesmo.

Numa analogia dos que se encontram num total desespero, Bruno pensa:

“Eu estou como um sapo tenho a pele seca, e lhe vem uma ideia à cabeça: se eu tenho pele de sapo, deve me fazer bem o que ele come. Ora, como não havia pensado nisso antes? Comerei moscas, deliciosas moscas. Nesta altura tudo lhe parecia saboroso. Encontrou um resto de câmara de ar no chão e com cacos de vidros cortou tiras, foi até um pântano munido destas tiras (esse pântano ficava na encosta da serra) e viu algumas moscas sobre a pedra, colocou a ponta da tira perto da mosca e com a outra mão esticou a borracha. Zum! E a mosca estava morta no chão. Como era muito voraz, um dia juntou 666 moscas e colocou tudo de uma só vez na boca, mas lhe pareceu uma poção do demônio.

Ele pensava no seu irmão, antes tão desprezado por ele, seria uma ótima companhia agora. Será que alguém virá aqui? Já fazia dois dias que ele se ocultava na serra com medo da repulsa dos humanos. Assim como havia feito com seu cavalo Dorian Gray, agora era ele a besta-fera ocultada do mundo.

Naquela floresta estava aquele molambo que um dia fora Bruno. Ele pensava:

“Por Deus, nunca me vi tão só! O que fiz para merecer isso?” Se os pássaros da árvore ao lado falassem lhe responderiam, mas preferiam pousar em outra árvore, pois não aguentavam o cheiro nauseabundo que o corpo-seco exalava.

Numa tentativa de retomar a vida, a pele e o viço, uma vez que ele não sentia mais fome depois de ter tentado comer inutilmente aquelas moscas, tentou, em vão, comer uma cajá-manga, tão típica daquela serra, que agora se chamaria serra do corpo-seco. Serra em que outrora entrara com seu cavalo atrás de uma rês desgarrada. Mas o que era de ser paladar na sua boca se tornou negra bílis e assim ele cuspiu a cajá-manga boca afora. “Não tenho mais ninguém, não posso comer. Nem gente eu sou, mas se a minha mãe não estivesse morta eu a mataria, porém dessa vez de maneira melhor.”

[...]

 

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Nota:     Trecho do livro O corpo-seco, de Luciano Vilela Teodoro, 2.a edição, Egil, 2010,

                impresso sob a responsabilidade gráfica de Edson Angelo Muniz.

 

Clique aqui e leia a Nota do Autor.

 


PITACA
 


Autor: Edson Angelo Muniz

 

 

            Pitaca era uma figura folclórica que "aparecia" sempre na quaresma e constituía-se do seguinte: uma pessoa, com as calças arregaçadas, de botina ou mesmo descalça, colocava uma peneira das grandes na cabeça e a segurava com os braços para cima, vestia-se na peneira uma saca de linha ou uma saia velha rodada e amarrava-a abaixo do peito da pessoa, ficando assim, parecendo um chapelão. Na barriga, com batom ou tinta vermelha, era desenhada uma careta, fazendo a boca coincidir com o umbigo. Às vezes colocava-se no umbigo, um pito de palha, aceso. No movimento da barriga é que estava a maior graça desta figura.
 

 

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Nota:    Texto extraído do livro Família Muniz - Tronco do Triângulo Mineiro, de Edson Angelo Muniz, Egil, 2002.
                A Prefeitura de Ituiutaba colaborou com a edição deste livro.

 

 


PITU
 

Autor: Edson Angelo Muniz


            Pitu era outra figura folclórica da época. Em um machado com cabo, enrolava-se palha até cobrir todo o machado, ficando com o formato de um rosto bem fino. Fazia-se um bico bem comprido, também de palha, prendendo-o por sobre o olho do machado. Um homem colocava este machado na frente do rosto, usando um chapéu de aba larga e uma capa de chuva, de cor preta, e estava formada a figura.

        Em junho de 1971, em um dia de festa junina, estávamos todos reunidos na casa do Tio João Grosso, na Fazenda Barreiro do Valadão, e o Tio Antenor vestiu-se de Pitu e saltou de cima da varanda da casa, no meio do terreiro, onde estavam todos. Era noite de lua cheia, e a sua imagem, em contraste com a lua, ficou fantasmagórica. Minha irmã Ednair, que estava sentada na boca da cisterna, ficou branca de susto e quase desmaia e cai dentro da cisterna.
       
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Nota:    Texto extraído do livro Família Muniz - Tronco do Triângulo Mineiro, de Edson Angelo Muniz, genealogia e história, Egil, 2002.
                A Prefeitura de Ituiutaba colaborou com a edição deste livro.

 

 

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