SÃO  JOSÉ  DO  TIJUCO

VILLA  PLATINA

ITUIUTABA


 


CÔNEGO ANGELO TARDIO BRUNO
 


Cônego Ângelo e alguns estudantes

— 1917 —
(Foto extraída do livro "A Loja do Osório", de Petrônio Rodrigues Chaves)

 

 

               Angelo Tardiu Bruno nasceu em 20 de fevereiro de 1847, na cidade de Nápoles, Itália, filho de Franchesco Bruno. De Nápoles, ainda criança, mudou-se para a cidade do Porto, Portugal, onde educou-se sacerdote católico. Veio para as terras brasileiras em 1880, assumindo a Diocese de São José de Tocantins (hoje Goiás Velha). Era corpulento, cabelos aloirados, testa ampla, olhos claros, voz forte e atitudes decididas. Chegou à Vila de São José do Tijuco em 1882 e em 1883 foi nomeado Vigário da Paróquia de São José. Foi eleito vereador especial deste Distrito, junto à nova Câmara do Prata, de 1898 a 1900. Ajudou na emancipação do município, na troca de seu nome para Villa Platina, e depois para Ituiutaba. O Padre Angelo Tardio Bruno, que recebeu o título de Cônego em 14 de dezembro de 1909, foi um dos homens mais importantes na história de Ituiutaba. foi ele que orientou o Engenheiro João Gomes Pinheiro, no traçado das primeiras ruas e avenidas de Ituiutaba — deve-se a ele o aspecto das ruas compridas e retas —. Foi Juiz de Paz e Vereador, ergueu a Capela da Abadia e fundou várias escolas. Ele dizia sempre: "O ambicioso é um cego a caminhar em pernas de pau". Foi ele também quem resolveu ampliar a Capela de São José do Tijuco, acrescentando-lhe nova fachada e as duas torres. Em 1918, já velho doente, Cônego Ângelo foi transferido pra cidade do Rio de Janeiro e internado na Casa São Luiz para a Velhice Desamparada, deixando a matéria em 19 de janeiro de 1922, às 16 horas. Seu óbito foi assistido pelo Dr. Aristides Pereira da Silva e se encontra registrado à fl. 173V do livro n.º C 123, sob o n.º 183, na 9.ª Circunscrição do Registro Civil das Pessoas Naturais do Rio de Janeiro. Foi levado a sepultura rasa n.º 85075, quadra 51, no Cemitério do Caju "São Francisco Xavier", no Rio de Janeiro, RJ, cujos funerais foram pagos pelo menino-estudante Nicota (Antonio de Souza Martins). O nosso Cônego Ângelo foi obrigado a deixar a cidade, mas nunca a esqueceu, assim como Ituiutaba não o esquece. Em homenagem a este grande homem, sua estátua está erguida na praça que já teve o nome de Largo da Matriz, depois Praça da Matriz e hoje leva o seu nome: Praça Cônego Ângelo Tardeo Bruno, bem ao lado do Prédio onde funcionam os poderes legislativo e executivo. Angelo Tardiu Bruno  nasceu  napolitano,  educou-se  portuense, viveu e amou  tijucano.

 

Colaborou na elaboração do texto acima:
 

Dr. João Nogueira de Menezes

Advogado

 

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            Domingo.
            O sino repicava desde o alvorecer a anunciar que havia missa. O aspecto era festivo, no trajo adomingado do povo.
            Os roceiros que chegavam para cumprimento do preceito, consoante as ligações de parentesco ou amizade, apeavam-se à porta dos ranchos de capim, amarrando os cavalos nas estacas ou árvores próximas.
            Era mister almoçar cedo, para que as donas pudessem alcançar a missa das dez.
            Antes do toque de entrada, os caminhos se povoavam de fiéis. Mulheres e crianças se agrupavam na nave, ajoelhadas ou sentadas no chão, à espera do ato devocional.
            O padre Ângelo, após o Evangelho, dirigiu aos fiéis uma prática simples e encorajante.
            — Meus filhos. Aqui estamos reunidos na nossa igrejinha, para mais um ato de culto a Deus nosso Senhor. Bem modesto é o nosso templo, modesto como este lugarejo, que surge no sertão a atestar o expandir desta grande pátria, no ato de posse do seu imenso território. Maiores desertos já percorri, depois da minha partida da bela Itália. Já amargurei anos de povoação no centro de Goiás quando, vigário de São José do Tocantins, difundia o Evangelho de Cristo entre os aborígenes. Hoje, aqui estou, a mercê de Deus, a participar do ingente esforço que fazeis para levantar bem alto, como expressão de progresso, esta terra privilegiada. Na formação deste país, primeiro sinal de posse e cultura, em todo centro povoado, é a igreja, porque o povo brasileiro surgiu e cresceu com um sinal de posse — a Cruz. Um povoado tem a sua capelinha, uma vila terá a sua igrejinha coberta de telhas, a cidade já ostentará a sua matriz ornada de torres, enquanto a capital eleva ao céu as agulhas altaneiras das catedrais. É que a fé cresce com o povo, com o seu progresso. Bem humilde é, na verdade, o nosso arraial de São José, onde se planta este minúsculo templo, mas dia virá em que aqui se alinharão ruas edificadas de uma populosa cidade. Então, no lugar desta, levantar-se-á, altaneira, a matriz, à feição daqueles tempos gloriosos do futuro. Mas aquela realização, meus filhos, tem de ser empreendida por nós mesmos, no esforço conjunto e incessante de trabalharmos, não somente pela nossa melhoria espiritual, como, também, pelo progresso material da terra que habitamos. Ao deixar a minha pátria, eu o fiz de forma definitiva, fascinado por um grande ideal de fé e renúncia. Aqui estou, pois, a partilhar convosco do trabalho construtivo da vossa organização social. Sou vosso de todo o coração e, Deus sendo servido, para sempre. Quero que, nos dias de glória desta terra hospitaleira, haja uma parcela de contribuição do vosso pobre-vigário e companheiro. A empresa é grande, na verdade, pois o nosso povoado nem sequer adquiriu forma. Vamos começar pelo alinhamento das ruas, para que se construam as novas habitações. Vou também fundar uma cerâmica, produtora de material para construções mais duradouras. Esforçai-vos, pois, em colaborar comigo e melhorai as vossas habitações, de preferência aos gastos com esmolas para a igreja pois é mister, sobretudo, que cuideis da vossa saúde e do bem-estar das vossas famílias. Se vos faltam obreiros competentes, eu me prontifico a auxiliar ou dirigir as construções. Quanto ao mais, meus filhos, Deus proverá e certo estou de que, nos dias faustosos, a nossa igreja estará perfeitamente edificada, para glória de Deus. Pensai, meus filhos amados, na única e grande verdade de que o verdadeiro templo da fé é o nosso coração, onde devemos adorar a Deus, nosso Pai.
            Incitamentos continuaram a cair naqueles corações rústicos e as arengas domingueiras do apóstolo da nova terra valiam como um "sursum corda".

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Texto extraído do livro "Caiapônia", de Camilo Chaves, 3.a edição, Egil, 1998.

 

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