FAMÍLIA MUNIZ
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 


Casos & Causos

 

Jogo de truco

         O jogo de truco é uma tradição em nossa família, que vem passando de pai pra filho ou de avô pra neto, como foi o meu caso. A casa do Vovô Nenê Muniz era palco tradicional do Jogo de Truco, seja nos tempos da roça ou depois que se mudaram para Ituiutaba, MG, na Vila Platina, os parentes e amigos se reuniam e começavam a jogar, varando a noite, sob a luz da candeia ou da lamparina.

        Aos 11 anos de idade eu já me interessava pelo jogo e ficava sapeando de perto, mesmo sabendo que jogador nenhum gostava. Mas o Vovô era diferente, ele até me mostrava as cartas e com isso, fui conhecendo o valor de cada uma e as malícias de cada jogada ou de cada truque de falso. Como o Vovô Nenê dava boas gargalhadas cada vez que os adversários faziam um jogada errada ou a cada tento ganho ou a cada roubo seu, sem nunca mostrar o blefe. Não sou dos melhores jogadores, mas descarto muito bem, seguindo sempre os passos do meu professor. Na hora de cortar o baralho, passo duas cartas pra cima, fico na "paia", olho minhas três cartas e mesmo que elas sejam boas, repito as palavras do meu mestre: "Iiii!!! Prestô não, parceiro. Sete copa entra dela." E também sigo à risca este ensinamento, quando sou mão, estando com a sete copa, jogo na primeira, porque: "Esta morre mas não empata", dizia o Vovô Nenê.

       No jogo do truco, quem ficar com o zape e a espadia abaixo de pé, dificilmente perde, e no pé então, não tem como perder. Mas não me esqueço de quando ganhamos 6 tentos do Toninho. Vejam só a jogada: meu parceiro e amigo de muitos anos, o Zete (Divino Donizete Silva) era mão e tinha a sete copa (mas não jogou na primeira, como o Vovô Nenê sempre fazia) e eu tinha apenas um três que joguei no pé. O Toninho, que era o pé, trucou pra matar meu três, estando ele com o zape e a espadia. Consultei o parceiro e gritamos: "Mate o três, seu ladrão de tento." O Toninho, inocente e erradamente, pediu torna do meu três. Nessa hora, levantamos da mesa e gritamos, mais alto ainda: "Seis mio. Vale seis, ladrãozinho". Ele chamou, todo sorridente e confiante, mas quando tenta passar a espadia, meu parceiro mete a sete copa em cima, deixando o zape no curral. Que mancada, Toninho!

        O João Rosado da Silva Neto desde pequeno se viu às voltas com o jogo de truco. Em sua casa, todas as vezes que seu pai ia arrumar a mesa pra jogar, ele sempre estava junto, querendo participar do jogo. No dia do casamento de seus pais, Antonio Rosado Muniz "Toinzico" e Maria Dulcinete Balbino Rosado "Nêga", João Neto já contava 3 anos de idade e estava presente à cerimônia religiosa, na Igreja Matriz de São José, em Ituiutaba, Minas Gerais. Foi uma cerimônia simples onde se achavam presentes somente o Padre, os noivos e os padrinhos. Quando João Neto viu o Padre forrando o altar da igreja para dar início à cerimônia do casamento, perguntou ao seu pai, bem baixinho: "Pai, vai jogar truque?"

        O Antenor Rosado Muniz, caçador e jogador de truco dos mais afamados da Fazenda do Barreiro, completou 87 anos em 2017. Num jogo de truco, na casa de seus sobrinhos, Valtenis e Maria, o Antenor e o Valtenis, com 61 anos de idade, cabelos brancos, truqueiro do "córgo das goiaba", como ele mesmo diz, participaram de uma jogada que eles nunca tinham visto. Os dois eram parceiros, e seus adversários eram a Edna e seu esposo, Maurício. O Maurício fez a primeira e tornou uma figura, ficando com outra na mão. O Antenor jogou um dois e ficou com o zape; a Edna, então, trucou para fechar o Valtenis. Este olhou para o seu parceiro, e a mandou fechar. A Edna, que tentava um roubo, jogou outro dois. O Valtenis, para garantir o zape do parceiro, arribou um "seis mio, ladrona!" A Edna contou os tentos: ela havia pago sete milhos e o Maurício recebido apenas três. Então, mesmo sem ter nem mais um ás para resto, ela disse: "Pode abrir, vamos acabar com esse jogo." Quando o Valtenis, com um sorriso sem graça, mostrou suas duas figuras, a Edna e o Maurício ficaram aliviados, pois em vez de perderem o jogo, ganharam seis tentos. Já o Antenor Rosado, mostrando o zape, arregalou os olhos, encarando seu parceiro, e disse: "Ocê tá doido, Nhanhão!"... O Valtenis, e todos nós, rimos a valer.

        O Ibar Luiz Santos Marques, nome artístico: Dombar, tocador de viola caipira, compositor e cantor sertanejo, compôs — parceria de Ageu Xavier e Denys — e gravou com o Donizete a seguinte moda de viola:

JOGO DE TRUCO

(Clique no título acima para ler a letra da música).
       

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A porca

        Orozimbo e Nenê Rosa, irmãos, moravam na Fazenda Santa Bárbara, e suas terras eram separadas por uma cerca de arame farpado. Cada um deles tinha uma porca que se pareciam demais por serem irmãs da mesma ninhada. Depois de algum tempo, estas porcas procriaram uma manada de leitões cada uma e a porcada estava estragando a roça do Orozimbo.

        Certo dia, ao encontrar-se com seu irmão Nenê, Orozimbo disse-lhe:

        — Compadre Nenê, dá um jeito de fechar seus porcos porque eles estão entrando na minha roça e estragando tudo. Tô avisando! feche os porcos, senão vou matá-los um a um, se eles forem de novo pra minha roça.

        Nenê Rosa disse:

        — Compadre Orozimbo, meus porcos ficam fechados o tempo todo. Só se eles pularem a cerca, irem na sua roça, voltarem e pularem pra dentro do chiqueiro."

        No outro dia, lá estavam de novo os porcos na roça do Orozimbo.

        Orozimbo ainda avisou mais uma vez para que Nenê Rosa ou a sua esposa, Tia Bulanda, fechasse os porcos no chiqueiro.

        Um dia de manhã, Orozimbo passou a mão na espingarda e falou pra sua esposa:

        — Dolorita, hoje eu vou ensinar aquela porca a não invadir minha roça. E saiu pisando firme, decidido como ele só.

        Nenê Rosa não se preocupava, mas Tia Bulanda, pra evitar uma confusão entre os irmãos, resolveu conferir se o chiqueiro estava fechado naquele dia, para que os porcos do Nenê Rosa não fossem pra roça do seu irmão Orozimbo.

        A mulher do Orozimbo, na hora de dar o trato para os porcos, esqueceu de fechar o chiqueiro e a porcada dele saiu e foi pra sua roça. Quando Orozimbo viu aquela porca, não pensou duas vezes. Levou a espingarda ao ombro, mirou e atirou. A porca caiu, grunhindo.

        Orozimbo foi chegando mais perto e ao ver a porca morta, exclamou:

        — Gente! Mas essa porca é a minha, uai! — Mas completou em seguida, resignado: — Não tem importância, que isto sirva de exemplo.

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Atos falhos do cérebro

         Nosso cérebro é uma caixa de surpresas. Ele é muito poderoso e dizem que o ser humano "só usa dez por cento de sua cabeça animal". Mas, às vezes, este poderoso "computador" nos prega algumas peças, os chamados "Atos falhos", tais como esquecer de um compromisso importante ou até não lembrar de nada do que aconteceu há alguns segundos. Um fato curioso que acontece é quando nosso cérebro "mistura" tudo e o resultado é que falamos palavras trocadas. Isto nunca aconteceu com você?

        Vou narrar alguns casos acontecidos na Família Muniz.

 

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        Certa vez minha irmã Ednair, que na época já era casada, foi almoçar na casa de minha mãe, num domingo qualquer. Almoçamos e ela ficou por ali mais um pouco, conversando e ajudando minha mãe na cozinha. Em dado momento ela diz à Dona Dorcina:

        — Mãe, preciso ir embora.

        Dona Dorcina respondeu com uma pergunta:

—  Ir embora pra que, Ednair? Você não vai fazer nada!

        — Vou sim, mãe, tenho que pôr o "cuzinhão feijá" pra janta.

 

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        Dona Bazilina era uma fazendeira de vários alqueires e recebia muitos convidados em sua fazenda. Outro dia chegou em sua casa Teodorinho Barbosa, montado em seu cavalo. O rapaz era um tanto quanto orelhudo e Dona Bazilina, admirada com o tamanho daquela orelha, ficou pensando:

        "Que rapaz oreiudo!" "Como é grande a sua orelha!" "Oreiudo!"

        Teodorinho apeou, amarrou seu cavalo numa árvore e, todo sorridente, cumprimentou Dona Bazilina:

        — Boa tarde, Dona Bazilina.

        Dona Bazilina estendeu-lhe a mão e respondeu ao cumprimento, mas, em vez de falar "boa tarde", disse ao rapaz:

        — "Oreiudo"!

 

        Noutro dia o senhor Joaquim foi almoçar na casa da Dona Bazilina. Ele era conhecido na redondeza por Joaquim Pipoca, mas detestava este apelido e até brigava quando assim era chamado. Dona Bazilina ficou preocupada em não chamar o seu convidado pelo apelido. E esta frase ficou martelando o seu cérebro a manhã toda: "Não posso chamá-lo de Pipoca!" "Não posso chamá-lo de Pipoca, não posso!"

        Na hora de servir o almoço, "seu" Joaquim serviu-se da mesa farta e já se preparava para dar a primeira garfada, quando D. Bazilina aproximou-se com um vidro de pimenta na mão e lhe ofereceu:

        — "Seu" Joaquim, o senhor aceita "Pipoca"?

 

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        Nossa família sempre jogou truco, desde que me entendo por gente, vejo jogo de truco na casa dos parentes, onde vou passear.

        Um dia, jogando truco com minhas primas Dulce e Neide — filhas da Tia Doracina e do Tio Gerson —, aconteceu o seguinte: Eu era parceiro da Neide, e minha esposa Helice jogava com a Dulce. Como sempre, elas estavam perdendo e nada fazia as cartas virarem. De repente, a Dulce exclamou:

        — Edson, vamos trocar este baralho. Parece que estas "marcas estão cartadas"!

 

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        O café da Vovó Lena era muito famoso na redondeza. Café forte e margooooso! — Eu nunca tomava do seu café.

        Passeando na casa de meus avós maternos: Vovô Nenê Muniz e Vovó Lena, Tio Bebé — irmão do meu pai —, estava sentado na sala junto com outras pessoas. Quando a Vovó Lena veio trazer o café, Tio Bebé ficou pensando: "Dona Helena vai me oferecer café e o danado deve estar margooooso! Como é que eu vou fazer?"

        E a Vovó Lena, chegando com o bule e a xícara, perguntou:

        — Bebé, ocê aceita café?

        Ao que ele respondeu:

        — Não, Dona Helena, "fico margoso"!

 

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        Um fazendeiro, no Barreiro do Valadão, estava muito atarefado em sua fazenda porque havia contratado três peões para limparem o rego d'água e ele precisava vir pra cidade ainda de manhã, pegando carona com o leiteiro. O homem andava de um lado para o outro, parecendo nervoso, enquanto que sua mulher estava na cozinha, espremendo alguns queijos, pra ele trazer pra cidade. De repente um dos peões vai ao seu encontro, e diz:

        — "Seu Zé", estou com a cabeça doendo, dá para o senhor trazer um remédio da cidade pra mim?

        E o fazendeiro respondeu:

        — Deixa de moleza, rapaz, vai trabalhar senão vocês não dão conta de limpar o rego antes do pôr do sol.

        O pensamento ficava entre os queijos que sua mulher espremia e o rego d'água que os peões estavam limpando.

        Neste momento ouviu-se o ronco do motor do caminhão do leiteiro, que já estava passando pelo mata-burro. O fazendeiro saiu em disparada, chegou na janela da cozinha e perguntou:

        — Muié, ocê já espremeu o "rêgo"?

 

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        Gosto muito de ir passar os fins de semana na Fazenda Saltador, São Jerônimo, Gurinhatã, MG, de propriedade do Tio Orípedes Muniz de Souza e da Tia Joana Batista Muniz. Certo dia estávamos conversando em volta da mesa quando chega o meu primo Ronaldo, com uma guariroba atravessada no ombro. Eu, como não gosto de guariroba, ainda brinquei com ele:

        — Pra mim é trabalho perdido carregar todo esse peso, primo.

        Tio Orípedes, examinando melhor o coqueiro-amargoso, disse para o filho:

        — Deixa de ser besta, Ronaldo, você podia ter limpado esta guariroba lá no mato mesmo, pra evitar carregar tanto peso à toa. Depois de limpa, não vai sobrar nada!

        E o Ronaldo respondeu, nervoso:

        — Ara, pai, cavalo "olhado" não se "dá" os dentes!

 

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        Quando pequeno, o tio Divino José Muniz andava sempre pelado pela casa e tinha o costume de se enganchar no pé de quem estivesse com as pernas cruzadas, para balançar.

        Tio Véio Teixeira veio visitar sua irmã, a Vovó Lena, a mãe do Tio Divino. Já na sala, sentado no grande banco que ali existia, Tio Véio cruzou as pernas. Logo logo tio Divino se aproximou dele e pulou nas sua pernas começando a balançar. Tio Véio olhou pra ele e resmungou:

        — Sai daqui, menino, "fica limpando esse butão no cu da gente!"

 

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        Tio Véio Teixeira era meio-surdo (em 28 de janeiro de 1999 ele completou 95 anos e faleceu um dia depois).

        Quando era mais jovem ele trabalhava muito. Em um mutirão para quebrar milho, lá estava o Tio Véio com a mão na massa, digo, nas espigas. Quebrava daqui, quebrava dali, de repente encontrou uma cabaça grande, muito viçosa. Pegou-a todo sorridente mas, examinando melhor, constatou que os cupins haviam estragado a cabaça por baixo. Decepcionado, deixou a cabaça ali mesmo e continuou seu trabalho.

        Nisto chegou seu compadre Marcolino Pato*, que também não escutava bem, e cumprimentou o Tio Véio, quase aos gritos:

        — Tarde cumpade, cumé que tá?

        — Tudo bem cumpade!

        Marcolino Pato pegou então a cabaça para examiná-la, e continuou a conversa:

        — E a cumade Lázara, tá boa?

        O Tio Véio, achando que seu compadre falava da cabaça, respondeu:

        — Tá muito boa não, cumpade, "tá bruquiada por baixo".

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Mingau de milho verde

         O cenário desta história, acontecida há alguns anos, é uma fazenda à margem esquerda do Rio da Prata, na balsa de cima. Nesse local, onde antes existiu uma velha ponte de madeira que rodou em uma forte enchente, meu pai construiu uma balsa, com três grandes canoas, para a travessia do rio. À beira do rio e da estrada ficava a sua venda, e nos fundos da venda a nossa casa, feita de casqueiros de aroeira, onde eu morei até os cinco anos de idade.

        O rico fazendeiro tinha cinco filhos: um homem e quatro mulheres. Aos quinze anos, Cida, moreninha linda, começou a namorar Nenê, um balconista que atendia na venda do Senhor Barão, de frente a uma loja de tecidos, de propriedade da família da moça.

         A mãe da menina tentava impedir, a todo custo, aquele namoro e contava com o total apoio de Dona Rose, avó materna de Cida. O rapaz era simples, filho de lavrador e, em seu conceito, não era um bom partido para a sua filha.

        Cida sofria com os severos castigos da mãe, que tentava dissuadi-la, dizendo-lhe: "Esse rapaz não serve pra você!" "Ele não tem onde cair morto." "Você merece casar com filho de fazendeiro!" Outras vezes, aconteciam discussões, envolvendo a austera avó e a meiga neta. Mas de nada adiantou, eles não desistiam dos encontros amorosos, pareciam seriamente interessados na união conjugal.

        O tempo correu, e Nenê, encheu-se de coragem e pediu Cida em casamento. O fazendeiro, homem muito calmo, correto e de bom coração, pigarreou, coçou a espessa barba, deu-lhe conselhos, olhou de soslaio para a esposa e a sogra — que faziam gesto de negação com a cabeça — e aceitou o pedido. Porém, as artimanhas das duas mulheres para destruir o romance dos jovens continuaram. Agora, com uma dose de perversidade.

        Certo dia, a mãe e a avó, fizeram uma tachada de doce de figo e dois dos frutos maiores rechearam com estricnina para dar a Nenê. Por sorte, Cida, que vigiava tudo que a mãe e a avó faziam, viu e ouviu a trama. Ela já estava desconfiada e pressentia que algum perigo pairava sobre a cabeça de seu amado.

        À tarde, lá estava Nenê de chamego com a sua amada, quando Dona Rose entrou na sala e lhe ofereceu o doce de figo, colocando o prato sobre a mesa para que se servisse. Nenê, avisado pela namorada, recusou a oferta apesar de gostar daquele doce. Dona Rose não disse nada; voltou à cozinha, deixou na mesa o prato de doce, torcendo para que o rapaz comesse pelo menos um, o maior.

        Quando sua avó saiu da sala, Cida espetou um dos figos menores com um garfo e o deu ao namorado, dizendo-lhe: "Este você pode comer, Nenê!" Mesmo assim, ele agradeceu-lhe. O veneno poderia ter se misturado à calda.

        Dia a dia a situação foi se agravando. E, na ânsia de separar o casal, mãe e avó não mediam as consequências de seus atos.

        Na época da colheita do milho verde, fizeram pamonhas de sal, recheadas com pedaços de linguiça de porco, pamonhas de doce, entremeadas de queijo, e mingau de milho verde, salpicado de canela moída. Dona Rose e sua filha, sem saber que estavam sendo vigiadas pela menina, entraram na despensa e prepararam um prato especial para Nenê, colocando o mesmo veneno no mingau. Chamaram a irmã mais nova de Cida e mandaram a encomenda para o rapaz, como se fosse um agrado da namorada querida.

        Cida, desesperada, saiu correndo do esconderijo, pegou lápis e papel e escreveu um bilhete ao amado. Disse à irmã que entregasse o bilhete a ele com o prato de mingau, pedindo-lhe, quase suplicando, que não se esquecesse de entregá-lo. A caçula das meninas não estranhou a aflição da outra, pensando ser um bilhete com palavras de amor, igual a tantos outros de que sempre fora portadora.

        Na venda do senhor Barão, naquele domingo, havia dois Nenês: um era o namorado e o outro, um primo da moça. Eles jogavam truco quando a menina chegou com o prato de mingau e o bilhete, dizendo que eram para Nenê.

        "Qual Nenê?", perguntaram, e ela apontou o dedo para o namorado da irmã.

        Como já diziam os antigos: "Jogador não tem ação", o jogo não podia ser interrompido, Nenê somente trocou o presente de vasilha e devolveu o prato à garota. Guardou o mingau numa prateleira, colocou o bilhete no bolso da camisa e continuaram o jogo.

        Findo o truco, Nenê chamou os companheiros para comerem a iguaria, mas, ao ver o seu estado, ficou desconfiado. O mingau estava com uma cor estranha, roxa, quase preta. Então se lembrou do bilhete, e, ao abri-lo, teve a certeza de que se tratava de mais uma armadilha. No pequeno pedaço de papel, sua amada teve tempo de escrever apenas: "Não coma!"

        Nenê colocou um pouco do mingau para um dos gatos da venda. Ao dar a primeira lambidela, o bichano soltou um terrível miado e morreu. Então, Nenê foi até a janela e, num gesto impensado, despejou o mingau envenenado no terreiro. Mais tarde, constatou-se a tragédia: galos, galinhas, pintinhos, patos, patas, gansos, marrecos, galinhas-d’angola, perus e até o cachorro de estimação do senhor Barão morreram. Depois desse episódio, passaram a chamar o pobre rapaz de Nenê Mingau.

        Com esses acontecimentos, os jovens desistiram do namoro. Nenê mudou-se, e eles nunca mais se viram.

 

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Essa história de família foi publicada no livro "Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro" (Egil, 2002), de Edson Angelo Muniz, e reeditada na "Antologia de Contos" (Egil, 2005), publicada pela ALAMI — Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.

 

 

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Bolinhos envenenados

 

        O mutirão é uma forma de mão de obra gratuita que os lavradores prestam uns aos outros, reunindo-se todos os da redondeza e realizando o trabalho em proveito de um só, que é o beneficiado, mas que nesse dia faz as despesas de uma festa ou função.
        Na Fazenda Santa Bárbara, esta era uma das formas mais usuais para se plantar, colher ou bater arroz e outros cereais, queimar ou roçar pasto, construir uma casa, levantar uma cerca e assim por diante.
        Em 15 de dezembro de 1961, em um destes mutirões para bater pasto, aconteceu uma tragédia que abalou toda região: foi a do envenenamento ocorrido na fazenda do Sr. Adelino Freitas. Havia no local umas doze pessoas, alguns amigos e a maioria da mesma família. Os homens no pasto e as mulheres na cozinha cuidando do almoço e de outros afazeres. Após o almoço, na hora da merenda, todos foram comer bolinhos de polvilho feitos pela Dona Irinéia, mulher do Senhor Pedro. Após a merenda, a Floripa e a Joana se dirigiram para a casa de uma irmã que morava perto da casa do Vovô Nenê Muniz, quando começaram a passar mal e caíram no terreiro.
        Tio Guilherme, sendo avisado do ocorrido, pegou um de seus cavalos e o entregou ao Tio Lázaro Padeiro (irmão do meu pai, que neste dia estava trabalhando na construção da venda de tábuas do tio Guilherme) para que ele fosse lá no Buriti Grande, buscar o Chico Severino com o seu caminhão, dizendo a ele: "Lázaro, o cavalo é meu, mas as esporas são suas."

        Tio Guilherme foi avisar aos pais das meninas. Chegando na fazenda ficou petrificado. No local onde estavam roçando o pasto viu os corpos caídos, uns gemendo e chorando, outros se contorcendo de dor. Enquanto isso, Tio Marcílio, na tentativa de ajudar as duas meninas, deu uma salmoura bem forte para a Floripa, talvez por isso ela tenha se salvado, mas a Joana não bebeu por já estar com os dentes cerrados. "Nem com o cabo de uma colher eu conseguia abrir a boca da menina", contava Tio Marcílio.
        Foi aquela correria para tentar salvar quantos pudessem. Trouxeram todos para Ituiutaba, MG, na carroceria do caminhão do Chico Severino, acompanhados pelo Tio Guilherme, pelo Anazar e pelo Juca Lobo.
        Na estrada, passando pela Venda do Abacaxi, um dos envenenados morreu, e chegando ao Hospital São Joaquim, outro também faleceu. Quando Chico Severino voltava com os dois corpos pra fazenda, passando perto do aeroporto Tito Teixeira, recebe o recado para voltar porque outro acabava de morrer. Das 9 pessoas envenenadas, apenas 4 escaparam.
        A causa de tantas mortes é que os bolinhos da merenda estavam envenenados com "aldrim". Alguns dizem que uma lata de Aldrim 40 havia caído da prateleira e Dona Irinéia, a dona da casa, achando que fosse polvilho, apanhou do chão e colocou na lata de polvilho, depois, no dia do mutirão, preparou os bolinhos com aquele polvilho, que sem ela saber, estava envenenado. Outros dizem que a lata do polvilho já envenenado foi enviada à fazenda pela Ladir, nora do Sr. Pedro, para vingar--se da sogra que havia contado ao seu marido Lari uma suposta traição dela. Uma das evidências mais fortes é que o marido da Ladir e o garoto Paulo, que ela estimava muito, não estavam presentes ao dia fatídico. Houve investigação policial, prenderam a suspeita, mas nada puderam provar e por isso, dou o dito por não dito.
        Morreram neste dia o Senhor Pedro e três de seus filhos: Antonio José de Souza, José (noivo da Dina) e Joana (noiva do Leci).

        O Antonio Freitas, filho do Antonio Mudo, também foi envenenado, conseguiu se salvar, mas um ano depois, suicidou-se com um tiro no ouvido.    

 

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Mutirão do Athaíde Quirino

 

        O senhor Athaíde Quirino Ribeiro (24/03/1908 – 20/06/1969), filho de João Quirino de Morais e Mariana da Silva e Oliveira, era um dos fazendeiro da região da Santa Bárbara que ficou conhecido pelo seu jeito simples, alegre e divertido, e também pela sua seriedade nos compromissos assumidos. No ano de 1951 foi feito em sua fazenda, próxima do Patrimônio — arraial que se transformou na cidade de Gurinhatã, MG —, um grande mutirão para roçar o pasto e à noite foi realizada a festa já tão esperada. Durante a festa aparecem os "maleiros" — pessoas que não trabalhavam no mutirão durante o dia, mas que queriam participar da festança à noite —. Seu Athaíde Quirino pediu que eles se retirassem e que não adiantava pagar pra ficar porque não aceitaria dinheiro algum. Houve confusão mas seu Athaíde não voltou atrás na sua decisão e os "maleiros" foram embora.

        José Muniz de Oliveira "Zé Preto" e seu amigo Jerônimo, filho do João Nêgo, cantadores, tocadores de viola e tiradores de folia da região, que estavam presentes no dia do mutirão do Athaíde Quirino, compuseram uma moda de viola, contando a história deste mutirão:

 

Lembrança do Mutirão

 

Dia 20 de fevereiro do corrente que vai ino
Teve um grande mutirão lá no Athaíde Quirino
Teve 130 foice eu também tava assistino
É um homem de boa gerência é um homem de bão destino

Fizemos muito serviço, rocemos muita invernada
O homem ficou contente alegre dano risada
Agora vamos dançar agora estou mais folgado
Este resto que ficou eu já deixei empreitado

O serviço teve perigoso o Bastião que foi sem sorte
Tomou a foice na perna que foi uma pancada forte
A foice saiu do cabo num jeito muito estrambote
Que cortou com a cacunda quase igual se fosse o corte

Mas tudo correu em paz o serviço e o pagode
Foi um farturão danado mas também o homem pode
Andemos de automóvel, de caminhão marca Ford
Não teve nenhuma arrelia registrou marca recorde

Achei mais interessante foi a chegada dos maleiro
Eles que ganhou discurso do partido brigadeiro
O Ataíde falou dizendo eu não aceito dinheiro
Pedi uma demão aos amigos por não arranjar empreiteiro

Maleiro tinha dançado quando a fala escutô
Amontaram num sem graça e logo se afastô
E quem tinha trabalhado seus documento tirô
Aí fiquei de sala livre cidadão intimadô


Senhores que não trabalhou desculpa eu quero falá
Senhores faça o favor de um pouco esperá
Nóis pode se divertir nóis pode todos sambá
Aqueles que trabalhou estão em primeiro lugá

Tive dó do pessoal que não foi pra trabaiá
Não pôde ter regalia lá no baile pra dançá
Ficaram recuados ninguém podia sambá
E foi cachimbo apagado que o fumo não quis queimá

Veio gente do Patrimônio de segunda e de primeira
No automóvel do Chiquito e também de jardineira
Isto agora que vai mal perderam o especial
voltaro muito nervoso não pôde assistir ao baile

Foi muitas felicidade neste dia para mim
Vi muitas moça bonita igual as flor de jardim
Tinha uma mais faceira nunca vi bonita assim
Brinco de argola de ouro parece ser de marfim

Fiquei muito aborrecido quando amanheceu o dia
Os rapaz ia saindo eu não sabia aonde eu ia
Morena me convidou pra ir com ela aquele dia
Nela eu vivo pensando não posso ter alegria

O comentário que o povo fala é o assunto do mutirão
Não sei quando vai acabar a tal de recordação
Foi o que deixou saudade dentro do meu coração
Viva o dono da casa com a família e seus irmão.

 

 

Nota do autor: Num domingo, fui almoçar na casa de minha mãe, Dorcina Muniz de Oliveira, e pedi a ela para me mostrar algumas fotos antigas, para colocar no meu livro de Genealogia. Ele buscou uma latinha verde, bem antiga, onde guardava algumas fotos e outros papéis, e me entregou. Fiquei um bom tempo olhando tudo que ali se encontrava. Ao pegar um papel, amarelado pelo tempo, dobrado em várias partes, vi esta letra de música. A bonita caligrafia, que minha mãe me disse ser da Tia Terezinha Angela de Oliveira, irmã do meu pai, estava bem legível, apesar de ter sido escrita no ano de 1958. Então, publiquei esta moda de viola, no meu livro "Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro", e a reproduzi neste site, tal qual estava escrita naquele pedaço de papel, com as pronúncias coloquiais escritas pelos autores da letra.

 

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Caçadas e Caçoadas

 

        Os nossos antepassados sempre tiveram fama de bons caçadores. E muitos ainda contam casos ocorridos nessas caçadas...

        Numa caçada, lá no Rio Alegre, no Estado de Goiás, estavam Tio Orípedes Capivara, Tio Zé Duca, Tio Antenor Rosado, Zé Grosso, Zinho, Carlito, Tio João Grosso, Toinzico, com suas esposas e filhos.

        O Valtenis, filho do Zinho e da Araci, quando ficava nervoso, levantava uma veia do seu pescoço e ele conversava choramingando. O Tio Zé Duca, para implicar o Valtenis e vê-lo nervoso, o enfucava, dizendo que iria casar a Maria Helena, sua filha, com ele. Valtenis ficava possesso e queria investir no Tio Zé Duca.

        No outro dia, o Tio Zé Duca disse para o Valtenis:

        "Olha aqui, Valtenis, agora que a ponte de São Simão caiu, pra gente atravessar o rio eles colocaram lá um anzol bem grande. Quando a gente chega, eles prendem esse anzol no saco dos homens e os atravessam em uma carretilha..."

        O Valtenis, engrossando a veia do pescoço, perguntou de imediato:

        "Ara! e as muié, como é que faz?..."

        Foi gargalhada pra todo lado. E o Valtenis engrossando ainda mais a veio do pescoço...

 

*

 

        Na volta da caçada, a turma fez parada no Barreiro do Valadão, na casa do Tio João Grosso e da Tia Maria Abadia. Ali, por volta das 12 horas, eles fizeram almôndegas de uma das capivaras abatidas em Goiás e abriram um litro de pinga, para comemorar o retorno e a fartura de carne. De repente, a rolha que tampava o litro de pinga desapareceu.

        Tio João Grosso, brincalhão como ele só, disse, em tom de galhofa:

        "Acho que a Purcina intepretô e engoliu a rôia, achano que era uma almonga."

        Tia Purcina, com o rosto iluminado por um belo sorriso, retrucou:

        "Eu não, num tô bêba! Eu bebi só cinco xica!"

        E as gargalhadas, conversas, brincadeiras e causos seguiram até o pôr do sol, regados com muita cachaça e almôndega de capivara.

 

 

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