FAMÍLIA ANGELO
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

PERCILIANA MARIA DE OLIVEIRA "NÊGA"

       

 

 

Perciliana Maria de Oliveira, minha avó paterna, nasceu em 12 de dezembro de 1898, filha de Antônio Vicente da Silva e Rita Belarmina de Oliveira "Rita Margosa". Ela se casou, com Francisco Gonçalves Angelo, o "Nenê Padeiro", em 14 de abril de 1925, na Igreja Matriz de São José, em Ituiutaba, MG, e tiveram cinco filhos: Lázaro Batista de Oliveira, o "Lazaro Padeiro", Lázara Angelo de Melo, a "Lazica", João Angelo de Oliveira, o "Neinho", José de Oliveira Marques, o "Bebé", e Terezinha Angela de Oliveira. Vovó Nêga faleceu em Ituiutaba, no dia 17 de junho de 1966.     

Vovó Nêga era meiga, carinhosa, muito religiosa e uma benzedeira de mão cheia. Minha mãe contava que, certa vez, na fazenda onde meus avós paternos moravam, à beira do Rio da Prata, Vovó Nêga matou uma cobra somente com a sua reza. O Tio Lázaro, seu filho mais velho, estava brincando no terreiro quando a Vovó Nêga a viu. Então, vovó, que tinha muito medo do réptil, subiu numa das cercas do curral e começou a rezar. Terminada a reza, ela desceu, pegou o pequeno Lázaro no colo, e viu a cobra, toda esticada, mortinha da silva.

Vovó Nêga corrigia os seus filhos com palavras doces e bons conselhos. Às vezes, ela dizia: "Hoje eu bati no meu filho com uma cabeça de palha", achando que havia se excedido no castigo. Ela adorava contar histórias e cantar, e nós adorávamos ouvi-la. Vovó Nêga era muito trabalhadeira, levantava bem cedo, cuidava da casa, fazia queijos, requeijões, doces... e preparava três refeições por dia para os peões; porém, corria o boato, à boca pequena, que sua comida não era muito gostosa. Tio Neguinho Muniz, irmão da mamãe, que trabalhou para o Vovô Nenê Padeiro e a Vovó Nêga, tomou raiva de macarrão de tanto comer do macarrão que ela fazia. Mas o Vovô Nenê Padeiro enchia a boca para elogiá-la: "Eh! A Nêga faz uma comida muito gostosa."

 

*

 

Depoimento de Ednair Ângela Muniz:

 

"Falar sobre esta figura, para mim grandiosa, importantíssima, considerei uma tarefa difícil por um longo tempo. Penso hoje ser capaz de cumpri-la.

Bom, Vó Nêga — como eu a tratava — foi tudo o que disse meu irmão, autor desse livro; acrescentarei algumas reminiscências pessoais.

Ela ficou viúva cedo, pois vovô faleceu aos cinquenta e sete anos. Desde então, passou a residir (ela e o Helinho, seu segundo neto, o qual ela criou enquanto viveu) primeiramente com os filhos casados; ora na casa de um, ora na casa de outro, mas onde permanecia mais tempo, com certeza, era em nosso lar — filho Neinho e nora Dorcina. Depois, Vó Nêga passou a morar também com suas filhas: a Tia Lazica e a Tia Terezinha.

Como eu disse em meu livro Miryam ou Flor de Manacá: primeiro neto sempre é o primeiro neto, né? Que o digam os avós. Pois não era eu a primeira neta? Eu a amava especialmente e ela tudo  fazia  por  mim.  Sou  a prova ainda viva de que benzição cura, sim. Depende apenas da(o) benzedeira(or), da fé e do merecimento da(o) benzida(o).

Veja o(a) leitor(a) amigo(a) como: a começar pela benzição de quebranto — mau-olhado —, desde bebê; depois, de todas as doenças infantis (à época acontecia muito, pois os filhos dos sertanejos — ou não, sendo pobres — não eram vacinados).

Fui 'o pai e a mãe' de tais doenças; só não ‘peguei’ poliomielite — ‘paralisia infantil’ — e varicela. A 'tosse comprida' — coqueluche — quase me acaba, se não fossem as rezas de Vó Nêga e o leite de égua; o sarampo levou-me à cama por dias e dias; nem sequelas ficaram! Tratamento caseiro, pela mesma pessoinha encantadora e incansável, tendo como enfermeira minha mãe, Dorcina — o nome de mamãe, a maioria da família pronunciava ‘Dôrcina’; portanto, pensava eu: ‘o nome de mamãe rima com dor e sina’, isto não me agradava. Atualmente tenho a convicção de que seu nome rima com Docina (doce).

Ah, a questão do corte enorme no lado interno de meu pé esquerdo (bem no meio, onde a pele é mais fina e passa uma veia importante) é um caso à parte. Corte com caco de vidro, começando leve, na sola, se aprofundando no início do peito do pé, chegando quase ao osso. Sangrei abundantemente. Ao grito de meu Tio Sebastião chamando pela irmã — já dizendo o que ocorrera —, acudiu Vó Nêga que, felizmente, mais uma vez, encontrava-se conosco, trazendo com ela açúcar e borra de café. Com o açúcar ela começou a estancar o sangue, a borra de café, segundos depois, estancou-o quase que totalmente; logo após veio a bacia esmaltada de branco, pelo meio com água fria filtrada em filtro de barro, onde foram retirados, delicadamente, por vovó, o açúcar, a borra de café e alguns caquinhos de vidro; quando foi trocada a água, vi alguns filetes de sangue. Desde o início do acontecimento e do procedimento, eu a tudo observava, quieta e calada.

Como o autor desse livro de pesquisa, história e genealogia — com personagens reais, portanto —, disse-me ‘in off’: ‘Vovó Nêga devia ter uma bela voz, pois lembro-me que aprendi com ela duas músicas sertanejas, as quais nunca ouvira’; confirmei, pois eu recordava a melodia e a letra da história do Condão-Sererê, que ela nos contava e cantava, onde as personagens comunicavam-se cantando, mas levei vinte anos para relembrar toda estória *. Sim, Vó Nêga possuía belíssimo timbre de voz.

Das inúmeras estórias de vovó, apenas relembrei as do Condão-Sererê e Os filhos de Eva. Quando meu irmão, Edson Angelo Muniz, cantou as músicas citadas acima, cantei com ele, pois as cantávamos juntos, quando crianças; como também várias outras. Ensaiávamos e até nos apresentávamos em pequenos shows de calouros, no cinema do Kubtischek, em Cachoeira Dourada de Minas, e na Rádio Difusora AM, em Ituiutaba, MG. Porém, não mais as lembrava, tampouco sabia ser Vó Nêga a nos ensiná-las. Edson disse jamais tê-las esquecido; já adulto, e sendo expert em Tecnologia da Computação, descobriu os autores e os intérpretes das duas melodias: ‘A moça que dançou com o diabo’ (Composição de Teddy Vieira e Jaime Ramos — Interpretação de Vieira & Vieirinha) e ‘Dois corações’ (Composição de Teddy Vieira, Tonico e Tinoco — Interpretação de Tonico & Tinoco).

Para terminar meu relato, ainda mais duas ou três coisas, sabendo eu ficar muitas outras em meu consciente e subconsciente: vovó cosia para mim; presenteava-me com vestidos feitos por ela; foi minha estilista e costureira dos cinco aos doze anos, salvo alguns que papai Neinho comprava os tecidos e a Terezinha, uma vizinha em Cachoeira Dourada — moça amiga de minha irmã caçula — os costurava; ora, falhou-me a memória: Vó Nêga já não costurava para sua neta depois dos doze anos porque faleceu quando ela contava doze primaveras!

Quanto às benzições, e como sábia na arte de cura também através das plantas, são dela as ‘simpatias’ — que obviamente contêm rezas, orações — responsáveis por curar hérnias inguinais em meus dois irmãos. Com certeza, em todas as relatadas curas de Vó Nêga, havia a mão de Deus.

Bom, não devo e não quero recitar as palavras as quais ela dizia e as respostas que deveriam ser dadas por mim; Vó Nêga não quis transmitir seu legado oral de mãe para filha ou, geralmente, para a primeira neta, apesar dos insistentes apelos dessa, que esse relato faz.

De onde está, Vovó,zinha: eu a amo, a amo, a amo..."
 

Ednair Ângela Muniz.
 

São Pedro, SP, 13 de abril de 2015.

 

__________________________

* In Miryam ou flor de manacá, Ednair Ângela Muniz, Egil, Ituiutaba, MG, 1999, p. 46-51.     

 

      

VOLTAR