FAMÍLIA ANGELO
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 

TOMÉ ANGELO DE SOUZA "TOMEZINHO"

       


     

 

Tomé nasceu em 26 de agosto de 1946, em Ituiutaba, MG, filho de Jerônimo Gonçalves Angelo, o "Fiíco", e Maria Ambrósia de Jesus. Ele começou os seus estudos no Educandário Ituiutabano, passou pelos bancos escolares da Escola Estadual Cônego Ângelo e da Escola Estadual João Pinheiro, onde estudou até a 3.ª série primária.

Tomezinho... era assim que o Neinho, meu pai, o chamava, e é assim que eu também o chamo. Lembro-me  quando ele trabalhava como cobrador na jardineira do Neinho, que corria para os lados da Fazenda Santos Fortes. Ele morava conosco e brincava muito comigo e meus irmãos.

No dia em que eu enfiei as mãos na palha de arroz que estava sendo queimada, ao lado de uma máquina de beneficiar arroz que ficava em frente à casa do Vovô Nenê Muniz e da Vovó Lena, na Vila Platina, em Ituiutaba, minha irmã, Ednair, que sempre estava do meu lado, saiu correndo e chamou o Tomezinho. Ele pegou-me nos braços e correu para a jardineira, gritando pelo meu pai para levar-me ao hospital.

Na volta para casa, dentro do jardineira do meu pai, eu com as mãos enfaixadas, com queimaduras de segundo grau, o Tomezinho descascava balinhas Chita e as colocava em minha boca, adulando-me com palavras carinhosas: "Não chore, 'Disson', vai sarar, vai sarar!" — "Disson" é como o Tomezinho chama o seu primo Edson Angelo Muniz.

Nesta época, Tomezinho tinha dezessete anos e eu apenas sete, mas gostávamos de ferrar luta no colchão onde ele dormia, em nossa casa — casa onde eu nasci —, na Vila Marta Helena, em Ituiutaba. Numa dessas brincadeiras, senti uma dor intensa na virilha, do lado esquerdo. Começou aí uma longa história: ponta de hérnia inguinal, que só teve fim depois de uma cirurgia, quando eu já estava com quarenta e cinco anos.

 

 

UMA HISTÓRIA SOBRE OS ÔNIBUS DO NEINHO, RELATADA PELO TOMEZINHO

 

Desde os seus doze anos que Tomezinho foi trabalhar com o Neinho, como cobrador, na linha Ituiutaba-Santos Fortes. Primeiramente em uma peruinha Chevrolet, depois, num Chevrolet 64, que chamávamos de "Expresso Beiçudo".

Certa vez, indo de Ituiutaba para a Fazenda Santos Fortes, Tomezinho ouviu sua barriga "roncar", de tanta fome que ele sentia. Então, lembrou-se de que o senhor Baiano, dono de uma venda na fazenda, estava levando várias bolas de mortadela para o seu estabelecimento, e que elas estavam no bagageiro do teto do ônibus, junto com as malas dos passageiros e um saco com pães de um fazendeiro. O ônibus do meu pai, nesta época, estava com um buraco na lataria, na parte de trás, perto da escada de ferro que dava acesso ao bagageiro. Tomezinho maquinou uma ideia, e conversou com o dono dos pães. Este, concordando com o plano do Tomezinho, perguntou ao meu pai, que era o motorista:

— Seu Neinho, estou muito enjoado. Posso ir lá pro bagageiro, para tomar um pouco de ar?...

Meu pai, sempre prestativo com seus passageiros, disse-lhe:

— Pode ir, Seu Vicente; mas tome cuidado para não cair, porque a estrada tem muitos buracos e o ônibus sacoleja bastante...

Seu Vicente, pegando uma faca, passou pelo buraco na lataria e subiu para o bagageiro. Abriu o saco de pães, descascou uma bola de mortadela e foi fazendo sanduíches e entregando-os ao Tomezinho, que distribuiu os sanduíches com todos os passageiros e pegou um para ele e outro para o meu pai. Seu Vicente comeu um sanduíche também e voltou para o interior do ônibus, dizendo ter melhorado do enjoo. O Baiano também comeu daquele gostoso sanduíche, sem desconfiar que eles foram preparados com uma de suas mortadelas...

 

*
 

Depois que meu pai vendeu as linhas de ônibus para o Aires Valadão, Tomezinho, por alguns anos, continuou trabalhando de cobrador para o novo dono. Depois, ele voltou a trabalhar de cobrador junto com o meu
pai, na Empresa de Transportes Rápido Triângulo. Só que, desta vez, o Neinho não era o patrão, ele trabalhava como motorista, fazendo a linha Ituiutaba-Cachoeira Dourada de Minas.

Em 1967, Tomezinho mudou-se para a cidade de Jataí, Goiás, para trabalhar na Viação Jataí, empresa de ônibus daquela cidade. Muito namorador, Tomé foi um destruidor de corações até que encontrou a sua cara metade: Orondina Quintina de Souza, a "Dina", e naquele mesmo ano, no dia 16 de setembro, eles se casaram, no Cartório de Registro Civil de Paranaiguara, GO. Dina e Tomé viveram juntos por vinte e três anos, e tiveram cinco filhos (Família 019A).

Tomé é neto de uma quitandeira de mão cheia: a Vovó Rita Padeira, e, de todos os descendentes dela, ele foi o único que herdou os dotes de sua avó. Em 1971 Tomezinho arrendou uma padaria, começando aí a sua ascensão financeira. Trabalhou muito e ganhou muito dinheiro; porém, o sucesso mexeu com sua cabeça e ele se enveredou por um caminho perigoso, levando uma vida desregrada, deixando a esposa e os filhos em casa e saindo para a farra: fumo, álcool, mulheres... Essas farras lhe custaram muito caro; perdeu todo o seu patrimônio e também o seu maior tesouro: a família. Em 1990, percebendo que não merecia a esposa que tinha, Tomé se separa da Dina.

Mas ele não ficou sozinho, logo se casou com a Suely Santos do Nascimento, com quem teve três filhos. Porém, Suely se separou de Tomé. Segundo ele, Suely o deixou porque descobriu que ele não era rico como ela pensava...

Tomé Angelo se candidatou ao cargo de vereador por Jataí, no PMDB, em 1982, 1986 e 1992, mas em nenhuma dessas eleições ele foi eleito.

De 1983 a 1988, Tomé trabalhou para o Estado de Goiás, em Jataí, na Delegacia Fiscal, no INAI — Instituto de Avaliação de Imóveis —, como Avaliador de Imóveis. Trabalhou também como autônomo, fazendo serviços em fazendas, até que, em 1996, começou a trabalhar na Câmara de Vereadores de Jataí, como Assessor do Vereador Geovaci Peres de Castro, e em 2000 começou a trabalhar como auxiliar de escritório, na Junta Comercial de Jataí, onde trabalhou até se aposentar. Porém, Tomé nunca abandonou por completo o seu ofício de padeiro. Para completar o seu orçamento ele atende encomendas, em sua casa, fazendo pães de queijo, rosquinhas e biscoitos deliciosos...

Em 1998 Tomé passou a morar com a Herotildes Bueno, com quem não teve filhos; porém, em 2013, se separou dela também.

 

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DEPOIMENTO DE TOMÉ ANGELO DE SOUZA

 

 

Antonio Angelo de Souza
Sede da Fazenda Lagoinha — Município de Canápolis, MG

 

A memória do ser humano é uma caixinha de surpresas.

Quando o "Disson" (*) esteve em minha casa, em Jataí, e me mostrou a foto acima, que seria publicada no livro de nossa família, veio à minha mente, como se fosse um filme, muitas imagens da Fazenda Lagoinha.

Lembrei-me de quando eu era menino e ia passear com a minha avó, Rita Padeira, Irmã do Tio Fiinho, que ficou conhecido em Canápolis como Chico Angelo, nesta fazenda, de propriedade dele.

Naquela época, esta fazenda era parada obrigatória dos ônibus do Transporte Coletivo Uberlândia Ltda. — empresa que passou a se chamar Transcol. Os ônibus vinham de Uberlândia, passavam em Monte Alegre, Canápolis, paravam na Fazenda Lagoinha e seguiam seu destino, passando também pela Fazenda Pirapitinga, de propriedade de Antonio Angelo de Souza, filho do Chico Angelo.

A Fazenda Lagoinha era bem movimentada: tinha farmácia, açougue, armazém, padaria, escola, loja de tecidos e roupas, campo de futebol e igreja. Os padres de Canápolis se deslocavam até a fazenda para celebrar missas e casamentos. Nos fins de semana havia um serviço de alto-falante com informações e ofertas de músicas aos presentes.

A casa da fazenda, com dezoito cômodos, contava com água encanada e não se usava mais candeia, ou lamparina, ou lampião a gás, era iluminada por uma luz amarela, ligada à energia elétrica fornecida por uma miniusina movida a roda-d'água.

Saudades, quantas saudades... da Fazenda Lagoinha e do Tio Fiinho.

 

(*) "Disson" é como o Tomezinho se refere ao seu primo Edson Angelo Muniz.

 

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Clique aqui para ler outra história sobre os ônibus do Neinho, escrita por Albéres Augustinho Ribeiro.

 

 

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