FAMÍLIA ANGELO
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

LÁZARO BATISTA DE OLIVEIRA "LÁZARO PADEIRO"

       


     

Lázaro Batista de Oliveira, conhecido por Lázaro Padeiro, nasceu no município de Ituiutaba, MG, em 7 de maio de 1926, e faleceu em 17 de setembro de 2003, na cidade de Ituiutaba, onde residia. Ele era o filho mais velho dos cinco filhos de Francisco Gonçalves Angelo, o Vovô Nenê Padeiro, e de Perciliana Maria de Oliveira, a Vovó Nêga.

Antes de se casar, Lázaro teve um relacionamento amoroso com a Sebastiana Souza, com quem teve um filho: Hélio Jorge de Oliveira, o "Helinho", e em 1960, na Igreja Matriz de São José, em Ituiutaba, Lázaro Batista de Oliveira se casou com Maria Helena de Oliveira, filha de João Baltazar da Silva e Geraldina Flozina de Jesus. Lázaro e Maria Helena tiveram cinco filhos: Francisco Carlos de Oliveira, o "Chiquinho", Cláudio José de Oliveira (falecido), José Augusto de Oliveira (falecido), Luís Carlos de Oliveira, o "Professor Teco", e Marild Aparecida Angela de Oliveira; e eles ainda ajudaram a criar três meninas: Fernanda Aparecida de Brito, Luciana Cristina de Brito e Jaqueline Aparecida Muniz.


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Depoimento de sua filha, Marild:

 

"Meu querido e adorado Pai, é muito bom ter sua lembrança guardada dentro de mim. Não tivemos muitos momentos juntos, talvez não o tanto que eu queria ter tido, mas mesmo assim ficou aquele gostinho de quero mais, de ter usufruído mais do seu saber, da sua bondade, do seu caráter.

Você sempre me apoiou nas minhas decisões e me deu força para continuar lutando contra as marés fortes que teimavam em aparecer. Suas sábias palavras ainda norteiam meus caminhos, minhas atitudes e meus ensinamentos.

Vem um sentimento de saudade, de ausência, de impotência perante a sua partida. O tempo passou rápido; contudo, a vontade de expressar em palavras o vazio deixado por você é imensa. Como você dizia: 'Papel aceita de tudo', estou tentando fazer este papel aceitar minhas apologias de filha.Seu legado para nós, seus filhos e seus netos, é sublime. Papai, onde quer que você esteja, sei que está nos guiando e nos abençoando.

Fique em paz, e mande muita luz para nós. Obrigada por ter vindo passar uma temporada aqui, neste Planeta, conosco!

Lembro-me de uma história que mamãe nos contou sobre quando ela tinha cerca de onze anos e estava brincando de balanço na fazenda, embaixo de uma árvore. Nesse belo dia meu pai apareceu, montado em um cavalo baio, e a viu: toda linda, alegre, cabelos ao vento, vestido de florzinha, e foi naquele momento que ele se apaixonou por ela e disse que ia esperar ela crescer para se casarem.

Minha mãe e suas irmãs trabalhavam para o Lázaro, meu pai. Ele, que era um grande fazendeiro naquela região, não conteve seus sentimentos por aquela garotinha bela e sapeca. Minha mãe e suas irmãs apanhavam algodão na fazenda do meu pai e adoravam fazer travessuras. Para enganar o patrão, e ganhar mais dinheiro, colocavam torrões de terra dentro dos sacos, misturados com o algodão, a fim de que os mesmos ficassem mais pesados na hora da conferência. Meu pai fingia que não via nada e ria das peripécias da menina e de suas irmãs.

Foi assim o começo de uma linda história de amor, com um final superfeliz."

 

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Depoimento de Gerson Alves de Lima:

 

"Eu fui amigo do Nenê Padeiro, da Dona Nêga e de todos os filhos deles. Muitas vezes, eu ajudei eles na roça, assim como eles também me ajudaram, em forma de mutirão.

Num desses dias, quando plantávamos arroz, usando a matraca, a filha caçula do Seu Nenê e da Dona Nêga, Terezinha Angela, estava ajudando também, e nenhum dos homens que estavam plantando conseguiu ser mais rápido do que ela. Ela era muito bonita, e tinha muita garra.

O Lázaro Padeiro era muito trabalhador e um bom companheiro; porém, quando bebia, ele mudava, ficava muito nervoso. E além de não levar desaforo pra casa, ele, ainda, procurava encrenca com todo mundo e acabava metendo os pés pelas mãos.

Certo dia, no mês de fevereiro, numa roça que o Faustino Queiroz tocava à meia com o Tio Marcílio, aconteceu um trágico episódio, envolvendo o Lázaro Padeiro. Na hora do almoço, como o Faustino era o dono do serviço, esperou que todos comessem, com receio de que a boia fosse pouca para tantos amigos, que compareceram ao serviço de limpar a terra para o plantio de feijão, e só depois que todos comeram é que ele foi almoçar. Assentou-se num toco, de costas para os companheiros, e se deliciava com o cardápio do dia: arroz, feijão, carne de porco, mandioca e ovo frito.

Naquela região, durante a cesta, era comum ficarmos jogando pedrinhas e gravetos uns nos outros. Nesse dia, o Tio Marcílio pegou um graveto, jogou-o nas costas do Lázaro, e se virou, para despistar. O Lázaro, sem dizer nada, levantou-se, pegou a sua enxada, com cabo de guatambu, e, segurando ela pelo lado da lâmina, desceu uma paulada na cabeça do Faustino. O prato de comida caiu longe e o sangue cobriu todo o rosto do Faustino. O couro cabeludo, que se soltou com a forte pancada, cobriu toda a sua orelha esquerda.

Tio Marcílio, desesperado, vendo o companheiro caído e ensanguentado, disse ao Lázaro: 'Você tá doido, Lázaro?! Não foi o Faustino que brincou com você, fui eu que te joguei um graveto! E por causa de um graveto você faz uma barbaridade dessa! Foge daqui, que a coisa não vai ficar boa pro seu lado, não. Some daqui!'

Lázaro Padeiro fugiu e ficou escondido na capoeira por um dia e uma noite. O Faustino foi socorrido, nem foi ao médico. Não correu perigo de morte. Passado algum tempo, o Faustino e o Lázaro voltaram às boas.

Teve também uma briga entre o Lázaro Padeiro e o Valdemar. Não sei dizer onde nem por quê. Uns quatro anos depois disso, num pagode na casa da Dona Irany Paranaíba, viúva do Tomé Paranaíba, o Lázaro quis se vingar. No dia desse pagode, chegaram juntos alguns cavaleiros: o Lázaro Padeiro, os irmãos João Pato e Zé Pato, o Durval Souza Lima e o Neguinho Muniz, meu cunhado. Foi o Neguinho que me contou o que eu estou contando agora. Eles apearam e foram para a tolda, que estava lotada, cortando caminho por entre a turma. O Durval estava na frente do Lázaro. Quando o Lázaro viu o Valdemar, no meio da tolda, num lampejo, empunhou o revólver que o Durval carregava no cós da calça, nas costas, e disparou um tiro, certeiro, que perfurou a barriga do Valdemar, perto do umbigo.

Valdemar caiu no chão, ensanguentado, e o Lázaro Padeiro caiu no mundo, desnorteado. O Durval também fugiu, porque o revólver 38 era dele. Os dois foram para a casa de um tio do Durval, o Miguel Souza, perto de Caçu, Goiás, onde ficaram escondidos até que a poeira abaixasse... Depois de mais ou menos dois anos em Goiás, o Lázaro voltou, trazendo a Sebastiana Souza, filha do Miguel Souza, com quem se ajuntara e tivera um filho.

Num outro dia, num pagode na casa do Alfredo Pádua, aconteceu uma briga, envolvendo o Zequinha do Joninha. O Lázaro, que era muito amigo dele, estava junto. Eles descarregaram os revólveres nos bambus da tolda, armada dentro do curral. O velho Alfredo, para evitar uma tragédia, retirou seus familiares da tolda, levando-os para a sede da fazenda. Mas, o Zequinha, bêbado como um gambá, ficou falando que iria até a fazenda, que isso e aquilo... Meu Padrinho Nenê Muniz agarrou o Zequinha, jogou no chão e montou em cima dele, dizendo a ele que deixasse daquilo. Então, o Lázaro apontou o seu revólver para a cabeça do meu padrinho e disse: 'Ô Seu Nenê, solta o Zequinha se não eu dou um tiro no sinhô!' Meu padrinho não se intimidou: agarrou as pernas do Lázaro, jogou ele no chão, e montou nele também. Foi uma confusão, as meninas choravam, pedindo, pelo amor de Deus, que parassem com aquilo, até que tudo se acalmou... Alguns dias depois, o Lázaro foi lá em casa, onde o Padrinho Nenê Muniz estava, e levou o maior sermão dele..."



*

 

Depoimento de Edson Angelo Muniz (autor):

 

"Tio Lázaro Padeiro foi um batalhador. Na lavoura, trabalhava demais, debaixo de um sol causticante. Com seu carro de boi, fazia qualquer tipo de viagem; e, no carretão, puxava toras de madeira do mato. Ele também foi dono de uma carvoeira e motorista de caminhão e de ônibus. Lembro-me que o Tio Lázaro e o seu irmão, Neinho — meu pai —, fizeram uma sociedade e compraram um ônibus, um Chevrolet Marta Rocha, para transportarem passageiros nas linhas que o meu pai possuía.

Eu passei a conviver mais com o Tio Lázaro na época em que ele e sua irmã, Terezinha, trabalhavam juntos numa torrefação de café, em Cachoeira Dourada de Minas. Morávamos todos numa mesma casa; porém, em cômodos separados. Na frente dessa casa, num cômodo comercial de duas portas, funcionava uma casa de jogos: sinuca e baralho, e o Tio Lázaro era o dono. Meu primo Helinho, filho do Tio Lázaro, e eu levantávamos de madrugada para jogar sinuca, já que menores não podem frequentar este tipo de estabelecimento. O Tio Lázaro não se importava que jogássemos sinuca a portas fechadas, ele só não gostava quando pegávamos seus baralhos usados e íamos jogar pife-pafe com alguns colegas, detrás do cinema do Kubtischek. Um dia a casa caiu: estávamos jogando baralho, e a polícia nos prendeu. Um dos jogadores me dedurou: "O baralho é do Edson." Todos foram liberados, somente eu, com onze anos de idade, fui para a delegacia. Quando me perguntaram onde eu havia conseguido os baralhos, eu contei a verdade, mesmo sabendo que levaria uma grande bronca. O delegado mandou chamar o Tio Lázaro, que foi o meu advogado de defesa neste caso, e eu fui liberado. Em casa, fui repreendido pelo Tio Lázaro e pela minha mãe.

Quando eu era pequeno, conversava muito pouco com o Tio Lázaro, pois tinha medo dele, porque sempre ouvia os mais velhos contarem que ele era muito bravo e que já havia matado muitos homens. Depois que eu cresci, esse meu medo acabou porque eu descobri que as histórias que eu ouvia, na verdade, haviam sido aumentadas, seguindo o ditado: 'quem conta um conto, aumenta um ponto'.

Vou narrar aqui algumas das muitas histórias que eu ouvi sobre as proezas do Tio Lázaro Padeiro; e, com certeza, também vou aumentar os meus pontos...

Tio Lázaro Padeiro gostava de dançar e de tomar uma cachacinha da boa, mas era briguento e encrenqueiro e sempre aprontava das suas nas vendas e pagodes na região da Fazenda Santa Bárbara. Como ele bebia muito, moça nenhuma queria dançar com ele, aí, quando isso acontecia, ele dava tiros nas lamparinas, deixando a tolda às escuras.

Num desses pagodes o Tio Lázaro bebeu tanto que se escorou em uma cerca mais afastada da tolda. Ele foi escorregando, até se assentar no chão, e dormiu ali mesmo. Outro pagodeiro saiu do baile e foi urinar. Que azar do Tio Lázaro: o outro mijou na cabeça dele. Quando sentiu aquela água quente batendo em seu rosto, Tio Lázaro se levantou, assustado e nervoso, e começou a brigar com o rapaz. O pobre rapaz tentou se desculpar, mas meu tio não quis mais saber de conversa: sacou o seu 38 e disparou. A bala pegou de raspão na cabeça do moço, que caiu, desmaiado. Tio Lázaro, achando que o rapaz estava morto, fugiu, montado em seu bonito cavalo alazão.

Outro dia o Tio Lázaro brigou num pagode e deu um tiro em outro rapaz. Pensando tê-lo matado, Tio Lázaro precisou fugir para o estadão de Goiás. Seu pai, o Vovô Nenê Padeiro, vendeu os bois e o carro de boi do Tio Lázaro, e vendeu também parte da boiada dele, para que seu filho pudesse fugir e para contratar um macumbeiro da região, na esperança de que este pudesse evitar que a polícia prendesse o Tio Lázaro. Isso eu ouvi da boca do Tio Lázaro: 'Eu fugi para o meio do mato. Os policiais passavam a poucos metros de mim; eu me escondia atrás de uma árvore e não era visto...'

Eu me tornei muito amigo deste meu tio, e, sempre que podia, ia visitá-lo para ter um dedo de prosa com ele. Jogamos várias rodadas de truco juntos, e na maioria das vezes éramos adversários. Como eu gosto de trucar de falso, e o meu Tio Lázaro já me conhecia muito bem, era só eu trucar em carta pequena, principalmente num dois, que ele mandava eu matar. Raras eram as vezes que eu matava o dois, e ele ria a valer da minha tentativa de roubo. Porém, quando eu não estava blefando, e matava a carta do Tio Lázaro, ele dizia, entre sorrisos: 'Mentiroso quando fala a verdade, dá prejuízo!'".     

 

      

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