FAMÍLIA ANGELO
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

 

JUSTINIANO BERNARDES DE OLIVEIRA "TINANE"

       


     

 

Justiniano Bernardes de Oliveira, conhecido por Nane e chamado pelos sobrinhos de TiNane, filho de Belarmino Bernardes de Souza e de Perciliana Inocência de Jesus, nasceu em 3 de agosto de 1882, na Fazenda da Chácara, município do Patrimônio de São Jerônimo (hoje, Gurinhatã, MG), Distrito de São José do Tijuco (hoje, Ituiutaba, MG), onde viveu por muitos anos. Rapaz, faceiro, andava em uma mula, bem arreada, e usava roupas boas, bota e chapéu de couro e esporas de prata.

Moças casadoiras lançavam seu charme para laçar o peão alinhado; mesmo mulheres casadas por ele se interessavam. Rosa Ludgero da Cruz, mais conhecida como Rosa Muniz, foi uma que com ele se envolveu. Após a morte de seu marido, viveram juntos por algum tempo. Desta união, de acordo com relatos orais, nasceu Doracina Bernardes de Oliveira.

Rosa Muniz era muito prendada, e uma costureira de mão-cheia. Depois de algum tempo de união estável, TiNane foi a Ituiutaba, comprou alguns metros de linho branco, e pediu que lhe fizesse um novo terno. Ela se pôs a trabalhar, mas qual não foi sua decepção ao descobrir que o terno que fizera, com tanto carinho e capricho, seria para ele se casar com Elvira Maria de Oliveira. Rosa Muniz, então, possessa, retalhou o terno com a tesoura, e queria retalhar o traidor também. Foi um deus-nos-acuda...



*
 

Quando Belarmino faleceu, TiNane, como filho mais velho, passou a tomar conta dos negócios da família. Algum tempo depois, apareceu, na fazenda, o senhor Albino Soares Fontes, um paulista bem-apessoado, conversador, tocador de viola e cantador. Na sala, pegou a viola e cantou uma moda. A viúva Perciliana deixou a cozinha, e o café no fogo, e foi vê-lo cantar. Por ele, apaixonou-se, à primeira vista.

Albino por ali ficou, morando com Perciliana, que o paparicava. TiNane e seus irmãos não gostaram da união nem de Albino. O tempo foi passando, e Perciliana engravidou-se. Deu à luz uma menina: Gumercina de Oliveira.

Um dia, Albino foi encontrado morto, em uma croa, perto de Gurinhatã; local conhecido por "Croa do Albino". Ninguém teve dúvida sobre quem fora o responsável por sua morte. Contudo, o que levou TiNane a praticar o crime não se sabe ao certo...

Uns contam que Ambrosina, irmã de TiNane, não era mais moça direita. Naquele tempo, quando uma moça perdia a virgindade, antes de se casar, era considerada perdida. Não arrumava casamento, e, às vezes, era expulsa da casa dos pais; para sobreviver, muitas se prostituíam.

Os filhos mais velhos da viúva armaram uma presepada para Albino. Combinaram com Ambrosina para que o seduzisse, e marcasse um encontro. Albino caiu na armadilha. Quando o chamego estava acontecendo, TiNane e os irmãos chegaram, e pegaram os dois na cama. Contaram para a mãe, que expulsou Ambrosina e Albino da fazenda, mandando-os para umas terras da família, no estado de Goiás. Já na estrada, TiNane aproximou-se de Albino e o ameaçou: "Não apareça mais por estas bandas, Albino. Se eu o encontrar, novamente, por aqui, você me mata ou eu lhe mato!"

Ambrosina engravidou de Albino, e, em 1909, em Goiás, deu à luz Sebastião Bernardes de Oliveira — em sua certidão de nascimento, lavrada no cartório de Registro Civil de Ituiutaba, consta que Sebastião nasceu na Fazenda Santa Bárbara, no município de Ituiutaba.

Quando o menino completou oito anos, ficou órfão de mãe. Albino, então, voltou para a região da Fazenda Santa Bárbara, trazendo seu filho, e dizia a todos que havia voltado para morar com Perciliana, porque ele se dava bem com a velha, e os filhos dela tinham de aceitá-los viverem juntos. "Além do mais, eu não quero o dinheiro deles", afirmava Albino.

Algumas pessoas o aconselharam a não ir à fazenda, porque TiNane o havia jurado de morte. Albino ficou por ali, na casa de alguns conhecidos seus, por um mês, armando-se de coragem para enfrentar os filhos de Perciliana. No dia em que resolveu ir, TiNane ficou sabendo e, com seu irmão Marcolino Pato, foi esperar por Albino, no alto da croa.

Albino deixou Sebastião com os donos da casa onde estavam hospedados, e partiu rumo à fazenda da viúva Perciliana, montado em um burrinho pampa. Ao passar pela croa, onde os irmãos Bernardes o esperavam, começou um tiroteio. Albino caiu, morto, do burrinho, alvejado por uma bala da carabina de TiNane. Nem se deram ao trabalho de enterrá-lo. Deixaram o defunto no meio do mato, para apodrecer e ser comido por urubus, animais...

Outros contam que fora Albino que, morando com Perciliana, seduzira Ambrosina e a engravidara. Quando Perciliana e os filhos descobriram, Albino fugiu e ficou escondido em um ranchinho, na croa. Os conhecidos que o visitavam lhe avisavam que TiNane estava dizendo que iria matá-lo, ao que respondia: "Mata, nada! E de onde eu tirei uma, vou tirar outra..."

Em uma tarde, TiNane e seu irmão, Marcolino Pato, armaram-se de carabinas, montaram em suas mulas, e foram para a croa. Lá encontraram Albino, e lavaram a honra da família com o sangue do violeiro conquistador. Sebastião, o filho de Ambrosina e Albino, ficou na fazenda; e foi criado pela avó. Após sua morte, TiNane cuidou do menino.

Justiniano Bernardes de Oliveira, então, comprou a parte da herança de seus irmãos, e tornou-se um grande capitalista da região da Fazenda Santa Bárbara, município de Ituiutaba.



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TiNane era um homem severo com a família e, mais ainda, em seus negócios. Quando morava no Córrego do Tamboril, guardava seu dinheiro em uma caixa, de bálsamo, e emprestava-o a juros. Ao emprestar, perguntava: "Você terá condições de me pagar? Se não tiver, é melhor não pegar o dinheiro, porque não vai ser bom pra você." Tinha um funcionário, de sua inteira confiança, conhecido por Paia Roxa, que sempre o acompanhava. Se precisasse "cobrar" algum empréstimo, bastava TiNane pedir-lhe, que ia à procura do devedor... E ai de quem não pagasse!

Em Ituiutaba, Justiniano Bernardes de Oliveira ficou conhecido como um homem de negócios, dono de uma grande fortuna — um agente financeiro, um "capitalista", como diziam —, que praticava filantropia. Doou algumas casas para instituições de caridade, e ajudou a construir o Sanatório Espírita José Dias Machado. Em 1972, fez uma doação para a Prefeitura de Ituiutaba, no valor de Cr$ 97.500,00 (noventa e sete mil e quinhentos cruzeiros, para ser "aplicada na construção de casas de residência, destinadas às famílias desabrigadas do Município".
Em sua homenagem, pelo que fez para a comunidade tijucana, seu nome figura em uma das ruas de Ituiutaba. Na Lei Municipal n.º 3.610, de 8 de maio de 2003, sancionada pelo prefeito Públio Chaves, está escrito: "Art. 1.º — Fica denominada de Justiniano Bernardes de Oliveira atravessa s/n.º, localizada no Bairro Maria Vilela, entre as ruas Francisco Alves Vilela e Lázara Carvalho Vilela."

Após a morte de TiNane, sua fortuna foi esquartejada: uma boa parte ficou nos bolsos dos advogados de seu espólio. Doracina Bernardes de Oliveira contestou seu testamento, uma vez que ele não a citou como filha legítima. Este litígio se arrastou no tribunal por cinco anos, justamente na época em que ocorreram duas desvalorizações de nossa moeda. Quando, finalmente, terminou a pendenga, as instituições de caridade receberam outra boa parte, e os herdeiros, o restante. Meu pai, Neinho, sobrinho-neto de TiNane, recebeu a quantia de NR$ 1.500,00 (mil e quinhentos cruzados novos). "Uma ninharia, Sô!", disse o Neinho à Dorcina, sua esposa.



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Conheci TiNane, pessoalmente, quando fui à sua casa, acompanhando meu pai. Ele estava com 88 anos, e morava na Rua 22, entre as avenidas 17 e 19, em Ituiutaba, MG, na companhia de Alvina Ribeiro de Moraes, com quem se casara.

As informações deste relato, eu as compilei a partir de depoimentos orais de parentes, que se lembraram das proezas de Justiniano Bernardes de Oliveira, o desbravador de sertões.

 

 

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