FAMÍLIA ANGELO
Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz

HÉLIO JORGE DE OLIVEIRA "HELINHO"

       


     

Helinho nasceu em 1955, em Goiás, e é filho do Lázaro Batista de Oliveira, o Tio Lázaro Padeiro, e da Sebastiana Souza. Seus pais se separaram quando ainda era pequeno, e ele foi morar com seu pai, mas quem o criou foi a Vovó Nêga e a Tia Terezinha Angela de Oliveira.

Em nossa infância o Helinho e eu estávamos sempre juntos; ao crescermos, fomos separados pelo destino, e há muitos anos que não nos encontramos, mas algumas histórias que passamos juntos não me saem da memória...
 


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Meu pai era proprietário de uma venda à beira do Rio da Prata e da estrada, num local que ficou conhecido como "Ponte do Meio". Certa vez, quando meu primo Helinho, de cinco anos, foi passar uma temporada conosco, fizemos uma traquinagem: nosso quarto ficava do outro lado das prateleiras da venda, onde ficavam as garrafas de guaraná Mineiro, e achamos — ou será que fizemos? — um buraco na parede de casqueiros, por onde pegávamos as garrafas pequenas. E toda noite, o Helinho, que tinha cinco anos, a Ednair, minha irmã mais velha, de seis anos, e eu, com apenas quatro anos, tomávamos guaraná Mineiro, furando as tampinhas com um prego. Que delícia era tapar o buraquinho com o dedão, sacolejar a garrafinha, levá-la à boca e sorver aquele líquido espumante e gostoso!... Quando o papai descobriu, o monte de garrafas vazias debaixo das nossas camas já era enorme.
 


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Em maio de 1961, Neinho, meu pai, veio com a família para Ituiutaba, Minas Gerais, e fomos morar numa Chácara, no Capão da Lagoa, e o Helinho veio morar conosco. A chácara era grande e possuía um enorme bananal, onde o Helinho, a Ednair e eu comíamos bananas madurinhas, ainda com o cacho na bananeira. Tínhamos ali uma fartura de dar gosto! Meu pai construiu nesta chácara — não tenho certeza, mas penso que essa chácara era do Tio Bebé, irmão do meu pai —, uma casinha com paredes de adobe — fabricados por nós. Digo "nós" porque as crianças gostavam de pisar o barro, para misturá-lo ao capim, matérias-primas do adobe. As fôrmas, de tábua, foram feitas pelo Neinho.

A escola mais próxima era o Rotary, na Rua 36 entre as avenidas 5 e 5-A, no Bairro Progresso, onde começamos a estudar, no primeiro aninho. Todos os dias o Helinho, a Ednair e eu íamos juntos para a escola. Todos nós tínhamos apelidos, que eram escolhidos pela nossa professorinha: o da Ednair era "Macaca do Tarzan" (talvez porque gostava de levar bananas para a hora do recreio), o do Helinho era "Leite Desnatado" (deve ser porque era mais branco que os demais colegas), e o meu era "Edinho" (porque eu era o menor da turma), e assim por diante. Nossa Professora, a Dona Cidinha, gostava muito de todos os alunos mas tinha um carinho especial pelo "Edinho". Na sala de aula eu sempre colocava os dois pés sobre a carteira e a linda professorinha dizia: "quando a Dona Cidinha chamar: 'Edinho', ele vai responder lá do alto das traves: 'Presente'".
 


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Nossa querida Tia Terezinha, a irmã caçula do Tio Lázaro Padeiro — pai do Helinho — e do Neinho — meu pai —, morou muitos anos em Ituiutaba, num sobradinho, situado na Rua 26, entre as avenidas 7 e 9, em frente a uma oficina de bicicletas, na qual o Helinho trabalhou, depois, como ajudante e mecânico.

Como a Tia Terezinha trabalhava o dia todo, e não lhe sobrava tempo para preparar o almoço e o jantar, ela pagava a comida em uma pensão, e quem buscava as marmitas, em sua bicicleta sem paralamas e sem freios, era o Helinho.

Num dia, de manhã, eu fui a casa da Tia Terezinha para me encontrar com o Helinho. Conversamos e brincamos até quase na hora do almoço. Brincávamos de muitas coisas, mas gostávamos mais de brincar, junto com outros colegas, na construção de três andares, onde funcionaria um hospital, que estava inacabada e paralisada, na Avenida 7, entre ruas 24 e 26. Lá brincávamos de pique-esconde e de pular, do segundo andar, no monte de areia fina, que ficava na calçada. Às vezes, quando apertava, fazíamos ali mesmo as nossas necessidades fisiológicas...

Não sei dizer porquê, mas o Helinho, naquele dia, não podia ir à pensão e me pediu para buscar o almoço. Então, eu, que já sabia onde era a tal pensão, peguei a bicicleta do Helinho e as marmitas da Tia Terezinha, que eram redondas, presas a uma alça com pegador e com tampa somente na última vasilha, tudo em alumínio, e fui pedalando, subindo pela Avenida 9, sentido Praça da Prefeitura.

As ruas e avenidas de Ituiutaba, naquele tempo, ainda eram pavimentadas com blocos de pedras — algumas, até hoje, ainda são assim —, mas estavam arrancando as pedras de algumas ruas e avenidas mais movimentadas, e preparando-as para receber pavimentação asfáltica. A Avenida 7, por onde eu voltaria com as marmitas, era uma das que estavam em obras, com vários montes de cascalho do lado direito de quem descia. Coloquei o conjunto de marmitas no guidão da bicicleta e iniciei o caminho de volta. Passei em frente à Igreja Matriz de São José, onde fui batizado, fiz o sinal da cruz, e comecei a descer a Avenida 7.

Para diminuir a velocidade, já que a bicicleta não possuía freios, era preciso friccionar o pé num dos pneus. Não me lembro o que aconteceu, mas quando eu cheguei perto da construção do hospital, onde brincávamos, tive que pensar rápido para evitar uma colisão, e, então, usei o freio adaptado, mas me dei mal. Como a bicicleta estava embalada, eu coloquei o pé direito no pneu dianteiro, mas não firmei bem, então, o meu pé foi puxado pela roda e se prendeu no garfo. A bicicleta empinou, eu passei por cima do guidão e fui cair num dos montes de cascalho. A bicicleta saiu intacta, agora, as marmitas ficaram vazias e amassadas, e eu fiquei todo ralado, com o pé direito doendo muito e com a cabeça fervilhando, só de pensar na bronca que eu levaria da Tia Terezinha, pois, naquele dia, ela ficaria sem almoço.

Só depois foi que o meu primo Helinho, com um sorriso nos lábios, me ensinou a usar o calcanhar no pneu traseiro para diminuir a marcha da sua bicicletinha...

 

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Depois do falecimento da Vovó Nêga, Tia Terezinha mudou-se para Santo André, SP, e o Helinho, com onze anos de idade, foi morar com o Tio Lázaro e a Tia Maria, em Cachoeira Dourada de Minas, onde nós também morávamos.

O Helinho era um destemido, eu era um molenga. Nas ruas, ele era o líder, e eu o seguia, mas tinha a vantagem de ser "o primo do Helinho", como eu era chamado pela turma. Ele, dentro d'água, nadava como um peixe, enquanto que eu era um machado-sem-cabo.

Num dia ensolarado, cabulamos a aula e fomos para o Rio Paranaíba, no intuito de atravessá-lo, a nado, para irmos à matinê do cinema, em Cachoeira Dourada de Goiás. Na hora H eu amarelei, e o Helinho, dizendo que eu era um frouxo, tirando suas roupas, atravessou o rio, nadando com uma mão só, segurando, com a outra mão, suas roupas para o alto para que não se molhassem...

Nesta época, o Helinho e eu éramos engraxates, e nossas caixas ficavam na calçada, em frente ao estabelecimento de jogo de sinuca do Tio Lázaro. Numa tarde, estávamos chamando os fregueses quando um homem passa por ele e senta-se em minha cadeira. O Helinho ficou nervoso e dizia que aquele era freguês dele. Não dei bola para suas lamentações, coloquei as quatro "orelhas" — pedaços de couro ou de papelão que são colocados dentro dos sapatos dos fregueses para não sujar as suas meias de graxa —, e comecei a lavar os sapatos daquele senhor, que dizia estar com muita pressa.

Nesse meio tempo, passou na rua um caminhão basculante. O motorista parou o caminhão perto de nós e chamou o meu freguês para ir embora. Ele levantou-se e subiu no caminhão, sem pagar nem pela lavada dos sapatos, e ainda levou as minhas "orelhas".

O Helinho ria a valer da minha desdita. Eu fiquei boquiaberto, sem esboçar nenhuma reação, vendo o caminhão se afastar lentamente. A partir daquele dia o Helinho, pra se vingar, apelidou-me de "Fé-em-Deus-e-pé-na-tábua". Apesar de eu não gostar, o apelido não pegou.

 

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Também em Cachoeira Dourada, no Rio Paranaíba, eu me afoguei pela quarta e última vez em minha vida. Eu já tinha 11 anos e junto com alguns colegas e o meu primo, Helinho, cabulamos a aula e fomos para o rio. Ao chegarmos numa corredeira, todos pularam para o outro lado. Eu tentei pular, mas por ser um dos mais pequenos do grupo, não consegui impulso suficiente, caí na corredeira e fui rodando até um redemoinho. Fiquei sabendo, depois, que nossos colegas tiveram que segurar o Helinho, porque ele queria pular na corredeira para me salvar. Lembro-me até hoje de ver em minha frente uma pedra preta, depois disso, não lembro de mais nada. Desmaiei e voltei a mim pouco tempo depois. Das outras vez em que me afoguei, foi meu pai quem me salvou, mas, como ele não estava junto comigo naquele dia, porque eu havia ido escondido dele e de minha mãe, quem me salvou foi nosso Pai do Céu com a intercessão de Nossa Senhora Aparecida e do meu Anjo da Guarda. O rebojo, ao invés de me puxar para o fundo do rio, jogou-me na areia, como num passe de mágica ou milagre.
 


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Quando morávamos em Ituiutaba, no Bairro Ipiranga, lembro-me de um dia de chuva forte, com muitos relâmpagos e trovões, acompanhados de um vento forte, que destelhou algumas casas e derrubou parte do Grupo Escolar, que ficava na praça central do bairro. Dias depois, funcionários da prefeitura fizeram uma limpeza, retirando os escombros, e aquele espaço cimentado, a céu aberto, passou a ser um local de lazer, onde os meninos do bairro se encontravam para brincar. E brincadeiras não faltavam: jogar bola, pique-esconde, carrinhos de rolamentos, empinar papagaio, etc.

Certo dia, estávamos neste local, brincando com outros colegas, e o Helinho levou um tiro de chumbinho. Não tenho muita certeza de como tudo aconteceu, lembro-me apenas que o Isaías apareceu no cimentado com uma espingarda de pressão, e ficou exibindo-a, apontando a arma para todos os lados, inclusive para os colegas, e fingindo que iria atirar, expondo todos nós a um grande risco, porque a espingarda estava armada e carregada, e um tiro de chumbinho pode cegar e até matar.

O Helinho então, para brincar com o Isaías, disse algo para ele, mais ou menos assim: “Você não acerta nada com esta espingardinha. Tenta acertar meus pés...” Dizendo isso, o Helinho ficou pulando na frente do Isaías, que voltou o cano da arma no rumo dos pés do Helinho e puxou o gatilho. Logo após o barulho de ar comprimido sendo liberado, ouvimos o grito do Helinho: para seu azar, o chumbinho acertou em um dos dedões do pé.

Foi uma correria para todos os lados. No local ficaram apenas três garotos: o Isaías, trêmulo, o Helinho, bravo, mas sem chorar, e eu, preocupado mais com o que o Helinho iria fazer do que com o ferimento, que, graças a Deus, não havia sido muito sério. Mas o Isaías, que era muito amigo e humilde, pediu perdão ao Helinho, que, para meu espanto, aceitou, e tudo terminou sem briga. Em casa, minha mãe lavou a ferida, colocou mertiolate e amarrou um pano limpo no dedão do Helinho, e nos deu uma bronca daquelas...

Ao longo dos anos eu aprendi que tudo o que acontece conosco e ao nosso derredor não é por acaso. Hoje eu tenho a certeza de que o Helinho, naquele dia, foi inspirado por nossos Anjos da Guarda para atrair a atenção do Isaías para os seus pés, fazendo com que ele parasse de apontar a espingarda para nós, evitando, assim, que algo pior acontecesse.

No outro dia, lá estava a turma do bairro no cimentado do Grupo Escolar, e entre ela o Helinho e eu...
 


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Eu nunca fui de brigar com ninguém e fugia – e ainda fujo – de todo tipo de discussão, mas gostava de brincar de ferrar luta com o Helinho, ora corpo a corpo, ora fingindo dar socos um no outro.

Numa tarde, no cimentado, o Helinho apareceu com um canivete na mão – talvez para intimidar ainda mais a turma, sei lá! Quando ele me mostrou o canivete, eu encostei-me na parede do grupinho, toda marcada de sinais de bola, levantei os dois braços, fingindo que me rendia, e disse a ele: “Helinho, faça de conta que vai perfurar a minha barriga com este canivete.” Ele empunhou o canivete com firmeza e foi esticando o braço no meu rumo. Quando a lâmina pontiaguda estava a uns cinco centímetros da minha barriga, eu desci o braço esquerdo rapidamente, batendo-o no braço armado do meu primo, e desferi um soco no rosto do Helinho, usando o outro braço. A minha intenção não era acertá-lo, pois tudo não passava de uma encenação, mas eu estiquei demais o braço e acertei em cheio o rosto dele, que detestava ser agredido.

O Helinho levou a mão ao rosto, alisando o local atingido, e me olhou com ar de espanto. Abaixou-se, pegou o canivete que havia caído, e me entregou-o, dizendo: “Agora é a sua vez de me atacar e eu de me defender.”

Eu, que era molenga, mas não era nada bobo, dei um jeito de cair fora daquela brincadeira para não levar o troco...
 


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Helinho... sinto muita falta do nosso tempo de adolescentes, quando vivíamos momentos de felicidade e de aventura. Ao ler esta página, e se lembrar de mais algum detalhe para completar as histórias aqui relatadas, ou de alguma história que eu não me lembrei, e que você queira me contar, por favor, me envie, para que esta página fique com mais detalhes

Até qualquer dia, meu primo!...     

 

      

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